Uma
nova técnica promete facilitar o processo de mapeamento
da contaminação ambiental por chumbo em
grandes populações. A cirurgiã-dentista
Glauce Costa de Almeida, da Faculdade de Odontologia de
Ribeirão Preto (Forp) da USP, demonstrou em seu
mestrado que o esmalte do dente pode ser utilizado como
marcador de poluição ambiental de uma determinada
área. 'Além disso, a técnica se mostrou
de fácil execução, rápida
e muito pouco invasiva, o que facilita a análise
em populações de baixa faixa etária',
afirma a pesquisadora, que trabalhou na área de
Odontopediatria.
No
estudo, Glauce analisou a composição do
esmalte de cerca de 270 crianças, entre quatro
e seis anos, de escolas públicas na cidade de Ribeirão
Preto e de uma região em Bauru, próxima
a uma fábrica de reciclagem de baterias.
Os
resultados mostraram que em Bauru, as crianças
apresentavam, em média, três vezes mais chumbo
no esmalte de seus dentes em relação às
crianças da outra cidade. Enquanto as concentrações
em Ribeirão Preto ficavam entre 100 microgramas
por grama de esmalte, em Bauru nenhuma criança
obteve uma proporção menor que 400, atingindo
cifras superiores a 1.000.
Segundo
Glauce, a contaminação por chumbo pode causar
inúmeros danos à saúde , sendo o
sistema nervoso central o principal atingido. Quando os
contaminados são crianças em crescimento
o perigo é maior, podendo prejudicar o desenvolvimento
neurológico e acarretar problemas como nefropatia
(nos rins), infertilidade masculina e comprometimento
da audição. 'Algumas crianças atendidas
em Bauru já haviam sido internadas para tratamento
em Botucatu', conta.
Indolor
Exames
de sangue, a técnica mais utilizada para a detecção
dos níveis de chumbo no organismo, são difíceis
de serem aplicados em crianças e em grandes quantidades
de pessoas. Já a técnica adaptada por Glauce
consiste em recolher uma pequena amostra do esmalte com
ácido clorídrico diluído, um processo
totalmente indolor e sem prejuízos para os dentes
do paciente, pois posteriormente são feitas aplicações
tópicas de flúor no local da extração.
No
entanto, o método não está pronto
para ser utilizado clinicamente. 'Ainda não se
sabe qual o valor de chumbo no esmalte do dente que pode
causar prejuízo à saúde do paciente',
explica ela. A professora Raquel Fernanda Gerlach, que
orientou o estudo, acrescenta que 'até o momento,
acredita-se que o chumbo acumulado no esmalte revela a
contaminação a que as crianças estavam
expostas no passado, no período em que os dentes
de leite estavam calcificando'.
Glauce
adianta que seguirá esta mesma linha de pesquisa
em seu doutorado, pela Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp). Entre outras coisas, ela estudará a
maneira como o dente absorve o chumbo, questão
essencial para determinar com segurança a contaminação
ou não dos indivíduos. Ela acrescenta ainda
que no Brasil quase não existem pesquisas acerca
da poluição ambiental causada pelo chumbo
e de como ela afeta as populações envolvidas.
'Em Ribeirão Preto não havia nenhum dado
sobre isso em crianças sem exposição
aparente, e o mesmo ocorre em muitas outras cidades brasileiras'.
A
pesquisa contou com o apoio da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
(Fapesp), alem da colaboração de diversos
pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura
(Cena), da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), da
própria Forp, todas instituições
da USP, e da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP)
da Unicamp.
André
Benevides, da Agência USP
M.J.
FONTE:
http://www.saopaulo.sp.gov.br/sis/lenoticia.asp?id=62768