Uma nova safra recorde de equívocos


Por: HENRIQUE CORTEZ
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Normalmente associamos a destruição da floresta amazônica à ação dos madeireiros e das mineradoras. Embora seja historicamente verdade, isto está mudando. Mudando para pior. O vilão de agora, muito mais competente, é o agronegócio.

Os indicadores da destruição de nossas florestas e do cerrado continuam a crescer. Em relação a isto temos apenas justificativas, explicações e incontáveis propostas, mas nada mais efetivo do que isto em termos de políticas públicas.

Normalmente associamos a destruição da floresta amazônica à ação dos madeireiros e das mineradoras. Embora seja historicamente verdade, isto está mudando. Mudando para pior. O vilão, muito mais competente do que as madeireiras e mineradoras juntas, é o agronegócio, que sabe fazer valer os seus interesses e sabe ser ouvido, principalmente porque tem a habilidade de aliar o poder econômico ao lobby político.

A soja e a pecuária são os principais indutores das queimadas e do desmatamento. Estudos da Conservação Internacional indicam que o Cerrado brasileiro está com uma taxa anual de desmatamento de 1,5% ou, se preferirem, 7,3 mil hectares ao dia o que, no ritmo atual, significará o seu desaparecimento total até 2050.

A Amazônia, por outro lado, tende a transformar-se em savana dentro de 50 anos. No ano passado foram desmatados 23,7 mil quilômetros, sendo 80% destinados à agropecuária. Tudo pelo bem agronegócio exportador.

Em entrevista ao The New York Times, em setembro de 2003, o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, disse que “para mim, um aumento de 40% no desmatamento não significa nada; não sinto a menor culpa pelo que estamos fazendo aqui. Estamos falando de uma área maior que a Europa toda e que foi muito pouco explorada. Não há razão para se preocupar”. O Governador Maggi é, por mera coincidência, o maior sojicultor do Mato Grosso e um dos maiores do mundo...

No entanto, em que pese o patriótico esforço do agronegócio, ainda falta comida para boa parte da população. Um terço de nossa população continua miserável e a fome ainda é uma séria ameaça à sobrevivência desta população.

Mas, para compensar, a alimentação dos norte-americanos, após a segunda guerra mundial, aumentou em 33% de laticínios, 50% mais carne bovina e 280% mais frangos, sendo que esta dieta hiper-protéica é a razão para que a obesidade tenha se tornado um problema de saúde pública. Mas, tudo bem, nós que estamos abaixo da linha do Equador continuamos de dieta.

Na verdade deveríamos iniciar as discussões sobre este modelo econômico escorado na exportação de produtos primários, com destaque para minério, carne e grãos. É necessário questionar a quem serve este modelo neocolonial e a quem beneficia.

Somos apreciados como exportadores de carne porque o nosso boi é “orgânico”, um boi “verde” que alimenta-se no pasto. Mas quando exportamos 1 kg de carne devemos considerar os custos sociais e ambientais, a destruição irresponsável da floresta e o fato de que também estamos exportando mais de 10 mil litros de água virtual.

Este modelo exportador, ao destruir o Cerrado e a Amazônia, está comprometendo o clima do planeta, interferindo com o regime de chuvas do Sul e Sudeste do Brasil, esgotando recursos naturais, extinguindo biomas inteiros, alterando rapidamente todo o clima da América do Sul e tudo isto para que e para quem?

Só para lembrar que o quanto agronegócio exportador é patriota e não conhece ganância, no RS plantou soja transgênica ilegal, enfrentou o governo e venceu. Colheu, vendeu, plantou novamente, colheu, plantou novamente e em breve estará com nova safra.

Este foi um dos maiores e bem sucedidos casos de desobediência civil de nossa história republicana. Pena que, na essência, ataque a própria historia republicada.

Este é o preço que pagamos pela equivocada opção pelo pelos grandes produtores e pelo agronegócio exportador, ou se preferirem uma abordagem mais globalizada, pelos big players do agrobusiness. Pensando melhor, acho que o título deste artigo deveria ser “os equívocos de uma opção equivocada”...

Mas chega de conversa, promessa, palanque, programas e projetos sem fim. Não temos muito tempo. Devemos iniciar as discussões sobre esta herança colonial e propor alternativas do que realmente seja desenvolvimento sustentável, socialmente responsável e justo.

O que aí está não é e nunca foi sustentável. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente. Simples assim.

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Henrique Cortezé subeditor do Jornal do Meio Ambiente e coordenador de programas socioambientais da Câmara de Cultura

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