Com 880 metros, área para deficientes visuais permite
que eles conheçam a diversidade do Cerrado e até
tomem banho de cachoeira
da
PrimaPagina
As belezas naturais do Cerrado também podem ser
apreciadas, pelo menos em parte, não apenas com
os olhos, mas com outros sentidos, como o olfato, o tato
e a audição. É o que mostra um projeto
na Chapada dos Veadeiros, que construiu pela primeira
vez no Brasil uma trilha especialmente para deficientes
visuais. Sem enxergar, eles conseguem apreciar aspectos
do meio ambiente que passam despercebidos pela maioria
das pessoas.
A trilha foi inaugurada em 3 de setembro, na Reserva Particular
do Patrimônio Natural Cachoeira Bonita, no município
goiano de Colinas do Sul, na Chapada dos Veadeiros. A
cerca de 280 quilômetros de Brasília, a reserva
é uma das que foram criadas no Cerrado como parte
do PNUD, que conta com o apoio do GEF (Fundo para o Meio
Ambiente Mundial).
São 880 metros de trilha, com corrimãos
e cabos-guia para orientar os visitantes, que vão
até a Cachoeira do rio Tocantinzinho e conhecem
mais de 120 espécies de árvores, como ipês,
indaiás e jatobás — todas com aromas distintos
para serem apreciados. Placas de identificação
feitas com chapas de radiografia reutilizadas trazem informações
em braile sobre as plantas e os cuidados que devem ser
tomados.
Ao longo do percurso, os deficientes visuais podem ter
contato com diversas formações do Cerrado,
como mangue, cerrado rupestre, área alagada, mata
seca e áreas abertas, afirma o coordenador da implantação
da área, o geógrafo Adolpho Kesselring,
da organização não-governamental
Funatura (Fundação Pró-Natureza,
que atua no Cerrado há 20 anos).
O que mais se destaca no projeto, no entanto, é
que ele é o primeiro em que os cegos poderão
ter contato mais direto com a natureza. “Há outros
espaços reservados para quem tem deficiência
visual, mas eles geralmente são concretados, ou
em gramados, cercados de pinheiros”, explica Kesselring.
“Os deficientes visuais também querem andar na
terra, na areia, no cascalho, nas rochas”, conta ele.
“É preciso desmistificar essa coisa de que só
porque a pessoa não enxerga ela precisa ser superprotegida”,
afirma.
Na trilha, os deficientes visuais podem subir nas rochas
e até tomar banho de cachoeira, em uma área
de águas rasas e com pouca correnteza que lhes
foi reservada. “É surpreendente vê-los fazendo
o passeio. Muitas pessoas que enxergam às vezes
ficam com medo de subir nas rochas, mas eles vão
lá, sobem, enfrentam, querem experimentar tudo”,
conta Kesselring.
“Eles não enxergam, mas vêem a natureza de
um modo que as pessoas que enxergam não conseguem.
Há estímulos naturais que vão muito
além dos visuais, mas que nos passam despercebidos”,
explica, citando o cheiro das árvores, as texturas,
o barulho da cachoeira. Na abertura da trilha, para tentar
mostrar que os outros sentidos podem ser melhores explorados
numa caminhada pela mata, os próprios cegos serviram
de guia de pessoas que enxergam, mas que estavam de olhos
vendados.
Para ir até a reserva é preciso pegar a
rodovia GO-118, em direção a Alto Paraíso;
35 quilômetros depois do povoado de São Jorge,
segue-se em direção a Niquelândia.
A partir daí, há placas indicando o caminho
até a Cachoeira Bonita.
Fonte:
http://www.pnud.org.br/meio_ambiente/reportagens/index.php?id01=1444&lay=mam