Manuel
Apolônio começou construindo piscinas em
SP, adaptou o sistema e inspirou o programa federal de
cisternas no Semi-Árido
GUILHERME
PREZIA
da PrimaPagina
Foi transportando diariamente no lombo de um burro 90
litros de água que Manuel Apolônio de Carvalho
teve a idéia de construir um modelo de cisterna
popular, mais barata e resistente, para captar a água
da chuva e armazenar num tanque. Após 50 anos de
sua invenção, o projeto de cisternas proporciona
água para centenas de milhares de pessoas que moram
no Semi-Árido nordestino.
Desde cedo, ele aprendeu a se adaptar à dura realidade
da seca. Para garantir a água de sua família
e irmãos, Apolônio viajava seis horas por
dia até o riacho mais próximo de sua casa.
Em busca de um futuro melhor, decidiu aos 17 anos tentar
a sorte em São Paulo. Enfrentou dias de viagem
num “pau de arara” — caminhões precários
que transportavam os migrantes —, chegou à capital
e começou a trabalhar como servente de pedreiro
na construção de piscinas.
Após quatro meses na cidade, tempo suficiente para
dominar a técnica da construção de
piscinas, Apolônio decidiu voltar para a Bahia com
a roupa do corpo e uma idéia na cabeça:
a piscina que servia de lazer aos paulistas abastados
serviu também de inspiração para
Apolônio criar um sistema simples que ajudou a combater
o complicado problema da seca de sua região. “Descobri
que tinha criado um meio de ganhar dinheiro e também
de ajudar as pessoas que sofriam”, afirma.
A principal diferença entre as cisternas tradicionais
e a criada por Apolônio está na técnica
de construção. Ao invés de utilizar
formato quadrado com estrutura de pedra e cal, ele criou
uma cisterna redonda, estruturada em placas pré-moldadas
de cimento. Com esse processo, a cisterna pode ser construída
de forma mais rápida e com um custo inferior.
Bastou Apolônio construir a primeira cisterna, na
casa de um amigo de seu pai, para a idéia ganhar
força em sua comunidade — a água da chuva
era captada do telhado da casa e armazenada num tanque.
Três anos após a primeira obra, ele já
havia construído cerca de 400 cisternas em diversas
regiões do Semi-Árido. A partir daí
o negócio cresceu, e Apolônio montou uma
equipe para construir cisternas por todos os Estados do
Nordeste. “Cheguei a ter 70 empregados e perdi a conta
de quantos cisternas construímos”, orgulha-se.
O sistema criado por Apolônio ganhou popularidade
e, com o passar dos anos, começou a ser utilizado
por organizações públicas e privadas.
Na mesma medida em que as cisternas se popularizavam,
Apolônio foi perdendo clientes, até ser engolido
por empreiteiras maiores. Hoje, vive com dificuldade com
sua esposa e três filhas. “Recebi homenagens de
ministros e do governo, mas o que eu quero hoje é
apenas um dinheiro pra poder comer”. Atualmente com 68
anos, o inventor das cisternas diz sofrer de problemas
de saúde e não ter dinheiro para pagar um
tratamento adequado.
FONTE:
http://www.pnud.org.br/pobreza_desigualdade/reportagens/index.php?id01=1169&lay=pde