Nos
chamados países em desenvolvimento, até
a primeira metade do século XX, as zonas rurais
concentravam os maiores níveis de pobreza. Com
o intenso processo migratório das áreas
rurais para as áreas urbanas ocorrido nesses
países naquele século, houve uma inversão
desse processo. Nas cidades, que aliado ao intenso processo
de urbanização, ocorreu uma demanda crescente
por melhores oportunidades e melhoria da qualidade de
vida, bem como da necessidade de alimentar, em condições
adequadas, uma população cada vez mais
desvinculada da produção de alimentos.
A agricultura urbana não é uma atividade
recente e de alguma forma sempre se expressou nas áreas
urbanas mesmo que timidamente, sendo elevado e crescente
o interesse que essa atividade tem despertado tanto
dos urbanitas, quanto dos pesquisadores e responsáveis
por elaboração de políticas. Isso
porque, na medida que onde se estabeleceu com eficiência,
este tipo de agricultura, desempenhou um papel muito
importante na alimentação das populações
urbanas, garantindo a sua sobrevivência (FAO,
1999).
Nesse sentido, a agroecologia é um instrumento
importante para a implementação de estratégias
que buscam viabilizar produções agrícolas
em pequena escala sob administração familiar,
em função principalmente da baixa dependência
de insumos externos dos sistemas de produção
preconizados. Além de manter ou recuperar a paisagem
e a biodiversidade dos agroecossistemas.
Sistemas de produção de base agroecológica
caracterizam-se pela utilização de tecnologias
que respeitem a natureza para, trabalhando com ela,
auxiliar na manutenção das condições
de equilíbrio entre os organismos envolvidos
no processo de produção, bem como do ambiente.
Como base na utilização destes princípios,
foram desenvolvidas diferentes correntes de produção
agrícola não industrial, entre as quais
a agricultura orgânica tem sido a mais difundida¹,
sendo reconhecida junto ao mercado como sinônimo
de todas as outras (ASSIS & ROMEIRO, 2002).
A agricultura orgânica tem por princípio
estabelecer sistemas de produção com base
em tecnologias de processos, ou seja, um conjunto de
procedimentos que envolvam a planta, o solo e as condições
climáticas, produzindo um alimento sadio e com
suas características e sabor originais, que atenda
as expectativas do consumidor (PENTEADO, 2000).
A agricultura orgânica que se idealiza para as
áreas urbanas é baseada nos princípios
da agroecologia, cujo esteio é o manejo responsável
do equilíbrio biológico da natureza, uma
agricultura orgânica que, como colocam LATTUCA
et al. (2002), possibilita obter bons níveis
de produtividade, evitando ao mesmo tempo todo risco
de contaminação química para o
agricultor urbano e os consumidores, bem como do meio
ambiente. Por outra parte incorpora os avanços
da ciência, promovendo a participação
criativa dos agricultores, respeitando os conhecimentos,
cultura e experiências locais.
A sustentabilidade da agricultura urbana deve estar
apoiada no manejo agroecológico, e envolver o
uso de substratos e manejo orgânico do solo, técnicas
de rotação e associações
de cultivos e manejo fitossanitário alternativo
ao convencionalmente utilizado, bem como na utilização
de todo espaço disponível para maior produção
o ano todo, e integração interdisciplinar
e interinstitucional para acessorar a produção
(COMPANIONI et al., 2001).
Nesse sentido é que a agroecologia é considerada
especialmente apropriada para o entorno urbano, posto
que sistemas orgânicos de produção
com foco agroecológico caracterizam-se como um
instrumento interessante para viabilização
da agricultura em pequena escala, em regime de administração
familiar tanto em sistemas de parcelas individuais,
como em explorações associativas, posto
que a baixa dependência de insumos externos facilita
a adoção dessa forma de produção
por esse tipo de agricultor (ASSIS, 2003). Além
disso, os sistemas agrícolas conduzidos através
do manejo orgânico com enfoque agroecológico,
tem o compromisso de manter e/ou recuperar a biodiversidade
dos agroecossistemas e do entorno, ao mesmo tempo em
que possibilitam aumento de renda para a família
ao agregar valor aos produtos e ampliar o mercado, facilitando
a comercialização.
É crescente importância da agricultura
urbana enquanto fenômeno sócio-econômico,
caracterizando-se a opção por sistemas
de produção com base na agroecologia como
mais adequados à realidade dos agroecossistemas
urbanos. Isto é feito porém, com a delimitação
de limites a difusão da agricultura urbana, expressos
em demandas por tecnologias e insumos específicos,
adaptados a esta realidade, especialmente no que se
refere ao melhor aproveitamento de resíduos orgânicos
urbanos como adubos, a disponibilidade de substratos
e de mecanismos de controle de pragas e doenças
vegetais de baixo custo e de baixo impacto ambiental.
Destaca-se ainda a necessidade de desenvolver capacidades
locais e apoiar o desenvolvimento de novos enfoques
institucionais interdisciplinares e mais eficientes,
para o que o apoio consistente e persistente do poder
público tem demonstrado ser fundamental, com
políticas e ações que visem a promoção
da agricultura urbana. No entanto, é fundamental
observar, que a eficiência das iniciativas do
poder público nesse sentido é, em muito
potencializada, quando se dá junto a iniciativas
da sociedade mobilizada e organizada.
¹ Além da agricultura
orgânica podemos citar: agricultura biológica,
agricultura biodinâmica, agricultura natural,
agricultura alternativa, agricultura ecológica,
permacultura e agricultura regenerativa. Para mais detalhes
ver ASSIS (2004), DAROLT (2000) e JESUS (1985).
Referências
ASSIS, R. L. de. Globalização, Desenvolvimento
Sustentável e Ação Local: o caso
da agricultura orgânica. Cadernos de Ciência
e Tecnologia. Brasília, v.20, n.1, p.79-96, 2003.
ASSIS, R. L. de; ROMEIRO, A. R. Agroecologia e Agricultura
Orgânica: controvérsias e tendências.
Desenvolvimento e Meio Ambiente, Curitiba, v. 6, p.
67-80, 2002.
COMPANIONI, N.; PÁEZ, E.; OJEDA, Y.; MURPHY,
C. La agricultura urbana em Cuba. In: FUNES,
F.; GARCÍA, L.; BOURQUE, M.; PÉREZ, N.;
ROSSET, P. (Ed.) Transformando el campo cubano. La Habana
: ACTAF, Cuba, 2001. 93-110 p.
FAO. Issues in urban agriculture – Studies suggest that
up to two-thirds of city and peri-urban households are
involve in farming. Web page: FAO: http://www.fao.org/ag/magazine/9901ap2.htm,
1999.
LATTUCA, A.; MARIANI, S.; TERRILE, R. Una Estratégia
de Desarrollo Local para Sectores de Bajos Recursos
– Agicultura Urbana Orgânica. Revista Agricultura
Urbana, Quito, n.6, p. 30-31, 2002.
PENTEADO, S. R. Introdução à
Agricultura Orgânica: Normas e técnicas
de cultivo. Campinas: Editora Grafimagem, 2000.
110p.