Historicamente, desde os tempos coloniais a Serra do Mar
se antepôs como formidável barreira à
livre e franca circulação de bens e pessoas
entre a Baixada Litorânea e o Planalto Atlântico,
ao longo de toda a faixa litorânea do Sudeste brasileiro,
mais exatamente do norte do Estado do Rio de Janeiro ao
Estado de Santa Catarina, em uma extensão total
de mais de mil quilômetros.
As
dificuldades às travessias viárias foram
impostas por três fatores: a) grande desnível
topográfico, b) relevo acidentado, e c) grande
suscetibilidade das encostas da serra a escorregamentos
de solos e rochas. Tais dificuldades foram – e tem sido
–de tal ordem que determinaram, em grande parte, o ritmo
e o grau de desenvolvimento econômico da região.
Deve-se considerar, principalmente, que a escarpa da
serra separa os principais portos exportadores e importadores
do país da região interior que desde há
muito se caracterizou por seu destacado dinamismo econômico
e produtivo, nos setores industrial, agrícola
e comercial.
As
ligações viárias entre esses dois
pólos, o portuário e o produtivo, sempre
foram palco de enormes e inúmeros problemas para
os empreendimentos viários (tanto rodovias como
ferrovias), desde a fase de sua implantação
no terreno até sua problemática e dispendiosa
operação e manutenção. Somente
com a Rodovia dos Imigrantes, especialmente com a sua
2ª Pista – a descendente – inaugurada em fins de
2002, a Engenharia brasileira atingiu um patamar de
excelência na adequação entre filosofia
de projeto, plano de obra e características geológicas
da região. Essa rodovia, vocacionada para carros
de passeio, foi dotada, assim, de admirável nível
de segurança a seus usuários.
No
entanto, o transporte de cargas entre o Planalto (altitudes
médias entre 700 e 1.000 metros) e a Baixada
Litorânea (altitudes próximas a zero),
aqui considerados tanto os sistemas portuários,
como as concentrações industriais litorâneas
(como, por exemplo, o Pólo Industrial de Cubatão-SP)
continuam a representar um problemático gargalo
logístico. O transporte é realizado, via
de regra, em estradas construídas já há
muitas décadas, e que, tanto pelos aspectos referidos,
quanto pelo ininterrupto aumento do volume das mercadorias
transportadas, trabalham em seu limite superior de atendimento.
Além disso, esse fluxo estratégico de
bens é exposto permanentemente ao risco de problemáticas
interrupções diante das altas probabilidades
de ocorrência de acidentes geológico-geotécnicos,
especialmente em períodos mais chuvosos (com
destaque para as já tão conhecidas “quedas
de barreiras”).
Considerados
apenas os portos de Santos, São Sebastião
e Paranaguá, o volume total de cargas movimentadas
em operações de importação
e exportação chegou a mais de 140 milhões
de toneladas em 2004, sendo que expressiva parte dessa
carga transpôs a Serra do Mar por algum tipo de
rota viária. O que, em volumes proporcionais,
também ocorre nos outros portos da região
sudeste, como Rio de Janeiro, Sepetiba, Terminal de
Angra, Antonina e S. Francisco do Sul, Itajaí.
Somente os portos de Santos e São Sebastião
são responsáveis pela movimentação
de mais de 20% do total das toneladas de mercadorias
embarcadas e desembarcadas nos portos brasileiros. Em
termos de valor, essa proporção atinge
cerca de 45%. Santos é, por seu turno, o maior
responsável pelas exportações e
importações de produtos industriais e
movimenta nada menos de 54% dos contêineres do
país. Contribuindo para o agravamento desse preocupante
quadro, são recorrentes as dificuldades que enfrentam
os usuários de nossos portos, relacionadas a
situações crônicas de congestionamento
nas vias de acesso e ao encarecimento desnecessário
das operações, com elevação
dos fretes e custos de espera.
Para
a solução dessa complexa e grave ameaça
ao desenvolvimento econômico brasileiro, que repercute
como componentes expressivas do tão comprometedor
“custo Brasil”, novas e seguras ligações
viárias Planalto-Baixada se mostrariam necessárias.
Mas isto exigirá a mobilização
de vultosos recursos para investimentos em obras de
infra-estrutura, fato que, pela crônica escassez
deste fator, tem implicado no arriscado protelamento
das indispensáveis providências. No entanto,
afortunadamente, desenvolvimentos tecnológicos
em alguns campos técnicos circunstancialmente
confluentes, proporcionam hoje a possibilidade do país
estabelecer virtuosamente o equacionamento técnico/econômico/logístico
desse problema.
O
primeiro desses aportes tecnológicos refere-se
ao enorme avanço alcançado pela Geologia
de Engenharia e pela Geotecnia brasileiras na compreensão
do comportamento das encostas da Serra do Mar, no que
tange à susceptibilidade dessas encostas a escorregamentos
de solos e rochas. Hoje, pode-se dizer que, graças
a esses avanços – que destacam nosso país
no contexto científico-tecnológico internacional
nessa matéria – a Engenharia brasileira tem elementos
para realizar intervenções e empreendimentos
com completa segurança geotécnica e ambiental
junto à Serra do Mar. A segunda pista da Rodovia
dos Imigrantes, inaugurada em fim de 2002, estabeleceu
internacionalmente o patamar ótimo de referência
técnica para obras viárias em regiões
serranas tropicais úmidas.
Uma importante conclusão desse avançado
estágio de conhecimentos sobre as regiões
serranas tropicais refere-se à identificação
das cristas dos espigões como as feições
de relevo mais estáveis da Serra do Mar, diferentemente
de suas encostas, que são suas feições
de maior instabilidade geológico-geotécnica.
Os espigões referem-se às formas de relevo
semelhantes a verdadeiras “línguas” contínuas
que descem das cotas superiores da escarpa serrana em
direção às cotas topográficas
mais baixas junto à Baixada Litorânea.
O
segundo aporte tecnológico refere-se à
consolidação internacional e aos seguidos
avanços tecnológicos das técnicas
de transportes de cargas em dutos e correias transportadoras
de grande distância. Os dutos já são
uma bem-vinda realidade em nosso país, sendo
dedicados especialmente ao transporte de fluidos. Elas
cortam todo o território nacional conduzindo
expressivos volumes de água, petróleo
e combustíveis líquidos e gasosos. No
transporte de materiais granulares por dutos, tendo
a água como veículo, se bem que com uma
rede ainda pouco expressiva, o Brasil se destaca por
possuir o maior mineroduto do mundo, o mineroduto da
Samarco, que transporta minério de ferro da Mina
do Germano, em MG, para o terminal de Ponta do Ubu,
no litoral do ES, em uma extensão total de 396
km.
Os
sistemas de transporte de materiais granulares por correias
transportadoras de longa distância (TCLD), tanto
do tipo “belt conveyor” – correias abertas, como do
tipo “pipe conveyor” – correias fechadas, estão
hoje consolidados e em grande expansão em todo
o mundo, especialmente nos EUA, Índia, Austrália
e África do Sul. No Brasil, também já
não são novidade, como por exemplo as
dezenas de quilômetros de correias transportadoras
já implantadas pela MBR – Minerações
Brasileiras Reunidas e pela CVRD – Companhia Vale do
Rio Doce para o transporte de seu minério de
ferro. Como empreendimento mais recente, a MRS Logística
ultima as providências para a implantação
de uma correia transportadora com perto de 18 Km de
extensão, no trecho Paranapiacaba (alto da serra)
– Cubatão (Baixada) destinada a levar o minério
de ferro pelotizado, hoje transportado por via férrea
na linha Cremalheira, para a COSIPA, aproveitando o
traçado da linha funicular abandonada já
há cerca de 30 anos. Essa correia transportadora
atenderá a COSIPA em até 6 milhões
de toneladas de minério/ano, liberando a linha
Cremalheira para o transporte de outras cargas, especialmente
containeres. Esse empreendimento exemplifica um dos
grandes benefícios indiretos dos sistemas TCLD,
qual seja a retirada de milhares de caminhões
de carga de nossas estradas, com evidentes vantagens
logísticas e ambientais.
Reunindo
os dois aportes tecnológicos descritos, quais
sejam o geológico e o mecânico (sistema
TCLD), tem-se como resultado a oportunidade de instalação
de correias transportadoras (ou em alguns casos especiais,
de dutos) ao longo da crista de alguns espigões
topográficos, criteriosamente selecionados, para
o transporte de materiais granulares (minérios
e grãos, especialmente) na travessia da escarpa
da Serra do Mar, ou seja, fazendo a ligação
entre o Planalto e a Baixada Litorânea. Com isso,
possibilitando o atendimento de necessidades de transporte
de cargas granulares em regiões do sudeste brasileiro,
definidas pela combinação de pólos
de produção e consumo e de corredores
de transporte integrando-as com zonas portuárias
e industriais litorâneas. Para se ter uma idéia
do possível alcance da possibilidade aventada,
dos 70 milhões de toneladas de carga movimentadas
em 2004 pelo Porto de Santos, cerca de 15 milhões
referem-se a cargas a granel transportáveis por
correias transportadoras.
Por
certo a idéia exposta está no estágio
de uma concepção geral. Estágio
em que, através de exposições a
círculos técnicos especializados, vem
sendo testada em busca de algum eventual "grande
furo", alguma incompatibilidade intransponível.
Imaginamos, por esses exercícios feitos, que
já se possa garantir que desses grandes riscos
o projeto não padece. Do ponto de vista geológico
já vem sendo realizada, para toda a extensão
da Serra do Mar no sudeste brasileiro, uma pré-seleção
dos espigões de serra que, em regiões
de interesse logístico, sejam adequados a receber
a implantação de sistemas de correias
transportadoras ao longo de suas cristas.
Concomitantemente,
estão sendo feitas as primeiras consultas para
o levantamento dos recursos necessários ao desenvolvimento
de um alentado e conclusivo Estudo de Viabilidade Técnico-econômico-ambiental,
o qual necessariamente deverá reunir considerações
e avaliações cuidadosas no campo da Geologia
de Engenharia e da Geotecnia, da Logística e
da Economia de Transportes, assim como da Tecnologia
de Dutos e Correias Transportadoras. Nossa expectativa
é que em meados de 2006 esse estudo de viabilidade
possa estar concluído, permitindo então
que se ofereça à administração
pública e ao setor privado brasileiro uma nova,
racional e econômica alternativa de transporte
de cargas granulares na transposição da
estratégica região serrano-litorânea
do sudeste brasileiro.
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Geólogo
Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br) |