Desafios da Agricultura Orgânica em Áreas Urbanas e Periurbanas


Adriana Maria de Aquino
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Renato Linhares de Assis
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Nos chamados países em desenvolvimento, até a primeira metade do século XX, as zonas rurais concentravam os maiores níveis de pobreza. Com o intenso processo migratório das áreas rurais para as áreas urbanas ocorrido nesses países naquele século, houve uma inversão desse processo. Nas cidades, que aliado ao intenso processo de urbanização, ocorreu uma demanda crescente por melhores oportunidades e melhoria da qualidade de vida, bem como da necessidade de alimentar, em condições adequadas, uma população cada vez mais desvinculada da produção de alimentos.

A agricultura urbana não é uma atividade recente e de alguma forma sempre se expressou nas áreas urbanas mesmo que timidamente, sendo elevado e crescente o interesse que essa atividade tem despertado tanto dos urbanitas, quanto dos pesquisadores e responsáveis por elaboração de políticas. Isso porque, na medida que onde se estabeleceu com eficiência, este tipo de agricultura, desempenhou um papel muito importante na alimentação das populações urbanas, garantindo a sua sobrevivência (FAO, 1999).

Nesse sentido, a agroecologia é um instrumento importante para a implementação de estratégias que buscam viabilizar produções agrícolas em pequena escala sob administração familiar, em função principalmente da baixa dependência de insumos externos dos sistemas de produção preconizados. Além de manter ou recuperar a paisagem e a biodiversidade dos agroecossistemas.

Sistemas de produção de base agroecológica caracterizam-se pela utilização de tecnologias que respeitem a natureza para, trabalhando com ela, auxiliar na manutenção das condições de equilíbrio entre os organismos envolvidos no processo de produção, bem como do ambiente. Como base na utilização destes princípios, foram desenvolvidas diferentes correntes de produção agrícola não industrial, entre as quais a agricultura orgânica tem sido a mais difundida
¹, sendo reconhecida junto ao mercado como sinônimo de todas as outras (ASSIS & ROMEIRO, 2002).

A agricultura orgânica tem por princípio estabelecer sistemas de produção com base em tecnologias de processos, ou seja, um conjunto de procedimentos que envolvam a planta, o solo e as condições climáticas, produzindo um alimento sadio e com suas características e sabor originais, que atenda as expectativas do consumidor (PENTEADO, 2000).

A agricultura orgânica que se idealiza para as áreas urbanas é baseada nos princípios da agroecologia, cujo esteio é o manejo responsável do equilíbrio biológico da natureza, uma agricultura orgânica que, como colocam LATTUCA et al. (2002), possibilita obter bons níveis de produtividade, evitando ao mesmo tempo todo risco de contaminação química para o agricultor urbano e os consumidores, bem como do meio ambiente. Por outra parte incorpora os avanços da ciência, promovendo a participação criativa dos agricultores, respeitando os conhecimentos, cultura e experiências locais.

A sustentabilidade da agricultura urbana deve estar apoiada no manejo agroecológico, e envolver o uso de substratos e manejo orgânico do solo, técnicas de rotação e associações de cultivos e manejo fitossanitário alternativo ao convencionalmente utilizado, bem como na utilização de todo espaço disponível para maior produção o ano todo, e integração interdisciplinar e interinstitucional para acessorar a produção (COMPANIONI et al., 2001).

Nesse sentido é que a agroecologia é considerada especialmente apropriada para o entorno urbano, posto que sistemas orgânicos de produção com foco agroecológico caracterizam-se como um instrumento interessante para viabilização da agricultura em pequena escala, em regime de administração familiar tanto em sistemas de parcelas individuais, como em explorações associativas, posto que a baixa dependência de insumos externos facilita a adoção dessa forma de produção por esse tipo de agricultor (ASSIS, 2003). Além disso, os sistemas agrícolas conduzidos através do manejo orgânico com enfoque agroecológico, tem o compromisso de manter e/ou recuperar a biodiversidade dos agroecossistemas e do entorno, ao mesmo tempo em que possibilitam aumento de renda para a família ao agregar valor aos produtos e ampliar o mercado, facilitando a comercialização.

É crescente importância da agricultura urbana enquanto fenômeno sócio-econômico, caracterizando-se a opção por sistemas de produção com base na agroecologia como mais adequados à realidade dos agroecossistemas urbanos. Isto é feito porém, com a delimitação de limites a difusão da agricultura urbana, expressos em demandas por tecnologias e insumos específicos, adaptados a esta realidade, especialmente no que se refere ao melhor aproveitamento de resíduos orgânicos urbanos como adubos, a disponibilidade de substratos e de mecanismos de controle de pragas e doenças vegetais de baixo custo e de baixo impacto ambiental.

Destaca-se ainda a necessidade de desenvolver capacidades locais e apoiar o desenvolvimento de novos enfoques institucionais interdisciplinares e mais eficientes, para o que o apoio consistente e persistente do poder público tem demonstrado ser fundamental, com políticas e ações que visem a promoção da agricultura urbana. No entanto, é fundamental observar, que a eficiência das iniciativas do poder público nesse sentido é, em muito potencializada, quando se dá junto a iniciativas da sociedade mobilizada e organizada.

¹ Além da agricultura orgânica podemos citar: agricultura biológica, agricultura biodinâmica, agricultura natural, agricultura alternativa, agricultura ecológica, permacultura e agricultura regenerativa. Para mais detalhes ver ASSIS (2004), DAROLT (2000) e JESUS (1985).

Referências

ASSIS, R. L. de. Globalização, Desenvolvimento Sustentável e Ação Local: o caso da agricultura orgânica. Cadernos de Ciência e Tecnologia. Brasília, v.20, n.1, p.79-96, 2003.

ASSIS, R. L. de; ROMEIRO, A. R. Agroecologia e Agricultura Orgânica: controvérsias e tendências. Desenvolvimento e Meio Ambiente, Curitiba, v. 6, p. 67-80, 2002.

COMPANIONI, N.; PÁEZ, E.; OJEDA, Y.; MURPHY, C. La agricultura urbana em Cuba. In: FUNES, F.; GARCÍA, L.; BOURQUE, M.; PÉREZ, N.; ROSSET, P. (Ed.) Transformando el campo cubano. La Habana : ACTAF, Cuba, 2001. 93-110 p.

FAO. Issues in urban agriculture – Studies suggest that up to two-thirds of city and peri-urban households are involve in farming. Web page: FAO: http://www.fao.org/ag/magazine/9901ap2.htm, 1999.

LATTUCA, A.; MARIANI, S.; TERRILE, R. Una Estratégia de Desarrollo Local para Sectores de Bajos Recursos – Agicultura Urbana Orgânica. Revista Agricultura Urbana, Quito, n.6, p. 30-31, 2002.

PENTEADO, S. R. Introdução à Agricultura Orgânica: Normas e técnicas de cultivo. Campinas: Editora Grafimagem, 2000. 110p.

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Pesquisadores da Embrapa Agrobiologia. Br 465, km7, Cx Postal 74505. Seropédica, RJ. 23890-000; e-mail: adriana@cnpab.embrapa.br

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