As
relações entre água e desastres e
a garantia do fornecimento desse recurso natural são
os temas deste ano do Dia Interamericano da Água,
comemorado, desde 1992,
no primeiro sábado de outubro.
É sabido que a falta d´água, a seca
e a desertificação aumentam as tensões
políticas em muitas partes do mundo, sendo apontadas
como alguns dos principais problemas ambientais para o
Século XXI. No Brasil, situações
críticas para as populações e para
o meio ambiente têm origem tanto no excesso, com
inundações e deslizamentos em áreas
urbanas, quanto na escassez de água, com secas
e desertificação. Dos mais de mil municípios
brasileiros com menores Índices de Desenvolvimento
Humano, 771 estão em áreas suscetíveis
à desertificação, principalmente
na região Nordeste.
Outro agravante diz respeito ao saneamento. De acordo
com o Censo Demográfico de 2000, apenas 21% dos
domicílios em regiões semi-áridas
estão ligados a redes coletoras de esgotos, enquanto
a média nacional é de 47%. No meio rural,
a situação é ainda mais crítica,
pois apenas 0,8 % das residências estão ligadas
a uma rede coletora. Se considerarmos o uso de fossas
sépticas, esse índice chega a 4,7 %. No
entanto, o dado mais alarmante quanto ao meio rural recai
na total ausência de esgotamento sanitário
em 60% dos domicílios particulares (cerca de 1,60
milhão), enquanto a média nacional é
de 35%. Sobre o abastecimento de água, 81% dos
domicílios rurais em áreas suscetíveis
à desertificação não possuem
rede de abastecimento, e 41% são servidos por água
de poços ou nascentes localizadas fora das propriedades,
ou ainda por água de reservatórios abastecidos
com água de chuva ou carros-pipa.
Os eventos críticos, secas e enchentes, por exemplo,
incidem diretamente no agravamento da desertificação.
Chuvas intensas em um curto período e em solos
pouco permeáveis ou com pouca cobertura vegetal
podem causar erosão intensa. Isso pode inviabilizar
colheitas, elevar a degradação dos recursos
naturais desestabilizar a economia. Já os longos
períodos de estiagem, podem levar à perda
de solos férteis pela ação do vento
e prejudicar a agricultura.
A gravidade do problema da falta d´água no
cenário global levou à criação
da Convenção das Nações Unidas
de Combate à Desertificação, em 1994,
hoje ratificada por mais de 200 países. No Brasil,
quase 1,5 mil municípios encontram-se em zonas
semi-áridas e subúmidas secas, em uma área
equivalente de 1,3 milhão de quilômetros
quadrados (maior que a do estado do Mato Grosso), a maior
parte no Nordeste. Nestes municípios, vivem 32
milhões de brasileiros. Essas áreas são
objeto de ação do Programa de Ação
Nacional de Combate à Desertificação
e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAN), lançado
no início de agosto pelo Governo Federal e sob
coordenação da Secretaria de Recursos Hídricos
do Ministério do Meio Ambiente, órgão
responsável pela formulação de políticas
sobre o uso da água em nível nacional.
A Política Nacional de Recursos Hídricos,
instituída pela Lei nº 9.433/97, estabelece
que a água é um bem de domínio público
e que, em situações de escassez, os usos
prioritários devem ser o consumo humano e a dessedentação
de animais. Além disso, as características
brasileiras levam à necessidade de uma gestão
descentralizada da água, visando o uso racional
e integrado dos mesmos, a prevenção e a
defesa contra eventos críticos ou decorrentes do
uso inadequado dos recursos naturais.
Por tudo isso, esforços para fortalecer a Política
Nacional de Recursos Hídricos, o Programa de Ação
Nacional de Combate à Desertificação
e Mitigação dos Efeitos da Seca e a implementação
da Convenção das Nações Unidas
de Combate à Desertificação são
importantes para que governo e população
possam se preparar para períodos de secas ou enchentes
ou para o agravamento desses fenômenos com as mudanças
climáticas, por exemplo. Uma das medidas é
a criação de sistemas de alerta precoce
para a prevenção de desastres naturais.
Além disso, temos que melhorar a capacitação
e o nível de informação das populações
para que se conscientizem quanto à dimensão
dos problemas e possam contribuir na busca de alternativas
e soluções para mitigar os efeitos da escassez
e também do excesso de água.
¹
Secretário
de Recursos Hídricos do Ministério do Meio
Ambiente