O preço da devastação


Por: Henrique Cortez

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Adital

As reações internacionais ao crescimento do desmatamento (melhor seria desflorestamento) da Amazônia imediatamente dispararam reações nacionalistas de nossa parte.

E, de fato, existem razões para isto, a começar pelas opiniões do Sr. Pascal Lamy. Para refrescar a memória, vale lembrar algumas declarações do Sr. Pascal Lamy, quando ainda candidato a OMC:

Convidado pela Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa, Pascal Lamy fez uma longa e bem articulada conferência sobre as lições da Europa para a governança global, para um público de diplomatas e funcionários internacionais, na noite de segunda-feira, em Genebra.

Para Lamy, a questão principal não é saber o quanto de governança global é necessário, mas como passar à ação para administrar melhor as interdependências. Ele deu exemplo de três dificuldades que subsistem na cena internacional para definir objetivos comuns: energia, ajuda pública ao desenvolvimento e bens públicos mundiais.

O candidato à direção da OMC entende "bens públicos" como bens que a governança global teria por objetivo promover ou defender coletivamente em nome do interesse de todos. Segundo Lamy, economistas demonstraram que esses bens são definidos por dois critérios: a ausência de rivalidades no consumo (um consumo não diminui o do vizinho) e a não exclusão de consumidores potenciais (desde que um bem é produzido, não se pode impedir outro de se beneficiar também).

Nesse contexto, Lamy indagou se "água, recursos haliêuticos (da pesca), as rotas marítimas, a camada de ozônio, as florestas tropicais, a segurança dos mercados financeiros, a saúde" figurariam entre os domínios que uma governança deve considerar como bens públicos.

Terminada a palestra, Lamy foi indagado por jornalistas brasileiros se nesse contexto ele defendia a Amazônia como bem público. Depois de uma exclamação sobre a controvérsia que o tema provoca, o candidato à OMC respondeu que sim, englobando as "as florestas tropicais como um todo".

Indagado sobre o que isso significa, retrucou: "Se definirmos as florestas tropicais como bem público, diante do papel fenomenal que elas têm, então se impõe um certo número de regras de gestão coletiva delas", argumentou.

Questionado se, na prática, defendia desse modo a internacionalização da Amazônia, Lamy retrucou que "não se deve pensar em termos de propriedade". Ao seu ver, as regras de gestão coletiva "são perfeitamente possíveis sem tocar na questão de propriedade".( in Valor Econômico, 24/2/2005)

As desastradas e irresponsáveis declarações do Sr. Pascal Lamy foram veementemente repudiadas. No entanto, mais do que repudiar, devemos fazer nossa lição de casa, porque em muitos países somos vistos como irresponsáveis, quando não nos consideram os "bandidos" da destruição da Amazônia.

Esta questão da Amazônia e a governança global é uma ameaça, como tantas outras já realizadas. Uma ameaça que cresce na medida em que a crescente savanização da Amazônia torna-se um risco para o clima planetário.

Freqüentemente falamos da nossa Amazônia, das ameaças à nossa Amazônia, dos desafios da Amazônia brasileira, e por aí vai, sempre esquecendo que a região não é apenas nossa. O eterno argumento em defesa da "nossa Amazônia" contra a internacionalização é um equívoco, porque composta por 8 países a Amazônia continental já é internacional.

A omissão das autoridades, a falta de uma compreensão real e efetiva do que seja desenvolvimento sustentável, a descontrolada expansão da fronteira agropecuária e a atuação impune de grileiros e madeireiros são claros componentes da destruição de mais de 23 mil Km2 em 2003 e de mais de 26 mil Km2 em 2004.

Devemos ter a responsabilidade de compreender que os equívocos de nossas políticas públicas (ou da ausência delas) na conservação e uso sustentável da "nossa Amazônia" afeta diretamente mais 7 países e, indiretamente, todo continente e, em seguida, todo o planeta.

Não creio que corremos o risco real de ter a "nossa" Amazônia invadida em prol da governança global, mas certamente teremos problemas nas relações multi-laterais, no acesso aos financiamentos internacionais e no boicote aos nossos produtos e serviços. Este é um risco real e imediato.

A agropecuária é um dos mais evidentes indutores do desflorestamento e justamente aí estamos mais vulneráveis aos boicotes, principalmente no mercado europeu.

As articulações neste sentido já começaram, porque há quem defenda na OMC que a devastação ambiental seja considerada como subsídio indireto, da mesma forma que a exploração de mão de obra infantil e/ou escrava. O pior é que é verdade, porque, neste modelo de desenvolvimento a qualquer preço, se privatiza o lucro com os ativos ambientais e socializam-se os passivos ambientais, sem qualquer compromisso para com as gerações futuras.

Nossos "preços" são competitivos porque não incluem os enormes custos sociais e ambientais, em uma espécie perversa de subsídio, que privatiza o lucro e socializa os prejuízos.

Este é o preço que pagamos pela equivocada opção pelos grandes produtores e pelo agronegócio exportador, ou se preferirem uma abordagem mais globalizada, pelos big players do agrobusiness.

Já é mais do que conhecido o consórcio amazônico da devastação : grilagem-madeireiras ilegais-queimadas-pecuária-monocultura da soja. É igualmente importante destacar o crescimento das denúncias de trabalho escravo e degradante na mesma medida da expansão da fronteira agropecuária na Amazônia.

A solução, no entanto, não está em simplesmente responsabilizar a soja ou os sojicultores e pecuaristas. Se queremos sustentabilidade real e efetiva, devemos iniciar as discussões sobre esta herança colonial e propor alternativas do que realmente seja desenvolvimento sustentável, compreendido como socialmente justo e ambientalmente responsável.

A culpa, se puder ser definida assim, cabe a um modelo de desenvolvimento equivocado, baseado na exportação de produtos primários e sem valor agregado, que, ao destruir o Cerrado e a Amazônia, está comprometendo o clima do planeta, interferindo com o regime de chuvas do Sul e Sudeste do Brasil, esgotando recursos naturais, extinguindo biomas inteiros e alterando rapidamente todo o clima da América do Sul. E tudo isto para que e para quem? A quem realmente serve este modelo de desenvolvimento?

Os riscos da "internacionalização" da Amazônia não são tão reais assim, mas, de qualquer forma, serão reduzidos na mesma e exata medida em que formos competentes e responsáveis para com a "nossa" Amazônia.

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Ambientalista e sub-editor do Jornal do Meio Ambiente
http://www.adital.com.br/site/noticias/16781.asp?lang=PT&cod=16781

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