Ao
aprovar o projeto de lei (PL) de Biossegurança
esta semana, o Senado deu à raposa a chave do galinheiro,
conferindo à CTNBio (Comissão Técnica
Nacional de Biossegurança/Ministério de
Ciência e Tecnologia) poder total de decisão
sobre pesquisa e comercialização de transgênicos.
A mudança no projeto foi feita sob a chancela do
governo através de seu líder na Casa, o
senador petista Aloísio Mercadante. Antes de ser
sancionada pelo Presidente, a nova lei deverá passar
por um novo turno de votação na Câmara.
A CTNBio é formada em sua maioria por pessoas de
fora do governo, ligadas à indústria da
biotecnologia ou ao desenvolvimento de plantas transgênicas.
Além de sua composição pesar para
o lado dos interesses comerciais, suas decisões
podem ser tomadas por maioria simples, garantindo, assim,
os interesses corporativos.
A possibilidade de os Ministérios da Agricultura,
Meio Ambiente e Saúde recorrerem das decisões
da CTNBio a um conselho formado por onze ministros é
“conversa pra boi dormir”. Primeiro o Senado subverte
a Constituição Federal concentrando o poder
de decisão em uma comissão que usurpa as
atribuições dos ministérios (diga-se
de passagem, principais órgãos de assessoramento
da Presidência da República). Depois propõe
que ministros de Estado se reúnam sempre que houver
divergência técnica entre CTNBio e ministérios.
Caso os ministros não se posicionem em 45 dias,
fica valendo a decisão da CTNBio. São nulas
as chances dessas reuniões acontecerem e, portanto,
a palavra da CTNBio fica sendo a final.
Nesses quase oito meses de tramitação no
Senado, o lobby das indústrias e seus parlamentares
trabalhou bastante para modificar a lei de forma a dispensar
os transgênicos de qualquer avaliação
prévia de risco. Foi esse o centro da disputa.
Por que tanto receio de submeter suas inovações
tecnológicas a tais estudos?
No Senado a questão foi tratada como se o problema
fosse estritamente de ordem técnico-científica.
No entanto, a questão está longe de poder
ser resolvida por um grupo de pesquisadores. Estão
em jogo, antes de tudo, vultosos interesses comerciais
e o patenteamento e uso monopólico dos recursos
genéticos, base de toda a produção
alimentar.
Curioso desse debate é que o grande apelo do discurso
pró-transgênicos está na possibilidade
de a transgenia desenvolver plantas que reduzam as aplicações
de agrotóxicos. Ora, quem são as empresas
que produzem as sementes transgênicas e detêm
suas patentes senão as empresas que têm nos
agrotóxicos sua principal fonte de receita?
Os transgênicos representam a continuidade da Revolução
Verde, migrando-se das moléculas dos agrotóxicos
para os genes como “fontes de solução”.
Os reais resultados de sua primeira fase são conhecidos,
e tanto não são bons que as indústrias
prometem inovações justamente para abandonar
suas principais crias. Os resultados da “revolução
duplamente verde” são evitados por seus defensores,
ficando o debate no campo dos futuros benefícios
que os transgênicos poderão trazer.
Na Câmara o governo defendeu seu projeto. No Senado,
fez corpo mole e depois apoiou um PL substitutivo que
contradiz frontalmente sua posição inicial.
O resultado desse segundo turno na Câmara dependerá
fortemente do posicionamento do governo, e seus próximos
passos serão acompanhados de perto pela sociedade,
que cobrará coerência de seus representantes
e não se esquecerá da posição
que cada parlamentar assumir.
Fonte:
http://rets.rits.org.br/Servico
¹
Assessor
técnico da AS-PTA
(Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura
Alternativa)