Falar
na maior universidade pública do País, a
Universidade de São Paulo, costuma remeter ao ensino
de qualidade, à pesquisa de ponta, à formação
de mestres e doutores, além de uma série
de atividades culturais e de extensão oferecidas
à sociedade. Mas a USP abriga mais do que os seus
100 mil estudantes, professores e funcionários;
mais do que os 5 milhões de títulos cuidadosamente
organizados nas dezenas de bibliotecas; e mais do que
as incontáveis obras de arte integradas aos seus
quatro museus. A universidade abriga também 75
milhões de metros quadrados em todo o Estado de
São Paulo, a maior parte destinada a parques, praças,
gramados e áreas naturais preservadas.
Além
do câmpus de São Paulo, há áreas
verdes espalhadas por outros cinco no interior – Piracicaba,
Pirassununga, Ribeirão Preto, São Carlos
e Bauru – e bases em municípios como Valinhos,
Cananéia, Santos, São Sebastião,
Salesópolis e Ubatuba e em outras regiões
onde são desenvolvidas atividades de ensino e de
pesquisa distintas, como astronomia e sismologia, em Valinhos,
e biologia e oceanografia, em Ubatuba. Mais do que ao
patrimônio universitário, essas áreas
estão incorporadas a um patrimônio ambiental
que não é apenas da instituição,
mas de todos.
Na
verdade, esses câmpus buscam alternativas que primam
pelo “respeito ao ambiente e convivência harmoniosa
em relação ao seu uso e ocupação”,
explica Juliana Mendes Prata, arquiteta da Comissão
de Patrimônio Cultural da universidade, que participou
da pesquisa para o livro Meio Ambiente: patrimônio
cultural da USP, lançado no ano passado numa parceria
entre a Edusp e a Imprensa Oficial. Esta é uma
postura diferente da adotada no projeto de construção
da Cidade Universitária, na então fazenda
do Butantan. “Não dá para cobrar dos projetos
da década de 30 a mesma concepção
que temos hoje”, diz Juliana.
Capital
Na
cidade de São Paulo, a USP não é
formada apenas por prédios suntuosos, como os da
Faculdade de Direito, no Largo de São Francisco,
ou da Faculdade de Medicina, na Avenida Dr. Arnaldo. No
câmpus do Butantã, a Praça do Relógio
é um verdadeiro cartão postal. Reformada
em 1997, seus 176 mil metros quadrados (equivalentes a
18 quarteirões urbanos) têm significado especial:
neles foram plantadas espécies características
de seis ecossistemas vegetais do Estado de São
Paulo, transformando a praça num verdadeiro espaço
didático.
Esse
câmpus abrange também uma reserva florestal
com cobertura remanescente da antiga fazenda Butantan.
Seus 102 mil metros quadrados abrigam mais de 100 espécies
nativas da mata atlântica e uma nascente que forma
um pequeno lago.
A
água também é um elemento de preservação
na reserva biológica do Parque das Fontes do Ipiranga,
na zona sul da capital. As nascentes do Riacho do Ipiranga,
consideradas a última fonte de água não
poluída da área, estão espalhadas
por mais de 1,4 milhão de metros quadrados, onde
cerca de 1,2 milhão ainda são cobertos por
vegetação primitiva da mata atlântica.
A
região, onde está o Parque de Ciência
e Tecnologia, é um refúgio de espécies
da fauna que ainda resta. É comum se deparar com
macacos saltando nos galhos das árvores, já
habituados com a movimentação do local.
Há pouco tempo, ali era a sede do Instituto de
Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas,
e os funcionários, professores e alunos passeavam
por suas alamedas e lagos, em convívio com os animais.
Não raro encontravam cobras sob os armários,
nas salas. Em seguida eram transferidas para o Instituto
Butantan.
Câmpus
de Piracicaba
A
área do câmpus Luiz de Queiroz, onde se localiza
a Escola Superior de Agricultura, está distribuída
em quatro municípios – Piracicaba, Anhembi, Anhumas
e Itatinga – e totaliza 37,5 milhões de metros
quadrados. Com trechos cortados pelos rios Piracicaba,
Piracicamirim e o Ribeirão Tinga, a área
tem 200 mil metros quadrados de lagos e lagoas, várias
nascentes e duas represas. Uma área de 600 mil
metros quadrados preserva matas ciliares e mais 120 hectares
estão sendo recuperados. A fauna é muito
rica, com destaque para as capivaras, os quatis, os sagüis
e diferentes espécies de aves.
A
Estação Experimental de Anhembi, destinada
ao desenvolvimento de pesquisas, tem um banco de conservação
de material genético florestal, que é considerado
o maior acervo de eucaliptos do mundo, num único
local, com o espécies de diferentes procedências.
Na sede, em Piracicaba, uma área de 15 hectares
foi tombada pelo Patrimônio Histórico. Preserva
um estilo inglês de paisagismo, formado por gramados,
canteiros e outras variedades florestais. Um dos principais
pontos de lazer da cidade, o local é o mais freqüentado
entre os cinco parques existentes. Segundo o prefeito
do câmpus, Marcos Vinícius Folegatti, chega
a receber 2 mil pessoas nos finais de semana.
Pirassununga
A
Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos fica
numa fazenda em Pirassununga e tem 23 milhões de
metros quadrados, dos quais 5 milhões são
de mata de cerrado remanescente da vegetação
nativa e uma pequena parcela de mata atlântica.
Grande parte dessa área, destinada à pesquisa
e ao ensino, é coberta por lâminas d’água,
com 14 lagoas, a maioria mantida com águas de nascentes
próprias. A água consumida no câmpus
vem de duas reservas próprias. A fauna da região
também é muito diversificada. Veados-campeiros,
cachorros-do-mato, lobos-guarás, capivaras, siriemas
e diferentes animais silvestres são vistos freqüentemente
circulando pela fazenda.
Dois
câmpus em São Carlos
Se
o câmpus 1 de São Carlos é nitidamente
urbano, inserido na cidade, o 2 – que vai abrigar, entre
outros, o curso de Engenharia Aeronáutica – está
localizado num trecho de várzeas de 920 mil metros
quadrados. A área tem regiões alagadiças
que, somadas ao espaço de matas ciliares, representam
cerca de 25% da área total do novo câmpus.
O planejamento sustentável dessa área está
baseado no conceito de “bacia-escola”, que prevê
a conservação da água nas nascentes.
De
acordo com o professor Waldir Mantovani, do Instituto
de Biociências, que participou do grupo de estudos
do câmpus 2 e da USP Leste, essa “área de
várzea é raríssima, com espécies
nativas em grande quantidade”. É, ainda, segundo
ele, uma região de pouso de pássaros de
migração. O projeto foi planejado para causar
o menor impacto ambiental possível. “Havia a necessidade
de construir uma ponte e o trecho deveria ser aterrado.
Optamos por uma ponte com vários vãos, o
que repôs todo o substrato retirado para que o fluxo
não fosse interrompido. Com certeza, sairá
mais caro, mas é ambientalmente correto”, acrescenta
Mantovani.
A
USP em Ribeirão Preto
O
câmpus de Ribeirão Preto também surgiu
numa antiga fazenda ocupada pela Faculdade de Medicina,
em 1952, e abriga seis diferentes faculdades. Tombada
pelo Condephaat em 1994, a área de quase 6 milhões
de metros quadrados é coberta por gramados, jardins
e variadas espécies de árvores não
remanescentes. Nela a prefeitura do câmpus desenvolve,
desde 1998, o projeto Floresta USP, que compreende uma
área de recomposição florestal, um
banco genético e um viveiro de mudas, para recuperar
um mínimo de 20% de área verde arborizada.
O reflorestamento permanente repovoou o lugar com pica-paus,
sabiás, anus, tuins, papagaios, periquitos e beija-flores,
entre outros. Na área são encontrados, ainda,
importantes recursos hídricos, como nascentes,
córrego e açude, além de fonte de
captação de água subterrânea.
No
litoral
Áreas
no litoral norte do Estado de São Paulo também
fazem parte do patrimônio ambiental da USP. Na região
de Cananéia e Ubatuba estão as bases do
Instituto Oceanográfico; e em São Sebastião
fica a sede do Centro de Biologia Marinha, numa área
de proteção ambiental. Utilizadas principalmente
para pesquisas e cursos de extensão, estão
abertas ao público para visitas monitoradas. No
litoral sul, o destaque são as ruínas do
engenho São Jorge dos Erasmos, em São Vicente,
o primeiro construído na América do Sul
para o beneficiamento da cana-de-açúcar.
A área é utilizada para pesquisa histórica
e arqueológica e para programas de educação
ambiental.
USP
Leste
A
mais nova área da universidade no câmpus
da capital é a USP Leste, que está sendo
construída na região mais populosa da cidade.
O projeto segue uma concepção moderna de
edificação que interfere minimamente no
ambiente. O novo espaço está sendo construído
próximo à várzea do Rio Tietê
e prevê a recuperação de áreas
degradadas, originalmente recebidas pela instituição,
e agora utilizadas no ensino, na pesquisa e na extensão,
associadas com o lazer educativo da comunidade. O professor
Antonio Marcos de Aguirra Massola, coordenador do Espaço
Físico da USP, explica: “O projeto, planejado com
base na preservação ambiental de toda a
área, prevê áreas de convívio,
com praças e bosques arborizados com espécies
nativas da região”.
Ele
ressalta a utilização de programas como
o Projeto de Uso Racional de Água (Pura), o Projeto
de Uso Racional de Energia (Pure), que obtiveram excelentes
resultados técnicos e financeiros na universidade.
“A USP considerou-os como de importante aplicação
na nova área. A isso devem ser acrescentados os
mecanismos de recuperação de águas
pluviais e águas utilizadas que, após o
tratamento, serão reutilizadas na USP Leste.” Outro
projeto que será instalado no novo espaço
é o USP Recicla, para reaproveitamento de materiais
por meio de reciclagem. Massola acredita que terá
ampla aplicação e grande importância
para a comunidade carente da região.
Aprendendo
a cuidar
O
professor Waldir Mantovani, coordenador do curso de Gestão
Ambiental da USP Leste, ressalta que a universidade tem
importante papel a desempenhar em relação
ao patrimônio ambiental como um todo. “Não
é um papel passivo, mas de formação
de pessoas, tanto no pensar como no agir. Não adianta
falar para fazer uma coisa quando não faço”.
Para ele, a questão é estabelecer uma nova
relação ética numa sociedade injusta.
“Precisamos de normas para tudo, assim como precisamos
de uma nova ética para o meio ambiente”.
Livro
apresenta patrimônio ambiental da USP para crianças
Conhecer
o patrimônio ambiental da Universidade de São
Paulo, descobrir as possibilidades que a natureza oferece,
encontrar áreas verdes com seus bichos, lagoas
, montanhas e campos. Tudo isso faz parte do livro O Que
a Gente Vê Quando a Gente Olha. Editado pela Imprensa
Oficial e Edusp, com a coordenação do Centro
de Preservação Cultural da USP, a obra fala
de proteção ambiental de forma interativa,
permitindo que a criança possa aprender e se divertir.
Traz adesivos de peixes para serem colados nas páginas
da lagoa, saquinho de sementes para serem plantadas e
muitos exercícios interessantes: descobrir a sombra
certa do besouro, caça palavras com os nomes das
matas, além de dicas para fazer reciclagem de papel,
jogo dos sete erros com fotos de laboratório da
universidade e até ligar os pontos para revelar
uma bela fazenda de café no câmpus Ribeirão
Preto.
Ana
Lúcia Duarte Lanna, coordenadora do CPC/USP, revela
que a idéia dessa publicação surgiu
quando os especialistas e pesquisadores perceberam que
as áreas verdes e a natureza preservada também
tinham significado para a população. 'As
pessoas usam o espaço e não notam que ele
pertence a uma universidade, como é o caso do Parque
da Esalq, em Piracicaba, ou as lagoas em Pirassununga.
E a universidade quer criar vínculos com a comunidade.
A partir daí, pensamos num livro para reforçar
essa idéia com as crianças e, além
disso, contribuir para a formação delas
no tema do meio ambiente', explica Ana Lanna.
SERVIÇO
O
livro custa R$ 25,00 e está disponível no
site da Imprensa Oficial: www.imprensaoficial.com.br/lojavirtual
Da
Assessoria de Imprensa da USP/Márcia Furtado Avanza/Da
Agência da Imprensa Oficial/L.S.
FONTE:
http://www.saopaulo.sp.gov.br/sis/lenoticia.asp?id=56345