Comitê Organizador divulga balanço do FSM


No encerramento das atividades da quinta edição do Fórum Social Mundial, o Comitê Organizador divulgou documento que faz um balanço do evento deste ano. Foram 155 mil participantes de 135 países, dos quais 35 mil estiveram no Acampamento da Juventude. O texto afirma que muitas ações ganharam impulso e saem do encontro fortalecidas e mais organizadas, com agendas para o ano todo. No próximo ano, o FSM será realizado simultaneamente em vários países. No ano seguinte, será sediado na África. Veja a íntegra do documento:

Esta quinta edição do Fórum Social Mundial começou como expressão da diversidade planetária, polifonia de vozes que se encontram em desejos universais da tolerância, da justiça, da paz, da igualdade. E se encerra dentro desse mesmo espírito. Mas este fórum teve o desafio de ser mais propositivo, de avançar em agendas comuns e propor ações. Para isso, ele foi totalmente autogestionado. Todas as atividades foram desenvolvidas pelas organizações participantes. Nos 11 Espaços Temáticos, foram afixados murais para receber propostas que resultassem das discussões e assembléias. Até agora, 215 propostas foram afixadas nestes murais. E se encontram aqui expostas. Elas serão divulgadas para que mais movimentos, organizações e pessoas possam a elas se incorporar.

Tudo isso aconteceu numa geografia própria: o Território Social Mundial, instalado ao longo da orla do Guaíba, onde discutimos propostas e compartilhamos a convivência. Com contradições e conflitos. Celebramos a vida comunitária e a responsabilidade comum num espaço aberto, público, coletivo e democrático. O território do fórum foi um Laboratório para mudar a vida. Foi o lugar de convergência de inúmeras iniciativas. De encontro entre a comunidade do Fórum e de Porto Alegre, a cidade cujo símbolo é o pôr-do-sol do Guaíba que não tem dono, não foi construído, é de todos e de ninguém da mesma forma. Foi esse crepúsculo que, todos os dias, recortou um território em movimento, geografia de um mundo em transformação.

No território do Fórum materializamos várias práticas transformadoras. A bioconstrução mostrou que uma casa pode nascer do simples ordenamento racional do que a natureza oferece. A economia solidária, justa nos preços e ética no consumo, esteve presente. Práticas desafiadoras, como o uso do software livre, a rede de voluntários da tradução e novas formas de comunicação compartilhada foram incorporados ao dia-a-dia. Isso exigiu aprendizado, persistência, trabalho. Mas para quem quer mudar as coisas, só existe um caminho: tentar. Por isso tentamos, insistimos, resistimos. Só assim é possível aprender e seguir em frente.

Este ano, pela primeira vez, o Acampamento da Juventude esteve incorporado à geografia do Fórum, inovando nas práticas comunitárias e de auto-gestão e radicalizando na defesa dos direitos humanos.

Este ano, a autogestão permeou todas as práticas, desde o primeiro momento. E assim, em vez de eventos com grandes palestras, houve uma discussão horizontal, plural e democrática de uma multiplicidade de temas. Atividades que permitiram o encontro de muitas organizações e pessoas, tecendo redes, planejando ações, forjando novos encontros. Porque o Fórum não começa nem termina neste espaço. Ele é o momento de convergência de movimentos que lutam, se encontram e seguem lutando. E novas propostas de ação surgirão nesse processo.

Este Fórum se multiplicou no coração e na ação de muita gente. Foram, no total, 155 mil participantes. Destes, 35 mil integrantes no Acampamento da Juventude e 6.880 comunicadores. Pessoas de 135 países envolvidas em 2.500 atividades. E gente que fez da boa vontade, inclusive para resolver problemas, um inestimável alicerce para que este Fórum acontecesse: 2.800 voluntários e voluntárias movidos pela consciência e pela solidariedade. Todo mundo ajudou a dar sentido ao espírito do Fórum, que se espalhou pelo planeta. Milhões de pessoas se conectaram ao Fórum pelas mais variadas formas de comunicação.

Fica para nós e para o mundo um espetáculo de diversidade que começou num final de tarde de 26 de janeiro de 2005: 200 mil pessoas caminhando por Porto Alegre. Ali estavam os malabaristas em frente a um planeta azul carregado por muitas mãos. Os movimentos sociais e populares, os sindicatos, as ONGs. E tantas nuances e rostos. Turbantes, batas, chadôs, cocares. As vestes indianas. Olhos puxados, olhos azuis, peles alvas, a expressão da consciência negra. Bandeiras da cor do arco-íris. Um mar de gente pulsando no coração da cidade.

Essa energia contagia um planeta em movimento. O movimento segue. E este Fórum impulsiona muitas ações que saem daqui fortalecidas e mais organizadas, com agendas para o ano todo. O diálogo e o encontro revigoram perspectivas, abrem o horizonte. Em 2006, o Fórum Social Mundial será descentralizado, realizado em vários lugares do mundo. Em 2007, será na África. Autogestionário, participativo, democrático, feito por organizações, entidades e pessoas que querem construir um outro mundo com paz, justiça e igualdade. Segue o movimento. Vamos em frente.

É preciso agir, caminhar, transformar, viver.

O outro mundo possível depende de nós.


Porto Alegre, 31 de janeiro de 2005.

FONTE: http://www.cidadania.org.br/conteudo.asp?conteudo_id=4644


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