Normalmente associamos a destruição da floresta
amazônica à ação dos madeireiros
e das mineradoras. Embora seja historicamente verdade,
isto está mudando. Mudando para pior. O vilão
de agora, muito mais competente, é o agronegócio.
Os
indicadores da destruição de nossas florestas
e do cerrado continuam a crescer. Em relação
a isto temos apenas justificativas, explicações
e incontáveis propostas, mas nada mais efetivo
do que isto em termos de políticas públicas.
Normalmente associamos a destruição da floresta
amazônica à ação dos madeireiros
e das mineradoras. Embora seja historicamente verdade,
isto está mudando. Mudando para pior. O vilão,
muito mais competente do que as madeireiras e mineradoras
juntas, é o agronegócio, que sabe fazer
valer os seus interesses e sabe ser ouvido, principalmente
porque tem a habilidade de aliar o poder econômico
ao lobby político.
A soja e a pecuária são os principais indutores
das queimadas e do desmatamento. Estudos da Conservação
Internacional indicam que o Cerrado brasileiro está
com uma taxa anual de desmatamento de 1,5% ou, se preferirem,
7,3 mil hectares ao dia o que, no ritmo atual, significará
o seu desaparecimento total até 2050.
A Amazônia, por outro lado, tende a transformar-se
em savana dentro de 50 anos. No ano passado foram desmatados
23,7 mil quilômetros, sendo 80% destinados à
agropecuária. Tudo pelo bem agronegócio
exportador.
Em entrevista ao The New York Times, em setembro de 2003,
o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, disse que “para
mim, um aumento de 40% no desmatamento não significa
nada; não sinto a menor culpa pelo que estamos
fazendo aqui. Estamos falando de uma área maior
que a Europa toda e que foi muito pouco explorada. Não
há razão para se preocupar”. O Governador
Maggi é, por mera coincidência, o maior sojicultor
do Mato Grosso e um dos maiores do mundo...
No entanto, em que pese o patriótico esforço
do agronegócio, ainda falta comida para boa parte
da população. Um terço de nossa população
continua miserável e a fome ainda é uma
séria ameaça à sobrevivência
desta população.
Mas, para compensar, a alimentação dos norte-americanos,
após a segunda guerra mundial, aumentou em 33%
de laticínios, 50% mais carne bovina e 280% mais
frangos, sendo que esta dieta hiper-protéica é
a razão para que a obesidade tenha se tornado um
problema de saúde pública. Mas, tudo bem,
nós que estamos abaixo da linha do Equador continuamos
de dieta.
Na verdade deveríamos iniciar as discussões
sobre este modelo econômico escorado na exportação
de produtos primários, com destaque para minério,
carne e grãos. É necessário questionar
a quem serve este modelo neocolonial e a quem beneficia.
Somos apreciados como exportadores de carne porque o nosso
boi é “orgânico”, um boi “verde” que alimenta-se
no pasto. Mas quando exportamos 1 kg de carne devemos
considerar os custos sociais e ambientais, a destruição
irresponsável da floresta e o fato de que também
estamos exportando mais de 10 mil litros de água
virtual.
Este modelo exportador, ao destruir o Cerrado e a Amazônia,
está comprometendo o clima do planeta, interferindo
com o regime de chuvas do Sul e Sudeste do Brasil, esgotando
recursos naturais, extinguindo biomas inteiros, alterando
rapidamente todo o clima da América do Sul e tudo
isto para que e para quem?
Só para lembrar que o quanto agronegócio
exportador é patriota e não conhece ganância,
no RS plantou soja transgênica ilegal, enfrentou
o governo e venceu. Colheu, vendeu, plantou novamente,
colheu, plantou novamente e em breve estará com
nova safra.
Este foi um dos maiores e bem sucedidos casos de desobediência
civil de nossa história republicana. Pena que,
na essência, ataque a própria historia republicada.
Este é o preço que pagamos pela equivocada
opção pelo pelos grandes produtores e pelo
agronegócio exportador, ou se preferirem uma abordagem
mais globalizada, pelos big players do agrobusiness. Pensando
melhor, acho que o título deste artigo deveria
ser “os equívocos de uma opção equivocada”...
Mas chega de conversa, promessa, palanque, programas e
projetos sem fim. Não temos muito tempo. Devemos
iniciar as discussões sobre esta herança
colonial e propor alternativas do que realmente seja desenvolvimento
sustentável, socialmente responsável e justo.
O que aí está não é e nunca
foi sustentável. É apenas um processo exploratório,
irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria
poderosa, rica e politicamente influente. Simples assim.
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Henrique
Cortezé subeditor do Jornal do Meio Ambiente
e coordenador de programas socioambientais da Câmara
de Cultura |