Patrimônio Genético
Desenvolvomimento Econômico e Social vs Patrimônio Cultural e Genético

Aloisio Alcantara Vilarinho¹


O cultivo do algodão no país ocorre desde períodos pré-colombianos, quando indígenas de diferentes etnias cultivavam e teciam as fibras de Gossypium barbadense, antes mesmo da chegada de Cabral. Posteriormente, os colonizadores adotaram a cultura de G. barbadense, exportando a fibra produzida para abastecer fiações e tecelagens da Europa. Atualmente, o Brasil é um dos maiores produtores mundiais de algodão, não cultivando mais o G. barbadense, mas outra espécie introduzida, o G. hirsutum, sendo também um dos detentores da maior variabilidade presente em algodoeiros tetraplóides.

O conhecimento a respeito desta variabilidade é pequeno, parcial e, em boa parte, desatualizado, mas tem-se a certeza de que ela está sendo paulatinamente depauperada devido a fatores agrícolas, socioculturais, econômicos e ambientais.

Em expedição realizada em todo o estado de Roraima pela Embrapa Algodão em parceria com a Embrapa Roraima, de 08 a 12 de novembro de 2004, com a finalidade de localizar e caracterizar populações de algodão, observou-se um processo de perda da identidade cultural nas comunidades indígenas. A prática de tecer suas próprias redes com fios de algodão cultivados e colhidos na comunidade vem sendo substituída pela compra das redes produzidas pela indústria. Com o desinteresse por parte dos mais novos em aprender e praticar essa arte milenar, as plantas que forneciam as fibras de algodão para o trabalho são também abandonadas ou até eliminadas para dar lugar a outras culturas, provocando a perda de variabilidade genética, tão essencial para o melhoramento genético.

Nas cidades, plantas de algodão são utilizadas, normalmente, com fim medicinal ou como algodão de farmácia pela população de mais baixa renda e as plantas são encontradas, principalmente, na periferia. Com o progresso essa camada da população é empurrada mais para a periferia ainda, nem sempre levando sementes para tornar a plantar o algodão. Assim, com o tempo, a população de algodão decresce também nas cidades provocando, novamente, a perda de variabilidade genética. Diante de tais fatos, tornam-se imprescindíveis ações que visem a manutenção tanto da cultura indígena como da variabilidade genética existente no algodão sob pena de, futuramente, quando se fizer necessária, não ser mais possível resgatar essa variabilidade genética.

Esta perda de variabilidade pode ser minimizada caso ações de conservação in situ e ex situ sejam implementadas. Tais ações devem estar interligadas a uma estratégia que permita a conservação a longo prazo, que por sua vez deve ser formulada com base em informações a respeito do estado atual das populações de cada espécie. O projeto “Prospecção e caracterização de populações das espécies do gênero Gossypium nativas ou naturalizadas do Brasil”, da Embrapa Algodão em parceria com a Embrapa Roraima e outras unidades da Embrapa, financiado pelo Ministério do Meio Ambiente junto ao Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira (Probio), propõe realizar o levantamento de informações atualizadas e amplas, sistematizá-las e disponibilizá-las para os diversos segmentos da sociedade. Com base nas informações serão realizadas sugestões de medidas para a proteção e uso racional dos parentes silvestres do algodoeiro cultivado e de novos estudos que complementem o conhecimento gerado.

¹ Pesquisador Embrapa Roraima
aloísio@cpafrr.embrapa.br


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