A
Embrapa está trabalhando na avaliação
de alternativas de manejo para lavouras de café
orgânico no cerrado. Um experimento conduzido na
fazenda da Embrapa Arroz e Feijão, em Santo Antônio
de Goiás (GO), busca a obtenção de
grãos sem o uso de agrotóxicos, a fim de
permitir maior agregação de valor ao produto
e melhor remuneração ao agricultor. A iniciativa
visa também estudar diferentes níveis de
tensão da água no solo para o manejo adequado
da irrigação.
O
plantio do café, variedade Catuaí Vermelho,
ocorreu no mês de abril de 2004, em uma área
de meio hectare. Agora, a cultura do cafeeiro está
sendo conduzida em consórcio com a mucuna preta,
planta leguminosa que, quando inoculada com bactérias,
fixa ao solo com maior eficiência, o nitrogênio
atmosférico. A mucuna preta é capaz ainda
de reciclar nutrientes residuais do subsolo, uma vez que
suas raízes crescem agressivamente até as
camadas mais profundas.
"A
mucuna preta, além dos benefícios quanto
ao aspecto nutricional, está ajudando a segurar
a emergência de plantas daninhas e protege o solo
contra a erosão", diz José Aloisio
Alves Moreira, responsável técnico pelo
trabalho. O espaçamento de plantio adensado do
café, entre 60 cm e 70 cm, também favoreceu
o abafamento das invasoras.
Outra
característica que tem contribuído para
o controle das plantas daninhas foi o preparo do solo
antes do plantio. José Aloísio explica que
no local havia crotalária e vegetação
espontânea, as quais foram manejadas para pré-incorporação
ao solo, com grade aradora.
Depois
disso, após 15 dias, foi realizada aração
profunda, que ajudou na incorporação dos
restos culturais da crotalária, bem como do banco
de sementes das invasoras. Posteriormente, foi feita a
sulcagem e procedida a adubação para o cafeeiro,
que constou de esterco curtido, de aves e de bovinos,
e aplicação de fosfato natural de rochas.
O
pesquisador esclarece que, desde a implantação
da lavoura até o período das chuvas desta
safra de verão, o café recebeu água
de irrigação, via gotejamento. No momento,
as irrigações estão suspensas, uma
vez que a precipitação pluvial é
suficiente para atender a cultura.
José
Aloísio afirma que não foi preciso o uso
de inseticidas. "A única praga que ocorreu,
em baixa intensidade, foi o bicho mineiro, mas não
houve necessidade de utilização de nenhum
controle", diz. Daqui para frente, se for o caso,
doenças e pragas serão combatidas com produtos
à base de cobre ou de enxofre, como a calda bordalesa,
calda viçosa ou extrato da planta nim indiano.
Segundo
José Aloísio, a preocupação
maior com a lavoura deverá surgir em meados de
fevereiro, ao final da estação chuvosa.
"Nessa época, poderá haver competição
por água entre o cafeeiro e a mucuna preta, o que
exigirá um monitoramento da área para que
o café não seja prejudicado em seu desenvolvimento",
afirma o pesquisador.
José
Aloísio conta que nesse período ocorrerá
a floração da mucuna preta e ela deverá
ser roçada. Seus restos culturais ficarão
por cima do solo, protegendo-no e amenizando sua temperatura,
o que preservará por mais tempo sua reserva de
água. Além disso, a palhada da leguminosa
aos poucos sofrerá ataque de microrganismos, virando
húmus, decompondo-se e devolvendo nutrientes ao
solo.
Essas
técnicas preservacionistas aliadas ao estudo de
parâmetros para a irrigação adequada
do cafeeiro são opções que podem
fazer a diferença. "Costumeiramente, o agricultor
se guia apenas pelo senso prático, o que pode resultar
em aumento dos custos de produção, como
gastos excessivos com água e energia, além
de queda na produtividade", argumenta José
Aloísio.
A
primeira colheita com o experimento sobre produção
irrigada de café orgânico no cerrado acontecerá
no primeiro semestre de 2007. Neste mesmo ano, as recomendações
de plantio deverão ser divulgadas. No Centro-Oeste,
a cafeicultura orgânica ainda é incipiente
quando comparada a outras regiões produtoras do
país, e a difusão de técnicas mais
aprimoradas poderá incrementar o rendimento das
lavouras.
Esse
trabalho de pesquisa possui a parceria da Embrapa Agrobiologia
(Seropédica/RJ) e faz parte das atividades do Núcleo
de Desenvolvimento Tecnológico de Agroecossistemas
da Embrapa Arroz e Feijão, onde são avaliados,
além do café, a produção orgânica
de arroz, feijão e milho.
Rodrigo
Peixoto
FONTE: http://www.agrolink.com.br/noticias/pg_detalhe_noticia.asp?Cod=21913