Para
a sociedade a agricultura possui diversos propósitos;
pode-se destacar como um dos mais importantes a produção
de alimentos e fibras para uma população
que se concentra, em sua grande maioria, nos centros urbanos.
Tal objetivo torna-se ainda mais importante quando se
leva em consideração que a população
mundial em 2030 será de aproximadamente 8,3 bilhões
de pessoas e que, atualmente, segundo relatório
da FAO 2002, uma em cada seis pessoas que vivem nos países
em desenvolvimento está vivendo em condições
de subnutrição.
A
agricultura terá grandes desafios neste novo milênio,
mas, sem dúvida, o maior deles será garantir
um suprimento adequado e regular de alimentos para a sociedade
com o menor consumo de água possível. Tal
tarefa, entretanto, não é simples e se agrava
ainda mais quando se consideram os impactos que as mudanças
climáticas terão sobre a agricultura de
maneira geral. Por exemplo, estudos indicam que um aumento
de 3°C na temperatura do ar poderá elevar,
de maneira geral, as necessidades de irrigação
em 15%, e, ainda, se este aumento na temperatura for acompanhado
por uma redução na precipitação
de 10%, poderá haver uma elevação
nas necessidades de irrigação da ordem de
26%.
A
importância de tal constatação se
torna ainda mais grave quando se consideram os seguintes
aspectos: apenas 17% de toda a área cultivada no
mundo é irrigada, entretanto estas áreas
produzem, atualmente, cerca de 40% de todo alimento que
é produzido no mundo; 70% das águas derivadas
dos cursos de água para uso humano são para
fins de irrigação, destas aproximadamente
metade se perde no sistema sem ser efetivamente utilizada
pela cultura; aproximadamente 11,6% do total de água
disponível no planeta já está sendo
utilizado, já se apontando para uma insustentabilidade
da atual tendência de utilização da
água.
Nos
Estados Unidos, em 1900, quatro em cada dez trabalhadores
se encontravam no campo. Atualmente, a proporção
é de três em cada cem. Em relação
ao Brasil, a proporção talvez seja diferente,
mas a tendência de migração de pessoas
do campo para as grandes cidades é a mesma. Tal
fato teve e ainda tem influência direta sobre o
destino das águas derivadas dos cursos de água,
e é um dos principias responsáveis pelo
surgimento e crescimento da competição pelo
uso da água entre os centros urbanos e a zona rural.
Alguns estudos reportam que haverá um aumento de
71% da água demandada para consumo doméstico
entre 1995 e 2025. Em alguns países, como a China
e os Estados Unidos, já se nota uma substancial
transferência de água da agricultura para
as cidades, as quais estão dispostas a remunerar
melhor pelo seu uso.
A
tendência atual é de que haja aumento da
necessidade de mais água para uso humano nos grandes
centros urbanos e maior conscientização
da sociedade a respeito da importância da água
para o lazer, para a fauna e para a flora. Em virtude
disto e sendo a quantidade de água na natureza
finita, é certo que haverá uma pressão
da sociedade sobre o setor agrícola para que ele
reduza a quantidade de água utilizada. No setor
agrícola, a irrigação é a
principal consumidora de água, sendo responsável
pelo consumo de 70% das águas derivadas para consumo
humano.
Relatório
recente da FAO projeta que a produção de
alimentos terá que aumentar cerca de 60% a fim
de suprir as novas demandas nutricionais da sociedade
e a uma população mundial que aumenta cerca
de 80 a 85 milhões de pessoas a cada ano. Neste
contexto a irrigação terá um papel
fundamental, uma vez que, segundo o mesmo relatório,
80% do aumento de produção necessária
para alimentar a população será proveniente
das áreas irrigadas. Todavia a agricultura irrigada
terá grandes desafios no futuro. Nesta nova era,
ao invés de se pensar em produzir mais a partir
de cada hectare plantado ter-se-á que produzir
mais a partir de cada gota de água derivada para
a agricultura. Para isto a água destinada para
irrigação terá que ser manejada de
maneira mais racional, não só pensando em
extrair mais a partir de cada gota, mas também
em liberar uma certa quantia de água para outros
usos. Com isto espera-se que a maneira como a irrigação
está sendo vista pela sociedade mude, ou seja,
que ela passe a ser vista não como uma competidora
pelo uso da água, mas como um componente essencial
para produção de alimentos e fibras.
Infelizmente,
grande parte dos sistemas de irrigação apresentam
baixa eficiência na utilização da
água, sendo comum sistemas de irrigação
que operam com eficiência da ordem de 40%. Alguns
estudos reportam que aproximadamente metade do aumento
na demanda de água que ocorrerá até
2025 pode ser suprida melhorando-se a eficiência
dos sistemas de irrigação. Para se atingir
tal meta, entretanto, faz-se necessário o desenvolvimento
de novas técnicas de manejo, de ferramentas computacionais
e de novas tecnologias de irrigação. A aplicação
de água de forma precisa é uma alternativa
para a conservação de água e para
a otimização da utilização
de nutrientes.
É
certo que a irrigação continuará
a ser a maior consumidora de água no mundo, mas,
por outro lado, também é certo que o aumento
na produção de alimentos necessário
para alimentar a população mundial dependerá
dela.
Em
virtude disto torna-se evidente que a irrigação
continuará a desempenhar um papel de fundamental
importância para a sociedade. Todavia para que ela
continue sendo vista como um símbolo de progresso
e de crescimento e não como mais um fator de destruição
do meio ambiente, e também para que se possa sair
de uma era de exploração dos recursos naturais
para uma era de manutenção dos mesmos, mudanças
significativas e urgentes na forma de manejar os sistemas
de irrigação deverão ser implementadas.
Sem essas mudanças na forma de usar e manejar os
recursos hídricos, por volta do ano de 2025, cerca
de 67% da população mundial estará
enfrentando sérios problemas de escassez de água.
¹
Pesquisador
Embrapa Cerrados e especialista em recursos hídricos
E-mail: sac@cpac.embrapa.br