Idéia
é pesquisar espécies da região para
criar novos medicamentos; projeto inclui apoio médico
e cultural
Salvador
Nogueira escreve para a "Folha de SP":
O
Instituto Butantan, de São Paulo, planeja a instalação
de um posto avançado na Amazônia.
O
local exato ainda não está estabelecido,
mas deve ser nas cercanias de Santarém, no Pará,
com o objetivo de atuar principalmente na área
da Flona (Floresta Nacional) do Tapajós, no norte
do Estado.
Com
uma base avançada instalada na região amazônica,
pesquisadores do instituto terão acesso mais fácil
à biodiversidade da região para seus estudos.
Em princípio, serão eles os principais usuários
das instalações.
Farão
viagens ao local em esquema de rotação,
com o objetivo de coletar espécimes e recolher
dados, para então analisá-los com mais detalhes
em SP, onde a infra-estrutura é adequada.
Mas
também existe o objetivo de formar pessoal local.
"Esse projeto, na verdade, nasceu de uma viagem turística
que eu fiz à região, em 2004", conta
Otávio Mercadante, diretor do Butantan.
Segundo
ele, a região é uma das mais afetadas no
país por acidentes ofídicos, ou seja, por
vítimas de picadas de cobra. "É uma
região em que existem os quatro principais grupos
de cobras venenosas [surucucu, coral verdadeira, jararaca
e cascavel]", diz.
Com
isso, a presença mais consistente de pessoal do
Butantan, com uma base avançada, pode ser útil.
Desde
já Mercadante esclarece que a idéia não
é duplicar esforços com o hospital local,
ou seja, construir e equipar outra unidade para atendimento
médico. O objetivo é somar esforços,
prestando consultoria na instalação já
existente.
"Vai
haver sempre um médico do Butantan lá",
diz o diretor do instituto paulista.
No
campo de pesquisa, duas metas são prioritárias.
A primeira é realizar bioprospecção,
ou seja, coletar espécimes desconhecidos ou pouco
estudados e especular sobre possíveis aplicações
de moléculas obtidas a partir do organismo de animais
peçonhentos. Muitos remédios surgiram assim.
A
base também será importante para fazer um
monitoramento mais próximo da biodiversidade e
das espécies nativas -que sofrem pressão
ambiental cada vez mais intensa, por verem seus nichos
ocupados pelo avanço da soja e da pecuária
em territórios da Amazônia desmatados para
esses fins.
Finalmente,
o projeto também terá uma vertente cultural,
ecoando o papel da sede do Butantan em SP. Ao redor da
base serão construídos um parque e um museu,
em que serão expostas as espécies típicas
da fauna local.
Apesar
de a princípio soar estranho um instituto do Estado
de São Paulo montar uma base em outro Estado, não
é uma novidade. "A USP, por exemplo, tem bases
assim, então há um precedente", afirma
Mercadante.
Para
agilizar a condução do projeto, o Butantan
formou uma parceria com a Amabrasil, uma Oscip (Organização
da Sociedade Civil de Interesse Público), que será
a instituição responsável pela captação
de recursos com fundações e com a iniciativa
privada.
O
Butantan já tem um detalhamento do projeto, cuja
principal pendência no momento é a escolha
de um local.
O
custo estimado para a montagem da base é de cerca
de R$ 9 milhões, dos quais cerca de R$ 500 mil
viriam do Butantan, na forma da compra de equipamentos
de pesquisa.
O
resto seria arrecadado pela Amabrasil. O custo anual de
manutenção ficaria ao redor de R$ 3,4 milhões.
A
oficialização do projeto, bem como a decisão
sobre o local de instalação da base, deve
acontecer nas próximas semanas.
Fonte:
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=32119