RESUMO
O
principal objetivo dos Planos de Manejo é alcançar
a sustentabilidade da produção madeireira.
Até agora a realidade destes Planos tem sido questionada.
Exemplos possíveis de sucesso econômico e
em sustentabilidade, são criticáveis no
que tange a transformação da estrutura original
da floresta.
Outros modelos que consideram esta estrutura florestal,
foram abandonadas ou tiveram suas áreas invadidas
para a agricultura após o primeiro corte.
Os Planos de Manejo atuais necessitam também rever
sua adequação para manter a diversidade
da Floresta Tropical Úmida.
Por outro lado surgem questões sobre o controle
de qualidade destes Planos; necessidade de pesquisas nesta
área e respectiva zona de influência; políticas
para plano de uso da terra e por fim novos modelos para
o uso da Floresta Tropical Úmida, como o uso múltiplo.
O presente trabalho visa identificar as principais questões
e restrições para a implementação
dos Planos de Manejo e sugere caminhos para superá-los.
Política para garantir a diversidade da floresta
e provável futuro da produção madeireira
são comentados.
O trabalho também analisa a pesquisa em Manejo
Florestal Sustentado no Acre e sua importância para
a Amazônia.
Palavras chave: manejo sustentado, sustentabilidade, áreas
permanentes de manejo, práticas adequadas.
THE
MAIN CONSTRAINTS TO SUSTAINABLE MANAGEMENT
IN TROPICAL MOIST FOREST *
SUMMARY
The main objetive of management plans is to reach the
sustainability to timber production.
Until now, the reality of this plans has been questionable.
Examples with economic and sustainability sucess possibility,
are criticizables touching the structure transformation
of forest.
Others models that considered the forest structure were
abanoned or encroachmented to agriculture after the first
cut.
The presents management plans need also review its adequacy
to maintain the full diversity of Tropical Moisture Forest.
On other hand appear questions about quality control of
this plans; need of researchs and its zone of influence;
policy utilization like multiple use.
The present work aims to identify the main questions and
constraints to implementation of management plans and
to suggest ways to overcome.
Policy to guarantee the diversity and probable future
of timber production are commented.
The work also analyse the management research in Acre
and its importance to Brazilian Western Amazon.
Key words: sustainable management, sustainability, permanent
management areas, best pratices.
1. INTRODUÇÃO
Durante
muito tempo a exploração madeireira foi
realizada sem aplicação do conceitos de
manejo florestal. Atualmente mesmo com a identificação
desta necessidade, uma área desprezível
é manejada levando em consideração
a sustentabilidade madeireira e menos ainda outros fatores
que dizem respeito a diversidade. Oldfield (1989) citado
por Goodland (1991) conclui que somente 0,2% das florestas
tropicais são manejadas visando a produção
sustentada da madeira.
Em 1990, a WWF e outras NGO`s conservacionistas fizeram
pressão junto a ITTO para a adoção
da meta do manejo sustentado para 1995. Este acordo foi
prolongado para o ano 2.000.
Não há dúvida que já existem
técnicas indicadas ao manejo florestal relacionado
a floresta tropical. Entretanto em todo o mundo o que
se vê é uma exploração florestal
sem normatização controlada que logo é
substituída pela a agricultura ou outra atividade,
apesar de todas as discussões sobre uso adequado
da terra ou ambientais.
Os encontros científicos parecem, entretanto incapazes
até agora de influenciar os setores responsáveis
de fato pela administração dos recursos
naturais.
2. AS PRINCIPAIS RESTRIÇÕES
2.1
SUSTENTABILIDADE
A definição de sustentabilidade tem origem
nos trabalhos de manejo em florestas temperadas. Conceitualmente
seria a produção madeireira, garantida perpetuamente,
em determinada área florestal.
As definições de sustentabilidade a seguir
são suficientes para esclarecer o conceito dentro
do presente trabalho:
“To exploit forest in a way that provides a regular gield
of forest produce without destroying or radically altering
the composition and structure of the forest as a whole.”
(John Wyatt-Smith, 1987) e “ multiple use management of
forests for sustained yield of timber is emphasized.”
(ITTO/HIID, 1988).
A dificuldade desta garantia está na complexidade
e fragilidade dos sistemas das florestas tropicais. Existe
uma gama de problemas ainda não completamente estudados
com influência do solo, regeneração
das espécies florestais de interesse, fauna, reprodução
e silvicultura em geral.
Poore e colaboradores informam não se poder afirmar
um conceito claro sobre manejo sustentado. Preferem basear-se
na definição da World Comission on Enviroment
and Development: desenvolvimento sustentado é “development
that meets the needs of the present without compromising
the ability of future generations to meet their own needs.”
Poore e colaboradores ainda enfatizam que não é
possível demonstrar conclusivamente que qualquer
floresta tropical tem sido manejada com sucesso para a
produção madeireira porque a resposta com
rigor completo só pode ser dado depois da terceira
rotação. A primeira rotação
não serviria de base para se avaliar qualquer subsequente
declínio.
Além disso a taxa de corte anual provavelmente
sofreria uma redução, uma vez que o incremento
provavelmente não seria o mesmo dos períodos
anteriores.
Poore também comenta: “Indeed it is questionable
whether one universal definition of “sustainable management”
is useful, because it will lend itself to different interpretations
by different interests. To avoid misunderstanding it is
essencial to be very clear wich kind of “sustainability”
we are talking about in each instance.”
Sanga Sabhasri, aborda a necessidade de várias
definições de sustentabilidade para os trópicos
e cita:
1) Sustentabilidade das características ecológicas
da floresta.
2) Sustentabilidade do nível dos produtos oriundos
da floresta.
3) Sustentabilidade da manutenção do uso
da terra em manejo florestal (ou outra utilização
florestal).
4) Sustentabilidade do incremento das qualidades da floresta
a uma taxa compatível com o crescimento das expectativas
sociais para todos os benefícios da mesma.
Sabhasri também inclui na lista “outras definições
/ objetivos comuns, por exemplo: a sustentabilidade das
comunidades dependentes da floresta, regiões e
indústrias; ou a sustentabilidade climática,
ar, a qualidade da água que afeta a produtividade
de meio ambiente não florestais. Estes objetivos
adicionais são significantes na política
da “sustentabilidade” . (Sabhasri, The role of Social
Sciences in (Attainig) Sustainable Forestry)
Vários sistemas de manejo foram tentados, entre
os mais conhecidos o Malayan Uniform System e o Tropical
Shelterwood System.
O Malayan Uniform System (MUS), desenvolvido na Malásia,
falhou por depender de áreas que eram adequadas
a agricultura e esta substituiu o manejo. Na mudança
para áreas mais elevadas revelou-se uma regeneração
esparsa e não adequada a garantir os estoques necessários,
sendo posteriormente abandonados.
O Tropical Shelterwood System (TSS), desenvolvido na Nigéria,
não teve sucesso devido a baixa regeneração
das espécies de interesse comercial uma vez que
o potencial de sementes das árvores não
eram suficientes (Asabere-1987 e Lowe-1978, citados por
Buschbacher-1990).
O modelo atual mais moderno é o Polycyclic Felling
Systems. Estes sistemas utilizam como principais vantagens
um correto planejamento de exploração para
garantir a regeneração e apropriadas definições
do comprimento dos ciclos de corte (Buschbacher, 1990).
A implementação de planos de manejo irá
imediatamente garantir um valor às áreas
florestais. Como o identificado por Poore, a sustentabilidade
perpétua ainda não está garantida.
Mas a implementação dos planos de manejo
garantirão a produtividade da floresta por muito
tempo (aproximadamente 200 anos) e mantendo os benefícios
com retorno ainda não mensurável (proteção
de bacias, qualidade da água, relativa diversidade,
etc.). Estes fatores associados a pesquisas irão
conduzindo a novos sistemas de manejo, aumentando as perspectivas
da sustentabilidade definitiva ou ampliando-a a cada rotação.
2.2
PESQUISA
As instituições de pesquisa florestal ou
ligadas a temas correlatos devem ser apoiadas para a instalação
de vários experimentos ligados ao manejo florestal.
As respostas devem ser absorvidas pouco a pouco, criando
parâmetros para serem utilizados nos planos de manejo
dentro de suas zonas de influência.
Muitos experimentos, serão de curto e médio
prazo (como a relação fauna e disseminação
de sementes, por exemplo) e outros serão de longo
prazo (como estudo de crescimento das espécies).
Cada instituição de acordo com possibilidade
financeira (externa ou interna) identificará seu
tema possível de estudo.
As pesquisas envolvem temas multidisciplinares atingindo
os ramos da engenharia florestal, ecologia, biologia,
solos, etc..
O acompanhamento de plano de manejo florestais reais,
através de parcelas permanentes (inventário
florestal), irá fornecer novos dados para o direcionamento
dos objetivos do mesmo. Também pesquisas na área
sócio-econômicas devem ser realizadas identificando,
por exemplo, as vias principais de escoamento dos produtos
oriundos da floresta e as necessidades das populações
marginais, das empresas privadas e do Estado (Cailliez,
1991).
No caso do estudo da manutenção da maior
diversidade possível, o estudo do dossel superior
da floresta tropical, pode ser bastante elucidativo. Segundo
Erwin (1988), “there is an intermingling of leaves between
the vines and trees, and between one tree overshadowing
the other, resulting in a creation of microenvironments
for the little creatures that area so important in prividing
the richness of the world´s biotic diversity”.
O estudo das copas associado ao da entrada de luz no povoamento,
umidade e temperatura do solo na floresta poderá
mudar os conceitos atuais de manejo, influindo por exemplo
na dimensão das árvores permitidas para
a exploração e influindo também na
tecnologia de transformação a qual terá
que se adequar a nova realidade. Novos modelos de rede
de estradas florestais ou adaptações devem
ser buscados considerando além de custos de construção,
do custo de equipamento e do tipo de equipamento, um “fator
ecológico”. Por exemplo, desenhos que possibilitem
um mínimo de continuidade das áreas de florestas.
O cálculo da distância ideal entre estradas
passará a sofrer influência destes fatores.
A pesquisa da sucessão e clareiras (“gaps”), germinação
de sementes, reprodução, e métodos
de exploração adequados são decisivas
para a realidade dos planos de manejo florestal visando
a sustentabilidade.
Devem ser realizados também pesquisas ligadas ao
método adequado de avaliação de campos
dos planos, não esquecendo de levar em consideração
a projeção no tempo dos mesmos. A rotação
mínima de um plano de manejo é de 20 anos
e no mínimo durante este período o mesmo
deve ser avaliado e controlado. Como poderá ser
identificado no espaço de 10 anos por exemplo se
uma área que já sofreu o primeiro corte
e aguarda a segunda rotação, não
está sofrendo novas extrações clandestinas?
Os experimentos em pesquisa ligados a manejo florestal
fornecerão novos subsídios de interesse
para as zonas de influência a serem identificadas.
Siqueira (1989) levanta ainda a necessidade de formação
de profissionais qualificados a nível de pesquisa
em manejo sustentado devido a escassez de pessoal nessa
área com a devida qualificação.
Entretanto, o principal problema da pesquisa de temas
florestais é a não “sustentabilidade” das
linhas de pesquisa das instituições, uma
vez que elas tendem a estar ligadas as mudanças
políticas no terceiro mundo.
2.3
ELABORAÇÃO E EXECUÇÃO DE PLANOS
DE MANEJO FLORESTAL
Como mencionado acima, a pesquisa no campo do manejo florestal
é e deve ser multidisciplinar, entretanto o planejamento
e execução dos planos de manejo são
de competência da engenharia florestal.
Atualmente os planos de manejo tem função
meramente burocrática ou de aval, ou seja, preenchidos
determinados requisitos exigidos pelos órgãos
de controle, a fiscalização é esquecida,
tornando-se secundária para os mesmos. Em muitos
casos o pessoal capacitado de campo é escasso,
o que pode tornar uma pessoa responsável por áreas
gigantescas e de impossível execução.
O controle de campo é um dos principais problemas.
Os órgãos fiscalizadores devem estar capacitados
do ponto de vista de pessoal e equipamento ou os planos
de manejo continuarão sendo uma falácia.
Isto é de inteira responsabilidade dos governos.
Os critérios atuais para a definição
da área mínima necessária a obrigatoriedade
dos planos de manejo devem ser reavaliados, uma vez que
novos conceitos de manejo, como a união de várias
áreas pequenas trabalhadas juntas podem ser admitidos.
A qualificação de quem executa deve ser
também questionada.
2.4
CUSTO DO MANEJO FLORESTAL
“Les calculs économiques relatifs à l´aménagement
sont des plus incertains.” afirma Cailliez (1991) e segundo
Barthod et al (1991): “Le systeme économique actuel
ne permet généralement pas de convrir, à
long terme, les coûts et les risques financiers
inhérents à la gestion écologiquement
responsable des écosystèmes forestiers et
à la production forestière.”
Estas duas questões parecem ser as de mais difícil
solução para a implementação
do manejo sustentado e algumas considerações
podem ser feitas.
Em primeiro lugar o custo dos produtos florestais é
geralmente subvalorizado (Jonhson et alli, 1991), e esta
é sem dúvida a principal questão.
No caso da madeira, o custo do manejo florestal ainda
não é considerado e no caso de produtos
não madeireiros, outros fatores como sua possível
escassez, dispersão ou importância não
compõe na maior parte dos casos a estrutura do
custo total. Ou seja, ainda não temos uma real
valorização dos recursos naturais.
Além disso, o mercado nacional ou internacional
não reconhece ainda a diferença entre madeira
produzida com ou sem sustentabilidade, tornando o preço
da primeira muito abaixo para remunerar os custos de produção
(Jonhson et alli, 1991).
Estudos adequados, projetando o manejo no tempo devem
ser realizados, abordando os custos de exploração,
tratos silviculturais, monitoramento, considerando o período
de toda rotação. Leslie (1987) concorda
com a viabilidade do manejo sustentado, salientando a
importância da escolha adequada da taxa interna
projetada durante o período e ainda a importância
de se considerar os benefícios dos produtos sem
remuneração (qualidade da água, micro-clima,
conservação do solo, etc.).
Outro fator é o número de espécies
com mercado garantido. Mais espécies resultará
que o recurso madeireiro estará mais concentrado,
necessitando poucos metros lineares de estrada por metro
cúbico (Buschbacher, 1990). As espécies
devem ser oferecidas no mercado externo ou interno por
grupos com as mesmas qualidades tecnológicas e
uso final. Segundo Lanly (1976), comentando o planejamento
de inventários florestais: “whole botanical families
present very close characteristics and corresponding species
can be grouped without difficult”., em outros casos continua,
o agrupamento é possível dentro da mesma
família.
A adaptação de mecanismos de financiamento
dos planos, adequados a duração dos ciclos
biológicos florestais são indispensáveis
a concretização do manejo sustentável
(Barthod et alli, 1991).
2.5
TÉCNICAS DE EXPLORAÇÃO FLORESTAL
A extração de toras da floresta pode ser
separadamente o maior dano sob o aspecto da exploração
florestal na vegetação das florestas tropicais,
segundo Ewel e Conde (1976). O dano atinge não
somente os fustes das árvores que permanecem, como
também compromete as mudas e portanto a regeneração.
Os mesmos autores salientam que a revisão de numerosos
estudos indicam que a exploração florestal
danifica aproximadamente 50% da vegetação
residual. Com o aumento da dimensão dos equipamentos
nos últimos anos, por unidade de área, o
dano devido a extração tem aumentado proporcionalmente.
Segundo Uhl e Vieira (1989), em pesquisa realizada no
Pará, mesmo que somente 2% das árvores sendo
extraídas, já causavam a morte ou dano a
26% das remanescentes. Uma vez que as árvores extraídas
estavam entre as de maior tamanho, 16% da área
basal do povoamento foi explorada, com o resultado de
28% da área basal remanescente destruída
ou com danos.
Poore et alli (1989), sugerem que práticas adequadas
(enviromental guidelines) em exploração
florestal podem reduzir o dano no povoamento para 6-15%.
Também informam que a regeneração
é satisfatória e os danos no povoamento
remanescente, utilizando-se as técnicas adequadas
tem ficado em media a volta de 12%.
Estas práticas devem iniciar por um inventário
a 100% que permitira um lançamento adequado de
estradas secundarias eliminando-se previamente as desnecessárias.
Também o planejamento das picadas de arraste evitará
o trânsito repetido dos equipamentos dos mesmos
pontos. O abate e arraste deve ser coordenado. O operador
de trator deve saber onde encontrar as toras através
de mapas de campo.
É necessário o planejamento adequado dos
caminhos de arraste, pátios de estocagem, limitações
da capacidade suporte do solo, responsabilidades do pessoal
de campo, e equipamento de extração permitido.
Normalmente se evitará dentro possível se
cruzar igarapés significativos, as estradas devem
ser localizadas visando facilitar a drenagem e redução
dos movimentos de terra, o calendário de exploração
deve ser obedecido, prever sistema de drenagem adequado
e avaliar previamente o impacto na área. O lançamento
de estradas deverá se adequar a pendentes limites
(ITTO,1990).
Jonkers citado por Buschbacher (1990), comenta que o dano
durante a exploração florestal pode ser
minimizado com: corte de cipós que ligam as árvores,
manutenção das árvores não
comerciais, uso de tratores de arraste, utilização
de skidders com esteiras preferencialmente ao de pneus,
elevação da tora antes do arraste e cuidadoso
plano de rede de estradas e picadas diminuindo o dano
a regeneração.
Graaf (1990) de acordo com o Celos Harvesting System a
importância a determinação de queda
das árvores baseado em necessidades ecológicas
e silviculturais; organização do abate e
trilha de arraste; utilização do guincho
de arraste; pré estabelecimento das trilhas; registro
das toras; e rotação no trabalho para promover
a responsabilidade em toda operação.
Um outro fator que deve ser considerado é a não
utilização dos sistemas de Seleção
de Equipamentos e Análise de Modelos. As características
das diferentes florestas não são levadas
em consideração. Opta-se normalmente pelos
equipamentos mais pesados, sem bases técnicas.
Todos os trabalhos levam a conclusão que para se
garantir sustentabilidade satisfatória técnicas
adequadas devem ser utilizadas (best pratices) em exploração
e planejamento da rede de estradas.
2.6 MANUTENÇÃO DA ÁREA MANEJADA E
QUESTÃO SOCIAL
Uma das causas principais da falha dos sistemas de manejo
florestal é a incapacidade dos responsáveis
pelo manejo controlar o uso da terra mesmo em áreas
que outros pré requisitos como a regeneração
após o corte é adequada (Buschbacher, 1990).
A estrada florestal neste caso se tornara um fator importante
de acesso a áreas antes virtualmente isoladas.
A invasão das áreas sob manejo florestal
sustentando após o primeiro corte com finalidade
de agricultura é uma constante em vários
países tropicais. Isto talvez advenha do fato que
em muitos locais a exploração florestal
busca áreas que antecipadamente serão destinadas
a agricultura fugindo assim do compromisso e do custo
da elaboração de um plano de manejo florestal.
Goodland et alli (1991), consideram dois fatores fundamentais
para a manutenção da sustentabilidade em
dependência com populações locais:
“stabilizing populations to live within the carring capacity
of their resources, and stabilizing economic systems so
that they do not increase strains on the finite environment”.
E como segundo fator: “is that the burgeoning populatios
are one of the main causes of deforestation. People impoverished
from whatever cause are forced into short term behavior,
such cutting forests. Forest sustainability therefore
means employment has to be created for the poor”.
Entretanto nos Estado do Acre e Rondônia (Brasil),
o deslocamento de populações do sul de pequenos
produtores em busca de áreas maiores, estimulados
pelos governos de então, criou novas necessidades
de terra nestes dois estados. A fixação
realizada sem zoneamento ou planejamento prévio
foi catastrófica para o meio ambiente e populações.
Também deve ser levado em conta que os baixos preços
de terra da Região Norte (Brasil) atraíram
médios e grandes produtores que auxiliados por
uma lei antiquada que permite o desmatamento de 50% da
área, sem avaliações de uso ideal
da terra, instalaram-se na Região. Duas importantes
ações devem ser levadas em conta primariamente
para identificação de áreas vocacionadas
a manejo florestal para assegurar o plano a longo prazo:
envolvimento das populações locais nas decisões
do manejo e benefícios do projeto e seleção
de áreas apropriadas (evitar-se áreas adequadas
a agricultura) (Buschbacher, 1990). O envolvimento de
comunidades locais pode passar pela implementação
conjunta do plano de manejo criando um forte incentivo
econômico a estabilidade do uso da terra. Para as
comunidade rurais, um retorno contínuo poderá
somente ser obtido se produtores individuais formarem
cooperativas para juntos manejarem uma propriedade muito
maior que poderiam individualmente (Buschbacher, 1990).
No caso das reservas extrativistas (que visam somente
borracha e castanha) Viana (1991) defende a extração
madeireira sob manejo sustentado salientando entretanto
que a produção madeireira para comercialização,
requer um nível de organização social
elevado e regularização da estrutura fundiária,
para impedir que ela resulte em saque às reservas
extrativistas. É claro que a opção
por mais este recurso diz unicamente respeito ao extrativista.
Qualquer plano que vise envolver as populações
locais deve prever sua melhoria de qualidade de vida:
“Whatever cures a superficial examination of the visible
causes of deforestation might suggest, the underlyng reason,
as Westoby (1982) so clearly shows, is the extend and
depty of proverty in the Third World”. (Leslie, 1987).
Entretanto, sendo viável ou não o envolvimento
de populações locais no manejo florestal
de determinada região, deverá se identificar
meios de avaliar o impacto que esta atividade mesmo margeando
comunidades, possa estar resultando e meios de minimizá-lo.
2.7 TECNOLOGIA ADEQUADA E PERSPECTIVAS DO MANEJO SUSTENTADO
Quando a indústria de transformação
nos estados ou países produtores com tecnologia
de ponta introduzir novos produtos madeireiros no mercado
também estará possibilitando o aperfeiçoamento
de novos modelos de manejo florestal que possam garantir
a sustentabilidade da floresta tropical. Supondo-se por
exemplo que classes de diâmetro mais baixas possam
ser utilizadas e que maior número possível
de espécies entre no mercado, uma melhor distribuição
poderá ser feita na extração, enquanto
classes necessárias a manutenção
da estrutura da floresta podem ser mantidas. Assim diminui-se
também a pressão nas espécies mais
conhecidas.
A necessidade da introdução de novas espécies
é clara segundo Vantomme (1991): “The Amazon holds,
in fact, “limited” export potential, as long as its numerous
timbers are considered on an “individual species” basis
and exported as substitutes for internatinally well-known
ones”.
É importante que estados e países produtores
possuam tecnologia de ponta para aumentar o valor agregado
de seus produtos tendo um ingresso satisfatório
e estimulante a visão florestal.
Para a garantia da manutenção das florestas
tropicais é necessário que os países
do Terceiro Mundo detentores destes recursos, estejam
no Primeiro Mundo na tecnologia da utilização
dos produtos florestais.
2.8 DETERMINAÇÃO DE ÁREAS PERMANENTES
DE MANEJO SUSTENTADO
As áreas permanentes de manejo florestal sustentado
seriam áreas definidas previamente para manejo,
não podendo ter outra destinação,
salvo posterior estudo.
O ideal é que o Estado tenha controle sobre estas
áreas e elas devem ser criteriosamente delimitadas
mediante zoneamento. Esta escolha seria feita entre outras
finalidades que as áreas florestais podem ter,
como, reservas biológicas, produção
de alimentos, reservas extrativistas, etc.
Caso a área seja de propriedade privada e esteja
dentro do zoneamento, deverá se enquadrar dentro
desta atividade.
Critérios para definição destas áreas
devem ser estudados junto integrando-os a legislação
florestal. Isto só poderá ser feito com
o apoio conjunto de universidades, instituições
de pesquisa, governos, etc. Uma área sob manejo
florestal sustentado, como mantém a cobertura florestal
praticamente intacta, fornecerá outros recursos
além dos financeiros, como manutenção
do solo, proteção de bacias, equilíbrio
hidrológico e climático, etc.
O manejo visando o uso múltiplo também se
enquadra nestas áreas. A decisão de em áreas
definidas a outras atividades (ex.: reserva extrativista)
executarem manejo é de escolha própria.
Os governos deverão ter sistemas de controle adequados
sobre estas áreas e como no exposto no item 2.6
deve-se evitar áreas passíveis de outro
tipo de atividade para se evitar problemas futuros.
2.9 MANUTENÇÃO DA DIVERSIDADE
Este tema está implícito em vários
itens anteriormente abordados. Nas novas classes de diâmetro
e espécies que se puder extrair, no em função
do extrato superior, da adequada rede de estradas possibilitando
uma mínima continuidade da cobertura florestal
e solo na definição correta da taxa de corte
anual, no zoneamento, estará se definindo uma metodologia
que sem dúvida permitira uma maior diversidade
a ser mantida.
Entretanto se deverá admitir, que nas áreas
destinadas a manejo, a manutenção completa
da diversidade, jamais poderá ser garantida. Por
isso em cada caso de ecossistema pode-se indicar através
de estudos qual o índice suportável.
Além disso uma política de estudo exaustivo
das diversidades regionais e criação de
modelos de monitoramento, podem ser implementados unindo-se
todas entidades de pesquisa. É claro que projetos
assim deverão contar com o total apoio dos governos
e estas linhas de pesquisa serem identificadas como prioritárias
e transcenderem os mesmos.
2.10
OPINIÃO PÚBLICA
O manejo florestal passa hoje por um grande problema de
descrédito ante a opinião pública
em geral. Nos jornais americanos a palavra “boycott” é
lembrada quando se fala em madeiras oriundas de floresta
tropical úmida. Um produto de origem madeireira
é palpável, sabe-se sua origem. Entretanto
no Brasil, muitas áreas de florestas tropicais
são atualmente derrubadas para pastagens e agricultura
visando exportação (e não interesses
locais) baseado em uma lei que permite automaticamente
que 50% da propriedade seja desmatada sem critérios
de uso da terra (adequado zoneamento). A exploração
florestal se faz ainda de forma extensiva e sem padrões
técnicos. Contraditoriamente, a elaboração
de planos de manejo que visem a sustentabilidade pelo
menos por três rotações, tempo talvez,
mais do que suficiente para novas tecnologias e direcionamentos
ou ainda a execução de pesquisas nesta área
são criticados inclusive por profissionais do meio
ambiente.
Faltando o conceito exato de manejo florestal, zoneamento
e de áreas permanentes de manejo florestal, discussões
são levantadas, “discussões estas muitas
vezes erroneamente pautadas, como se estivesse sendo discutido
o manejo florestal para fins de produção
madeireira de toda bacia amazônica, uma vez que
o zoneamento econômico-ecológico da região
ainda não foi elaborado” (Cavalcanti, 1991).
É preciso ser compreendido que um plano se manejo
utilizando os métodos adequados, sendo convenientemente
controlado e monitorado e estando localizado em áreas
limitadas por plano de uso da terra (áreas permanentes
de manejo) é preferível a extração
atual e seus danos ou outra utilização da
área florestal sem planejamento. Este conceito
de área não se opõe e ao contrário
está junto aos conceitos de reservas extrativistas,
reservas biológicas, reservas indígenas,
conservação de bacias, uso múltiplo,
etc.
Um plano de manejo florestal em última análise
normalizaria a exploração florestal, indicando
diâmetros mínimos de exploração
(e até máximos como mencionado anteriormente),
taxa anual por hectare permitida de corte, melhores técnicas
de extração a serem empregadas em oposição
a métodos que estes sim, causam danos irremediáveis
ao ambiente.
É importante a difusão destas informações
de forma a atingir a opinião pública.
2.11
ENTENDIMENTO E VONTADE DOS GOVERNOS
Os governos são os responsáveis pela manutenção
de seus recursos naturais. A temporalidade dos governos
é a principal causa da dificuldade do projeto florestal
a longo tempo.
Linhas de pesquisa, controle ou implementação
podem não ser as de interesse no próximo.
Trabalhos assim normalmente de longo tempo ficam comprometidos.
O motivo é a não compreensão destas
atividades como tão básicas como produção
de alimentos ou outro fim. É a não compreensão
exata do que é zoneamento de uso da terra, que
pode determinar várias sugestões de uso
em que se enquadram todas as necessidades. Este interesse
leva sem dúvida a diminuir a importância
da própria pesquisa ante a opinião pública.
A pergunta é: como sensibilizá-los?
A ciência florestal está sem duvida muito
a frente das vontades dos governos.
3.
ACRE: UM ESTUDO DE CASO
O estado do Acre está localizado estrategicamente
na Região Amazônica fazendo divisa com os
estados do Amazonas ao norte, a leste com o estado de
Rondônia, ao sul com a Bolívia e a oeste
com o Peru.
Possui uma área de 152.589 km2 e uma população
de 423.301 habitantes.
Apesar de estado com vocação florestal,
o modelo de ocupação atual tem copiado regiões
do país marcadamente diferentes do ponto de vista
de ecossistema.
O período anterior a este modelo foi basicamente
ocupado pelo extrativismo, com o declínio da borracha
o estado passou por período de estagnação.
Atualmente o extrativismo organizou-se através
do Conselho Nacional de Seringueiros e implantação
de Reservas Extrativistas e busca novas fontes da melhoria
ao padrão de vida do extrativista, anteriormente
baseado apenas na borracha e castanheira. A possibilidade
da extração madeireira sob manejo, é
discutida.
O total da área desmatada no estado atinge 5%.
No que se refere ao uso da terra, a pastagem é
a maior causa de desmatamento no estado, 53,11%, do total.
Estando o resto distribuído por: área urbana,
0.77; capoeira, 9.48; colocação/colônia/roçado,
12.28; projetos de colonização, 16.72; culturas,
6.49; espelho d’água, 1.15 (FUNTAC, 1992).
O Estado do Acre possui uma política de zoneamento.
A zona de influência da Rodovia BR-364 (4000.000
ha) sofreu zoneamento agro-ecológico e planeja-se
o zoneamento do Rio Acre.
O parque industrial de transformação madeireira
é formado por marcenarias, uma fábrica de
compensado e serrarias.
As marcenarias embora utilizem madeiras de alta qualidade
são quase sempre artesanais e comercializados na
maior parte no estado.
A fábrica de compensados é de médio
porte e bem estruturada tendo seus produtos exportados.
As serrarias começaram a se instalar no início
da década de 70. Foram favorecidas pela ação
do governo federal que estimulava o deslocamento para
aquela região. Os desmatamentos para fins agrícolas
e pecuários forcem então, matéria
prima em abundância. Mais tarde com uma fiscalização
melhor desenvolvida, embora a grande dificuldade dos órgãos
responsáveis, sofrem virtualmente de falta de matéria-prima,
uma vez que prática de planos de manejo que possibilitariam
seu suprimento, são praticamente inexistentes no
estado. De acordo com o Diagnóstico do Setor Florestal
do Estado do Acre, realizado pela FUNTAC (1990), em 1990
existiam em todo o Estado, 137 serrarias, sendo 61 localizadas
na capital, Rio Branco. Estas 137 serrarias produziram
naquele ano, 134.894 m3 ou 985 m3 por empresa. Estas serrarias
padecem ainda de terem mão-de-obra não qualificada.
No Estado é realizado o “PROJETO DE INTEGRAÇÃO
DO DESENVOLVIMENTO BASEADO NO USO SUSTENTADO DA FLORESTA
AMAZÔNICA”, financiado pela ITTO e executado pela
FUNTAC (Fundação de Tecnologia do Estado
do Acre). O projeto visa desenvolver plano de manejo florestal
baseado na necessidade urgente de identificar sistemas
de produção que utilizem o uso múltiplo
dos recursos naturais de floresta tropical úmida.
O estudo do uso múltiplo está ainda em fase
inicial e outros estudos deverão ser feitos nesta
direção. Estes estudos servirão de
base ao planejamento da utilização dos recursos
da floresta, influindo na administração
das reservas extrativistas.
Para este plano de manejo foram realizados: inventário
florestal estratificado de toda área (66.000 ha),
levantamentos sócio-econômicos, estudos etnobotânicos,
estudos de economia botânica, estudo de solos, estudos
de fauna, estudo de ecossistemas, estudos de seringais
nativos, estudos de bacias hidrográficas e estudos
de bambu nativo. Estas pesquisas de manejo são
as únicas realizadas no estado. No entanto mais
pesquisas devem ser implementadas.
A posição privilegiada do Acre entre os
estados do Amazonas, Amazônia Brasileira e Boliviana
o torna importante elo de ligação entre
toda Floresta Amazônica possibilitando um “pool”
com as instituições de pesquisa dos três
países assim como possibilita zoneamentos integrados
em regiões de fronteira.
Com a continuidade do zoneamento do estado e uma real
utilização destes estudos, “áreas
permanentes de manejo” poderão ser definidas assim
como outros usos da terra.
O Acre como estado eminentemente florestal, merece apoio
imediato para a modernização de sua indústria
de transformação, dando assim incentivo
a valorização de seus recursos naturais.
Entretanto um trabalho de conscientização
no estado deve ser implementado imediatamente abordando
a finalidade dos planos de manejo, congregando Governo
do Estado, instituições de pesquisa, órgãos
de controle e opinião pública.
4. CONCLUSÃO
Sabe-se que no mínimo por três rotações
a sustentabilidade pode ser garantida ao mesmo tempo que
pesquisas adequadas vão dando suporte aos planos
atuais. E que a imediata implementação destes
planos é a garantia da manutenção
da estrutura da floresta em grandes áreas com seus
benefícios.
A pesquisa deve buscar também novas opções
de sistemas de manejo ou direcionamento aos já
existentes.
Os órgãos responsáveis pela fiscalização,
devem buscar junto as instituições de pesquisa
e governo apoio no controle e análise dos planos
de manejo. O controle de campo é uma das chaves
da implementação dos planos de manejo.
O “custo do manejo florestal” deve ser avaliado em toda
sua estrutura. A admissão por parte dos países
importadores do custo do manejo deve ser imediata. Os
governos dos países produtores devem implementar
já medidas para a real execução dos
planos de manejo florestal, ao mesmo tempo que os países
consumidores, assumem o compromisso da compra de madeira
somente de países que
A comercialização de espécies deve
definir para oferta no mercado não espécies
individuais, mas agrupamento, baseado nas características
tecnológicas e de uso evitando a pressão
nas mais conhecidas.
Outros produtos ou benefícios da floresta devem
ser considerados e avaliados. O próprio valor da
árvore em pé deve ser reavaliado.
Devem ser elaborados mecanismos de financiamento compatíveis
com as rotações da floresta tropical.
Novas técnicas de exploração já
estão sendo utilizadas com ótimos resultados.
Estas técnicas devem ser imediatamente difundidas,
pois são a garantia da sustentabilidade das próximas
rotações. Neste caso, a identificação
de novos inputs para o planejamento da rede de estradas
florestais e situações de arraste é
importante, não só para a manutenção
da sustentabilidade como da diversidade. Em muitos casos,
equipamentos pesados são utilizados sem o adequado
Sistema de Seleção de Equipamento.
A estabilização e envolvimento das populações
marginais, junto com melhoria de vida e adequado plano
de uso da terra é fundamental a implementação
dos planos de manejo. A sustentabilidade das florestas
passa pela melhoria de vida destas populações,
com o tripé básico: social, ambiental e
econômico. Qualquer empreendimento em áreas
florestais deve estar limitado por rigoroso zoneamento.
Deve se estudar o estímulo a pequenos proprietários
rurais a elaboração de planos de manejo
conjunto, coordenados através de cooperativa.
O produtor madeireiro deve ter certeza que a área
que manejará, continuará como floresta,
quer esteja produzindo em área do estado, própria
ou de comodato. Esta garantia precisa ser dada ou o produtor
madeireiro desanimara de tentar o manejo florestal (Poore,
1990). As comunidades precisam ter certeza de que estas
atividades não avançarão em outras
destinadas a outro fim (reserva biológica por exemplo).
Os governos através dos órgãos fiscalizadores
deve procurar exercer um forte controle nas áreas
florestais determinadas para “áreas permanentes
de manejo”. Estas áreas devem ser criteriosamente
delimitadas e monitoradas. Seria ideal que o estado tivesse
o controle das maiores áreas cedendo-as por concessões.
Estas áreas são a garantia do manejo e manutenção
de grandes áreas com florestas e devem ser discutidas
a nível nacional sua implementação.
Novas tecnologias devem ser buscadas pelos países
ou estados produtores que possam agregar maior valor ao
produto na medida em que possibilita novos experimentos
em sistemas de manejo florestal.
A opinião pública em sua maioria desconhece
a finalidade e importância dos planos de manejo
florestal sustentado para as florestas tropicais úmidas.
Os governos devem procurar trabalhar junto as instituições
de pesquisa, primeiro compreendendo sua função,
depois apoiando-as e procurando esclarecer a opinião
pública como um todo.
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