1
- Introdução
A maior parte da produção mundial de cocos
(gigante, anão e híbrido) localiza-se na
Ásia (mais de 80%), cabendo ao Brasil uma parcela
de cerca de 2%, com uma área superior a 266 mil
hectares em 2001, quando a produção atingiu
1,3 bilhão de frutos.
A subvariedade anão verde, além de sua precocidade,
é mais resistente às condições
ambientais e sua cor é preferida pelos consumidores,
o que, certamente, contribuiu para a difusão do
seu cultivo no território brasileiro visando o
consumo da água in natura. Embora não haja
estatística oficial, há expectativa de que
seja atingida a marca de 601 mil hectares plantados até
2008. Estima-se que cerca de 10% dessa produção
seja destinada ao processamento e envase da água
de coco, para posterior comercialização.
A água de coco é uma bebida agradável,
com sabor doce e levemente adstringente, contendo baixos
teores de carboidratos, características que atraem
bastante os consumidores que buscam uma alternativa saudável
aos refrigerantes ou outras bebidas mais calóricas.
A água no interior do fruto é estéril
e se mantém assim desde que o fruto não
sofra nenhuma lesão que possibilite a entrada de
microrganismos. Entretanto, durante o seu processamento,
podem ocorrer contaminações microbiológicas
e alterações bioquímicas que inviabilizem
a sua posterior comercialização. Assim,
o problema da conservação da água
de coco inicia-se logo após a abertura do fruto.
As tecnologias de processamento e conservação
aplicadas à água de coco permitem o aumento
da vida-de-prateleira do produto e a conseqüente
formalização do comércio da água
de coco, além da geração de empregos
em um novo nicho industrial. O objetivo da industrialização
da água de coco é a obtenção
de um produto que preserve ao máximo as suas características
naturais, estendendo sua vida útil e facilitando
o seu consumo fora das regiões de plantio.
2
– Características da água de coco
O sabor da água de coco deve ser doce e levemente
adstringente, apresentando um pH em torno de 5,6. O produto
sofre mudanças na sua composição
durante o desenvolvimento do fruto. Além do grau
de maturação, outros fatores como variedade,
região de cultivo e época do ano também
influenciam nas características físico-químicas
do produto.
Dos componentes mais importantes da água de coco
destacam-se os açúcares, principalmente
glicose e frutose, cuja concentração alcança
nível máximo de 6,0 g/100mL, próximo
ao 6º e 7º mês de idade do fruto. A água
de coco é rica em minerais, independentemente da
idade do fruto, sendo o potássio aquele com maiores
teores (156 a 360 mg/100mL). Os demais minerais presentes
na água de coco são sódio, cálcio,
magnésio e fósforo. Entretanto, há
variações no conteúdo com o decorrer
do amadurecimento e com as diferentes regiões de
plantio do coqueiro.
A presença de enzimas polifenoloxidase e peroxidase
na água de coco verde deve ser considerada um fator
de grande relevância, devido às alterações
indesejáveis que acarretam, como o desenvolvimento
de coloração rósea a castanho escuro.
Há evidências de que a atividade enzimática
ocorre com plenitude em frutos com idade de cinco a sete
meses, decrescendo com o amadurecimento.
3
– Processamento da água de coco verde
O coco anão verde é o mais utilizado comercialmente
no Brasil para a produção de água
de coco verde. Além de conter maior volume de água
na cavidade central do fruto, entre seis e sete meses
de idade, o anão verde é o preferido dos
consumidores de água de coco, pois julgam que os
anões amarelo e vermelho são o anão
verde maduro e, portanto, impróprios para o consumo
de água.
Em função do tipo de processamento utilizado,
podem ser obtidos os seguintes produtos: água de
coco resfriada, água de coco congelada, água
de coco pasteurizada e congelada, água de coco
esterilizada e envasada assepticamente, água de
coco ultrafiltrada e água de coco aditivada.
Durante o processamento da água de coco, podem
ser adicionados açúcares, exclusivamente
para correção e padronização
do teor de sólidos solúveis do produto,
aditivos (antioxidantes, acidulantes e conservadores)
e coadjuvantes de fabricação, conforme legislação
específica. O uso de aditivos alimentares, entretanto,
pode, muitas vezes, alterar o sabor dos alimentos, dificultando
a sua aceitação pelos consumidores que buscam
alimentos naturais, considerados mais saudáveis.
A água de coco envasada em garrafas plásticas
de polipropileno ou de polietileno tereftalato (PET) desde
que mantida refrigerada (4oC a 8oC), tem prazo de validade
de três a cinco dias, enquanto que se for congelada
rapidamente e armazenada em câmaras frigoríficas
entre –18ºC e –20ºC pode ter sua vida-de-prateleira
estendida para três a seis meses. Após este
período, provavelmente ocorrerão alterações
de ordem microbiológica e físico-química
(modificação da cor).
A água de coco pasteurizada e congelada pode durar
até 30 dias, com maior garantia de sua qualidade,
pois são eliminados os microrganismos patogênicos
e termossensíveis e as enzimas polifenoloxidase
e peroxidase, responsáveis pela alteração
de cor do produto, são inativadas. No entanto,
alterações no aroma e no sabor da água
de coco são percebidas.
A água de coco esterilizada e envasada assepticamente
é submetida à temperatura ultra alta (UHT
- Ultra High Temperature) e acondicionada sob condições
estéreis, em embalagens hermeticamente fechadas.
O processo UHT reduz as alterações físicas
e químicas no produto que pode durar até
seis meses com bastante segurança.
A água de coco ultrafiltrada é obtida por
um processo não-térmico. Enzimas e microrganismos
deteriorantes são retidos por membranas, que podem
ser cerâmicas ou poliméricas. Este produto,
se envasado assepticamente, pode ser armazenado à
temperatura ambiente por cerca de seis meses.
4
- Resíduos do processamento da água de coco
verde
A agroindustrialização e o consumo direto
da água de coco verde têm gerado uma quantidade
de resíduos considerável e, conseqüentemente,
um problema ambiental. Quase 70% do lixo gerado nas praias
do Nordeste é composto de cascas de coco verde,
material de difícil degradação, que
é foco de proliferação de doenças
e que contribui significativamente para a redução
da vida útil de aterros sanitários e lixões.
O tempo de decomposição da casca do coco
é estimado em mais de 10 anos.
No entanto, é possível transformar essa
ameaça em oportunidade para novos negócios.
Um projeto de coleta seletiva da casca de coco verde e
de reciclagem desta casca pode derivar na fabricação
de diversos produtos, desde simples artesanatos a insumos
para a indústria de polímeros.
A fibra do coco é um material multicelular constituído
de celulose, que lhe confere rigidez e dureza semelhante
à do sisal, podendo, portanto, ser empregada para
a produção de vasos para plantas, em substituição
ao xaxim. Esta fibra pode substituir parte da polpa de
celulose extraída de pinheiros e eucalipto na fabricação
de papel ou ser usada como carga para o PET, um dos mais
importantes plásticos utilizados na confecção
de embalagens. A fibra do coco pode ser também
empregada na área agrícola como matéria-prima
para a proteção de solos, no controle da
erosão e na recuperação de áreas
degradadas. Na construção civil, quando
associada ao aglomerado de cortiça expandido, é
usada no isolamento térmico e acústico e
na produção de fibro-cimento.
5
– Considerações finais
A industrialização da água do coco
verde tem se mostrado uma atividade bastante promissora
e, a geração excessiva de resíduos,
inerente ao processo, que poderia ser uma ameaça
à sustentabilidade desse agronegócio, pode
converter-se em oportunidade ante o desenvolvimento de
novos produtos, ecologicamente adequados e com elevado
valor agregado face e múltiplas possibilidades
de aplicação.
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Engenheiros Químicos e Pesquisadores
da Embrapa Agroindústria de Alimentos - RJ