Brasília
- Na Amazônia e, particularmente, no Acre, o ecossistema
florestal possui maior condição de competir
em um mundo globalizado do que a agropecuária.
Isso é o que assegura o engenheiro florestal Écio
Rodrigues em sua tese de Doutorado em Desenvolvimento
Sustentável, que foi recentemente defendida e aprovada,
com elogios e louvor, na Universidade de Brasília.
Com mais 800 páginas, 10 capítulos, 300
citações de livros e artigos, que lhe permitiram
fazer uma ampla revisão da literatura sobre o ecossistema
amazônico, a tese de Écio Rodrigues recebeu
o sugestivo nome de “Vantagem competitiva do ecossistema
na Amazônia: o cluster florestal do Acre”, entendendo-se
como “cluster” o aglomerado econômico do setor florestal.
O estudo de Rodrigues se constitui num grande reforço
científico para aqueles que advogam que o futuro
da Amazônia passa necessariamente pela exploração
sustentável de seus recursos florestais, pois além
de serem social e economicamente mais vantajosos, mantêm
a sua grande e rica floresta de pé. Ao contrário
da pecuária e da soja, que têm dado lucro
a poucos, além de representarem uma ameaça
cada vez maior à existência da maior florestal
tropical do planeta.
Para chegar à conclusão de que o manejo
dos recursos florestais é a atividade mais vantajosa
que se pode desenvolver na Amazônia, Écio
Rodrigues também usou a experiência que acumulou
nos últimos anos no Acre convivendo com suas populações
tradicionais e participando de projetos pioneiros de manejo
florestal, como o da Floresta Estadual do Antimary e o
do Seringal Porto Dias.
Carioca de Nova Friburgo e “acreano por opção”,
como faz questão de frisar desde que chegou ao
Acre em 1986, Écio Rodrigues, 44 anos, foi presidente
da Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac)
nos dois primeiros anos do governo Jorge Viana e coordenador-geral
do Centro de Trabalhadores da Amazônia (CTA) de
1992 a 1998. Écio se graduou em Engenharia Florestal
na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, fez mestrado
em Política Florestal na Universidade Federal do
Paraná e concluiu o curso de doutorado na Universidade
de Brasília. Atualmente, o engenheiro é
assessor do deputado federal Zico Bronzeado (PT-AC). Para
conhecer o teor de sua tese, basta acessar o site da UnB
(www.unbcds.pro.br) ou mandar e-mail para o autor (ecio.rodrigues@uol.com.br).
O que sua tese defende exatamente?
Trata-se de um documento de mais de 800 páginas,
com 10 capítulos e mais de 300 citações
de livros e artigos científicos, que é o
resultado de uma ampla revisão de literatura sobre
o ecossistema florestal. Na verdade, são várias
hipóteses defendidas e comprovadas que sustentam
uma tese maior e fundamental para realidade contemporânea
da Amazônia e de seu futuro em curto prazo. É
a tese de que o ecossistema florestal existente na região
possui maior condição de competir em um
mundo globalizado do que a agropecuária.
Como você conseguiu demonstrar isso?
Durante minha formação acadêmica de
engenharia florestal, de especialização
em manejo florestal, de mestrado em economia e política
florestal e, agora, de doutorado em desenvolvimento sustentável,
pude mergulhar nos números e dados do setor. Esse
período me permitiu acreditar na superioridade
competitiva da floresta. Isso ocorreu a partir da união
de uma sólida estrutura teórica com a descrição
de um universo de experiências que vêm sendo
realizadas na Amazônia, em especial no Acre, que
já demonstraram seu sucesso. Na verdade, procurei
reunir a bagagem prática obtida nos meus 18 anos
de trabalho junto às populações extrativistas
e produtores rurais com o que os teóricos da competitividade
e do desenvolvimento sustentável afirmavam.
De que forma foi construída a sua tese?
Primeiro, tratamos de identificar a diferença entre
lidar com o ecossistema e com sistemas domesticados. As
barreiras vão bem além daquelas impostas
pelas normas e institucionalidades atuais, que são
direcionadas para o favorecimento da conversão
do ecossistema florestal em prejuízo de seu uso
sustentável. A domesticação e o cultivo
se encontram impregnados no modo de pensar da sociedade,
forjando hábitos de consumo e de produção.
Isso ocorre mesmo na Amazônia, onde tudo parece
ser diferenciado?
O ecossistema florestal da Amazônia requer um modo
diferente de consumo e produção. Isso significa
que é preciso promover uma profunda transformação
cultural em direção à complexidade
da região. Renunciar ao cartesianismo, que simplifica
e domestica, e adotar a complexidade representada pela
diversidade biológica e cultural existente na região,
como fonte de criação e manutenção
de vantagem competitiva. O pensamento complexo, diferente
do cartesianismo, aceita a diversidade do ecossistema
como valor inigualável e defende sua manutenção
como condição primordial de sua continuidade.
E o que mais a tese abordou?
No segundo capítulo, empreendemos a defesa do arranjo
produtivo (cluster) florestal como leitura concreta dos
ideais de desenvolvimento sustentável preconizados
pelos países reunidos na Conferência Rio
92. As sucessivas conferências realizadas no âmbito
do sistema das Nações Unidas têm demonstrado
que os países convergem para a adoção
de mecanismos que acentuem a necessidade de valorizar
os ativos dos ecossistemas como condição
para a sustentabilidade. Ou seja, a atividade florestal,
inserida nas técnicas do manejo florestal de uso
múltiplo, encontra maior compatibilidade com o
conceito de desenvolvimento sustentável que qualquer
outra opção produtiva baseada na agropecuária.
Onde a sua tese analisa a Amazônia especificamente?
No terceiro capítulo. Assumindo toda literatura
produzida acerca do processo de ocupação
social e econômica da Amazônia, procuramos
realizar uma leitura desses acontecimentos de dentro da
floresta. Isto é, identificamos que não
bastaria uma análise tradicional desse processo
de ocupação, sobretudo dos últimos
50 anos, período já examinado e condenado
em farta bibliografia. No caso defendido na tese, essa
avaliação teria que se dar sob a ótica
do ecossistema florestal, distinguindo-se as implicações
que determinadas alternativas produtivas trazem ao ecossistema
nos dois principais períodos da ocupação
produtiva da região, que foram quando o recurso
florestal foi o agente da ocupação (suscitando
os ciclos da borracha, do óleo de tartaruga, entre
outros) e quando o recurso florestal passou a ser um obstáculo
a ser vencido. Esses dois momentos foram apreciados, assinalando-se
as vantagens e desvantagens de cada um.
O que tratam os outros capítulos da tese?
O quarto e quinto capítulos tratam das tentativas
de planejamento do processo de ocupação
da região, de suas vantagens comparativas e da
teoria das vantagens competitivas. Demonstramos nesses
capítulos que era possível - com um mínimo
de planejamento na instalação de atividades
econômicas - fazer com que as vantagens comparativas
tradicionais, como disponibilidade de terras e mão-de-obra,
fossem transformadas em diferencial de competitividade
duradouro. Comprovamos que o ecossistema florestal, com
toda sua diversidade, e a existência de uma população
tecnicamente preparada e que reivindica manejá-lo,
se configuravam em vantagens competitivas que possibilitam
à Amazônia se inserir no mercado global com
segurança.
Consta que a exploração da floresta ainda
esbarra em um sem número de dificuldades normativas
e tecnológicas.
Como foi abordada essa questão?
Você acaba de tocar em dois gargalos que pareciam
insuperáveis há duas décadas. O sexto
e sétimo capítulos são dedicados
exatamente à discussão normativa e tecnológica.
A partir de experiências de manejo florestal em
execução, principalmente no Acre, constatamos
que existem condições tecnológicas
de execução de atividades de manejo florestal
e que brechas normativas permitiriam sua condução
dentro da legalidade.
Quais experiências acontecem no Acre?
No Acre, há um leque de experiências, como
as do Porto Dias, do Projeto de Assentamento Pedro Peixoto
e da Floresta Estadual do Antimary, que vêm se consolidando
aos longos dos últimos anos. Com relação
à produção e à instalação
de infra-estrutura, essas experiências têm
em comum o fato de significarem uma contraposição
ao modelo de ocupação em vigor. Com ousadia
e determinação, os agentes sociais envolvidos
nesses projetos alternativos conseguiram engendrar alguma
resposta àquele modelo. Com forte viés florestal
e social, tais experiências exprimiram, de alguma
forma, o desenvolvimento sustentável antes mesmo
de esse ideário vir a ser traduzido.
Em sua tese, o que é discutido da realidade acreana?
O Acre é onde tudo acontece. A tese não
seria completa sem um estudo de caso. Nos três capítulos
finais, era preciso levar o cluster florestal a uma realidade.
Aprofundou-se pesquisa de campo e de dados secundários
em cada município, diagnosticando-se as respectivas
condições sociais, ofertas de ocupação
e dinamismo econômico. Para definir as atividades
produtivas na área florestal, a serem inseridas
na composição do cluster florestal do Estado,
levamos em conta o grau de antropismo observado na instalação
da agropecuária no município, o potencial
de ocorrência das diversas tipologias florestais
no território municipal, a existência de
experiências nas áreas de infra-estrutura
e de produção e a tradição
extrativista medida pela produção de borracha
e pelo número de famílias que ainda se mantêm
na atividade. Levamos ainda em conta a situação
fundiária do município, caracterizada pela
quantidade de hectares já legalmente destinados
ao uso florestal por via da criação de unidades
de conservação de uso sustentável
e de proteção integral e por via das terras
indígenas demarcadas. Por fim, levamos em conta
o funcionamento e a operacionalidade do cluster florestal
do Estado.
Romerito
Aquino
FONTE: http://www.amazonia.org.br/noticias/noticia.cfm?id=132007