Em
cinco anos a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária,
vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária
e Abastecimento, deverá colocar no mercado a primeira
variedade transgênica de algodão genuinamente
brasileira. Há 20 anos a empresa pesquisa uma solução
para tornar a cotonicultura livre do bicudo, um pequeno
inseto que, praticamente, dizimou a lavoura algodoeira
na região Nordeste, desde sua introdução
no Brasil, em 1983.
"A pesquisa está
baseada na identificação e isolamento de
um gene que codifica para uma enzima com potencial inseticida",
detalha a pesquisadora Roseane Cavalcanti dos Santos,
que defendeu tese de doutorado sobre o algodão
transgênico no final do ano passado pela Universidade
de Brasília (UnB). "Posteriormente o gene
inseticida será introduzido em plantas de algodão.
Essa pesquisa traz uma perspectiva animadora para o controle
desse inseto, que no momento é feito com aplicações
massivas de inseticidas químicos, onerando o sistema
de produção e poluindo o meio ambiente",
acrescenta Roseane.
Segundo a pesquisadora,
a enzima é tóxica para o inseto porque ataca
o colesterol de suas membranas intestinais, interferindo
no crescimento e levando-o à morte. "A enzima,
coletada de uma bactéria de plantas, já
se mostrou atóxica contra mamíferos, em
testes conduzidos anteriormente", garante a pesquisadora
da Embrapa Algodão.
Roseane conseguiu isolar
cerca de 50% do gene com previsão para isolar a
parte restante no final de 2004. "A partir daí,
serão iniciados os testes de introdução
da seqüência codante do gene na planta e posteriores
ensaios relativos ao potencial inseticida da nova planta
melhorada sobre os insetos. O resultado dessa pesquisa
será de grande repercussão para o soerguimento
definitivo da lavoura algodoeira no Brasil. Em termos
econômicos, a redução com o uso de
inseticidas será significativa considerando-se
que dos cerca de US$ 2,5 bilhões investidos em
agrotóxicos em 2002, 28% foi destinado para compra
de inseticidas", destaca. O Brasil gasta atualmente
cerca de U$ 900.000.000 para o controle de insetos do
algodão.
O bicudo é um inseto
com grande capacidade reprodutiva, com ciclo biológico
entre 12 e 17 dias. Durante um ciclo do algodoeiro, que
fica entre 150 e 160 dias, o bicudo pode reproduzir até
seis vezes, de modo que, no campo, podem ser encontrados
cerca de 500 mil insetos por hectare. Os prejuízos
na produção ocorrem porque o bicudo se alimenta
e coloca seus ovos em botões florais novos, elevando
o percentual de queda de frutos.
A pesquisa, que está
sendo realizada no Laboratório de Regulação
Gênica da Embrapa Biotecnologia e Recursos Genéticos,
em Brasília, tem como colaboradores os pesquisadores
Eugen Gander e Lucília Marcellino, que atuaram,
respectivamente, como orientador e co-orientador da referida
pesquisadora.
Dalmo Oliveira
FONTE: Embrapa