Projeto
no sul da Bahia incentiva a produção do
doce nas fazendas de cacau para fortalecer comunidades
e preservar a Mata Atlântica
MARÍLIA
JUSTE
da PrimaPagina
Produzir chocolate nas fazendas de cacau pode mudar a
vida das pessoas que vivem na maior região de cultivo
da planta do país, proteger a Mata Atlântica
e, ao mesmo tempo, impulsionar as vendas do doce. Essa
é a aposta de um projeto liderado pela organização
não-governamental UMA (Universidade Livre da Mata
Atlântica), que quer levar a fabricação
do chocolate para dentro das fazendas de cultivo de cacau.
A medida, aparentemente simples, aumentaria a renda da
população e diminuiria a necessidade de
explorar a floresta, segundo o diretor-geral da UMA, Eduardo
Athayde.
Com a renda extra, não seria necessária
— ou seria menos comum — a exploração de
recursos das reservas de Mata Atlântica dentro das
fazendas. Isso ainda poderia gerar renda de outra maneira:
por meio do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo
de Quioto, pois contribui para a recuperação
do carbono liberado na atmosfera. E a venda de chocolate
com certificação de proteção
ambiental ainda estimularia, segundo Athayde, o consumo
do produto.
O mercado mundial de chocolate movimenta US$ 60 bilhões.
O Brasil tem 5% de participação, e o sul
da Bahia é responsável por 85% de toda a
produção de cacau brasileira. Ao mesmo tempo,
essa é a região que concentra o maior número
de espécies vegetais de Mata Atlântica. Segundo
um trabalho do Jardim Botânico de Nova York, há
456 espécies diferentes de plantas por hectare
na área. “É um número gigantesco
se você vir que nas florestas dos Estados Unidos
e do Canadá a média é de 20, 25 espécies
por hectare”, compara Athayde.
Para unir esse potencial para a produção
de chocolate com a preservação da biodiversidade,
a UMA criou o projeto Fazenda de Chocolate há seis
anos. O principal objetivo é mostrar às
fazendas de cultivo de cacau que o chocolate pode ser
produzido ali mesmo, em pequena escala. “O quilo do cacau
é vendido a cerca de R$ 3. O chocolate caseiro,
a R$ 80. Essa diferença pode mudar toda uma comunidade”,
argumenta Athayde.
Além de gerar mais dinheiro, agregando valor ao
cacau, a produção de chocolate também
criaria emprego e renda nas fazendas, com impacto positivo
nos pequenos municípios do sul da Bahia. Tudo isso,
segundo Athayde, diminui a necessidade de se explorar
a Mata. “As pessoas só entram na floresta para
tirar meios de sustento. Se elas tiverem como sobreviver
sem isso, elas não vão derrubar a mata”,
explica.
Nos últimos seis anos o projeto esteve concentrado
em fazer estudos que mostraram que a empreitada não
só era possível, como traria grandes benefícios
para a região. Agora, a iniciativa entra em sua
segunda fase, com um trabalho piloto de produção
de chocolate na Fazenda de Camacã, no município
baiano de Buerarema.
Camacã sediará também a “Universidade
do Chocolate”, que vai ensinar os produtores de cacau
da região a fabricarem o chocolate caseiro. Ali,
eles aprenderão a fazer equipamentos e processar
os doces. Também serão ensinados outros
negócios que podem ser desenvolvidos nas fazendas,
explica Athayde. Entre as oportunidades, estão
o cultivo de flores nativas da Mata Atlântica e
de cogumelos, além da apicultura.
Athayde defende que um chocolate com certificação
de proteção ambiental é mais bem
vindo pelos consumidores que um chocolate normal. “Quando
você vende chocolate para um consumidor conscientizado,
você não vende só chocolate. Você
vende a idéia da conservação de uma
área do mundo. Você não vende apenas
o produto, mas um conceito, o processo por trás
dele”, afirma.
Para atrair atenção para o trabalho, o projeto
foi até o exterior. Em Turim, na Itália,
a UMA montou um processo de produção de
chocolate em praça pública durante a feira
do setor no país, a Chocolato. E em outubro, vai
até o Salão do Chocolate, em Paris.
A Universidade Livre da Mata Atlântica representa
no Brasil o World Watch Institute, uma entidade internacional
de promoção do desenvolvimento sustentável.
O PNUD oferece apoio à iniciativa da Fazenda de
Chocolate, pois ela se insere nas metas do sétimo
dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que
visa incentivar práticas ambientalmente sustentáveis
no mundo.
Fonte:
http://www.pnud.org.br/meio_ambiente/reportagens/index.php?id01=1455&lay=mam