Cientistas unem esforços para decifrar achados arqueológicos


Etnóloga que estuda a tecnologia cerâmica dos índios Asurini do Xingu conta com o auxílio de um pesquisador nucelar para caraterizar, por meio de análises químicas, a origem das matérias primas usadas nos artefatos

Um estudo conjunto, que une arqueometria e etnografia, exemplifica os novos rumos que vêm tomando as pesquisas em arqueologia no Brasil. Na região do Xingu, a etnóloga Fabíola Andréa Silva, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, estuda há oito anos a tecnologia cerâmica dos índios Asurini. Com o auxílio do pesquisador nuclear Casimiro Sepúlveda Munita, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), que aplicou técnicas nucleares, foi possível determinar as fontes da matéria-prima (argila) utilizadas na produção dos artefatos cerâmicos.

"Neste trabalho, especificamente, estudamos amostras de cerâmicas e as argilas provenientes de dois depósitos localizados na área Asurini. O importante é que pudemos caracterizar, cientificamente e com exatidão, a origem da argila empregada na elaboração de cada amostra", conta Fabíola. Isso foi possível, segundo a pesquisadora, graças a uma série de análises realizadas no IPEN, pelo professor Munita, onde foi feita a caracterização química das cerâmicas e das argilas.

"Analisamos quimicamente as amostras dos dois depósitos de argila e comparamos com os valores encontrados nas cerâmicas. Sabíamos que a matéria-prima usada seria de um ou de outro", explica Munita. "Mas a exatidão dos resultados mostrou que o método pode ser utilizado, inclusive, quando não se tem qualquer conhecimento da origem do material", complementa.

Fabíola cita como exemplo o caso de um sítio arqueológico com material cerâmico cujas fontes de matéria-prima sejam desconhecidas. "Realizando análises químicas das amostras de cerâmica arqueológica e de depósitos argilosos localizados na área de inserção do sítio, podemos alcançar um conjunto de dados que, posteriormente, podem ser comparados e auxiliar na definição das fontes de matéria-prima", explica. Ela acredita que este estudo incentiva e mostra os resultados positivos da colaboração entre pesquisadores de áreas distintas. "Juntamente com o arqueólogo Eduardo Góes Neves, também do MAE, estamos formando novos grupos de pesquisa para estender este procedimento a outros estudos arqueológicos e etnográficos", lembra.

As análises químicas realizadas dos materiais foram realizadas no reator do IPEN de São Paulo. Com base nos materiais fornecidos por Fabíola, Munita montou uma base de dados com as características químicas. "Utilizando métodos estatísticos, pudemos comparar e determinar a fonte da matéria-prima". De acordo com o pesquisador, foi possível determinar quimicamente o que os índios fazem naturalmente. "Os asurini conhecem a argila ideal para suas cerâmicas de acordo com a cor e a textura da argila", conta.

Últimos ceramistas
Os Asurini, segundo Fabíola, são um dos poucos grupos indígenas que ainda fazem cerâmica no Brasil. "Atualmente são 115 índios. Na década de 50 chegaram a apenas 52, devido às doenças adquiridas do contato com os brancos", informa. Esta população, cuja língua, a Asurini, pertence à família lingüística Tupi-Guarani, vive numa única aldeia localizada à margem direita do rio Xingu.

A cerâmica produzida na aldeia é utilizada para processar, transportar e armazenar água e alimentos. Em geral, os artefatos são decorados com desenhos geométricos.

Durante oito anos, Fabíola realizou visitas à aldeia, onde coletou as amostras das cerâmicas lá produzidas e, desde 2001, passou a trabalhar em conjunto com o professor Munita.

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FONTE:
http://www.usp.br/agen/repgs/2005/pags/087.htm


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