Por:
Álvaro Rodrigues dos Santos
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São
passados já perto de 20 anos do definitivo advento
no cenário mundial das teses e preocupações
ambientalistas (Relatório Nosso Futuro Comum –
ONU, 1987), assim como das ações dos inúmeros
movimentos ambientalistas que a elas sucederam. Tempo
suficiente para, escoimados os enganos, os excessos fartamente
cometidos por ações e reações,
concluir-se da certeza de um saldo extremamente saudável
e significativo para a Humanidade.
Não restam dúvidas hoje de que a sociedade
humana deve incorporar em suas relações
com o planeta a preocupação com a conservação
ambiental. Não só por essa ser uma atitude
espiritualmente mais elevada (ainda que isto já
bastasse), mas até por um simples ato pragmático
de inteligência. A continuar as coisas como andavam,
quando o progresso humano, pela disponibilidade de recursos
naturais tidos então como infindáveis, se
encantava com cenas apocalípticas da Natureza dominada
pelo arrojo humano, por certo os desastres ambientais
se multiplicariam geometricamente tornando por demais
dispendioso o próprio progresso desejado, como,
mais adiante, e sem exageros de imaginação,
tornando impossível a própria vida humana
no planeta.
De todo esse tenso período de maturação
das teses ambientalistas, dois conceitos se sobrepuseram
como universalmente aceitos, o da Conservação
Ambiental e o do Desenvolvimento Sustentável. O
primeiro, relativo às preocupações
de organizar a ação humana no planeta envolvendo
o propósito de conservar ao máximo as condições
ambientais naturais. O segundo, estabelecendo um valor
civilizatório e ético ao Desenvolvimento,
ou seja, um desenvolvimento capaz de atender as necessidades
da atual geração prevendo o atendimento
futuro das necessidades de todas as gerações
que a essa sucederão.
Os preceitos da Conservação Ambiental e
do Desenvolvimento Sustentável serão absorvidos
e implementados pela Humanidade em dois grandes níveis:
o comportamental e o material. Ao nível comportamental
referem-se as mudanças culturais necessárias
a transitar de um modelo vivencial altamente consumista
e individualista (fonte das mais graves ameaças
ambientais) para um modelo assentado em valores mais espiritualizados
e humanistas, portanto ambientalmente harmônicos.
Insere-se também nesse nível a firme disposição
de recuar a patamares ambiental e socialmente aceitáveis
as atuais taxas de crescimento populacional. Ao nível
material, referem-se a busca e a produção
de conhecimentos científicos e tecnológicos
que tornem possível a compatibilização
entre o desenvolvimento econômico socialmente necessário
e a decisão de conservar o ambiente e respeitar
também o direito das gerações futuras
ao pleno gozo de suas vidas.
Especificamente em relação a esse último
aspecto, qual seja, a necessidade de um desenvolvimento
científico e tecnológico voltado a viabilizar
ambientalmente o desevolvimento necessário, os
desafios estão colocados desde já, são
imediatos, estão na ordem do dia. E assumi-los
e resolvê-los é uma tarefa intransferível
e inadiável. Com um profundo conteúdo ético,
uma vez que o sonho civilizatório de dar fim à
miséria e à fome, e que em última
instância significa incluir bilhões a padrões
dignos de qualidade de vida, implica na produção
de mais energia, mais alimentos, mais habitações,
mais bens de consumo, mais estradas, etc, ou seja, em
uma mais intensa intervenção do Homem no
planeta, ocupando espaços, utilizando recursos
naturais, gerando resíduos e efluentes. De tal
sorte que a realização desse sonho só
será possível caso tecnologicamente a sociedade
humana consiga gerar esse plus produtivo respeitando os
limites ambientais do planeta, os quais já estão
muito próximos de seu total esgarçamento.
Vencer esse desafio exige um total envolvimento com a
temática ambiental por parte dos pesquisadores,
das instituições públicas e privadas
de pesquisa científica e tecnológica, dos
órgãos federais e estaduais de fomento à
pesquisa. De outra parte, às empresas privadas
e particularmente à Engenharia nacional, cabe definitivamente
deixar de entender as questões ambientais como
estorvos maçantes às suas atividades e planos
rotineiros, para começar a percebê-las como
saudáveis e instigantes desafios a demandar ousadia
e criatividade técnica para superá-los.
Essa é a única compreensão inteligente
do problema e somente esse caminho propiciará à
sociedade a desejada viabilização técnica
e econômica dos empreendimentos, equacionando-os
no contexto da boa técnica e da conservação
ambiental.
Os reais avanços que vêm sendo registrados
nesses últimos anos sugerem uma atitude otimista
diante dos problemas colocados. Em novembro de 2003 o
Brasil oficializou sua adesão à Declaração
Internacional de Produção mais Limpa (P+L),
coordenada e liderada pela UNEP (United Nations Environment
Programmes), programa da ONU. Isso implica um envolvimento
oficial do governo brasileiro nos esforços de desenvolvimento
tecnológico em P+L, ou seja, além de atuar
em tecnologias ambientais que focam o termo final de um
determinado processo produtivo, através quase sempre
do tratamento de resíduos, efluentes e emissões
gerados, também atuar no desenvolvimento tecnológico
voltado a alterar o próprio processo produtivo,
reduzindo a periculosidade dos insumos utilizados, do
produto final e da própria linha de produção.
Exemplo emblemático desse esforço, foi a
substituição do gás CFC – clorofluorcarbono,
antes largamente utilizado em equipamentos de refrigeração,
produção de espumas flexíveis e recipientes
tipo spray, por gases inofensivos à Camada de Ozônio,
como a mistura propano/butano e o gás R-134.
Na mesma perspectiva, vários centros de pesquisa
debruçam-se integralmente na viabilização
de produção limpa de energia através
da Fusão Atômica, de aperfeiçoamentos
que permitam o uso amplo de motores tipo Célula
Combustível. O Brasil, com o Álcool Combustível
e agora com o Biodiesel deu um exemplo formidável
na produção de combustíveis ambientalmente
menos agressivos. Progridem animadoramente os aperfeiçoamentos
voltados a conseguir melhores rendimentos nos sistemas
eólicos e solares de produção de
energia.
No campo da Engenharia Civil brasileira, fato alvissareiro
e marcante foi a construção da pista descendente
da Rodovia dos Imigrantes, na transposição
da Serra do Mar no Estado de São Paulo. O avançado
entendimento do comportamento geológico-geotécnico
das instáveis encostas da serra proporcionou e
sugeriu uma concepção de projeto, fundamentada
no uso intensivo de túneis e viadutos, e um plano
construtivo cuja máxima preocupação
foi reduzir ao mínimo possível as interferências
nessas encostas. O resultado foi uma obra inteiramente
harmonizada com o meio geológico e ambiental que
a envolve. Um exemplo que se pode considerar clássico
de um empreendimento sintonizado com os preceitos do Desenvolvimento
Sustentável, provando que essa sintonia, além
de desejável, é inteiramente possível
se apoiada em um criativo esforço de inovação
tecnológica.
Ou seja, não há limites para o gênio
humano. E ano a ano os envolvimentos e compromissos com
o desenvolvimento científico e tecnológico
vinculado às questões ambientais se multiplicam.
Não há dúvida de que seremos intelectualmente
capazes de viabilizar ambientalmente o desenvolvimento
econômico e social necessário à Humanidade
através de mudanças comportamentais e da
criatividade tecnológica. É apenas uma questão
de tempo. E aí reside o único elemento de
dúvida. É preciso que as principais questões
ambientais estejam equacionadas e resolvidas antes que
desastres ambientais de ordem não imaginável
possam tragicamente mudar o curso da história humana
no planeta Terra.
É justamente esse elemento de dúvida, o
fator tempo, que não nos permite ou autoriza o
acomodamento. As ameaças ambientais à qualidade
de vida no planeta (ou à própria vida no
planeta) já deixaram há muito tempo de ser
apenas recursos de retórica. É preciso que
todos nos incumbamos da responsabilidade e do compromisso
de fazer as coisas realmente acontecerem.
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Geólogo
- ( santosalvaro@uol.com.br )
- Ex-Diretor da Divisão de Geologia e Ex-Diretor
de Planejamento do IPT
- Consultor em Geologia de Engenharia e Geotecnia
- Autor dos livros "Geologia de Engenharia: Conceitos,
Método e Prática" e "A Grande
Barreira da Serra do Mar". |