Proposta
do governo visa conceder direito de uso de áreas
públicas de floresta à iniciativa privada;
oposição e ambientalistas criticam.
MARÍLIA
JUSTE
da PrimaPagina
Um
projeto de lei do governo federal, já aprovado
na Câmara dos Deputados, pretende transferir para
o setor privado a gestão de parte das áreas
públicas da Floresta Amazônica, num total
de 13 milhões de hectares — uma extensão
maior que a de Estados como Pernambuco, Paraíba,
Rio de Janeiro e Santa Catarina e também superior
à de países como Portugal e Áustria.
Polêmica, a proposta ainda precisa passar pelo Senado
e será debatida na Conferência Nacional de
Meio Ambiente, em Brasília, entre 10 e 13 de dezembro.
Precedida de conferências regionais, em Estados
e municípios, essa reunião visa discutir
as diretrizes da Política Nacional de Meio Ambiente.
O PNUD apóia a conferência por meio de seu
projeto de Apoio às Políticas Públicas
na Área Ambiental.
A concessão de áreas públicas da
Amazônia à iniciativa privada, segundo o
Ministério do Meio Ambiente, facilitaria a fiscalização
e a proteção dessas áreas e, ao mesmo
tempo, permitiria que elas gerassem recursos para o governo.
No entanto, o projeto de lei de Gestão de Florestas
Públicas (número 4.776/2005) foi recebido
com críticas pela oposição, por ambientalistas
e por funcionários do IBAMA (Instituto Brasileiro
de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis),
que afirmam que os riscos ao meio ambiente são
muito grandes e que ela enfraquece o instituto.
O Ministério do Meio Ambiente observa que mais
da metade da área de florestas brasileiras pertence
ao governo —federal, estadual ou municipal — e que as
controlar é uma tarefa cada vez mais difícil.
“O Brasil tem uma vocação de exploração
florestal indiscutível e cada vez mais pessoas
querem aproveitar isso. Em um país com uma extensão
tão grande, é difícil controlar se
as terras do governo não estão sendo usadas
indevidamente”, afirma a assessora técnica do Programa
Nacional de Florestas, Roberta Del Giudice.
Três tipos de exploração
A estratégia do governo é legalizar pedaços
de floresta para que possam ser exploradas de maneira
controlada. Isso, argumenta o ministério, desencorajaria
a retirada ilegal de madeira e contribuiria para a proteção
da mata, já que apenas uma pequena porcentagem
das árvores poderá ser retirada nos planos
de manejo.
As florestas públicas, segundo o projeto de lei,
serão divididas em lotes, que poderão ser
explorados de três maneiras diferentes: como unidades
públicas de conservação que permitem
a exploração; para o uso de comunidades
que vivem nesses locais, como assentados da reforma agrária,
ribeirinhos e quilombolas; como concessões florestais
pagas, obtidas por empresas privadas através de
licitações públicas. Para essas concessões
de uso sustentável, o projeto de lei reserva 3%
das áreas públicas de Floresta Amazônica,
ou 130 mil km2.
Essa última parte é a grande novidade do
texto e um dos pontos mais polêmicos. “A maior parte
do projeto de lei trata dessas concessões, porque
não havia nada na legislação brasileira
como isso antes”, diz Roberta. Pelo projeto, qualquer
empresa instalada no país, nacional ou não,
pode concorrer ao uso das florestas públicas. A
companhia que apresentar a proposta mais interessante,
do ponto de vista econômico e ambiental, pode explorar
parte da área de concessão, desde que garanta
a proteção do restante.
Por “exploração” entende-se o uso de recursos
florestais madeireiros e não-madeireiros e também
o oferecimento de serviços ambientais, como passeios
turísticos. As empresas não poderiam, no
entanto, fazer pesquisas genéticas com as plantas
locais ou explorar minérios e qualquer recurso
hídrico. Os lotes de concessão devem ser
limitados e uma empresa não poderá ficar
com mais do que um certo número deles, ainda não
definido. O prazo para as concessões é de
até 40 anos, desde que as companhias sejam aprovadas
nas revisões de contrato que estão programadas
para acontecer de cinco em cinco anos. “É um modelo
que já funciona em muitos outros países”,
argumenta a assessora do Programa Nacional de Florestas.
Críticas
O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP),
um dos principais críticos do projeto no Congresso,
discorda. “Todos os lugares do mundo que realizam algo
do tipo o fazem em áreas pequenas, controladas,
totalmente cercadas, com apenas um portão de entrada
e saída, onde fica um posto de controle do governo”,
declara. “Aqui, eles estão falando de áreas
imensas, do tamanho de países, onde a possibilidade
de quem receber essa concessão poder fazer o que
bem entende é grande. Eles podem fazer pesquisa
genética, derrubar mais árvores do que o
contrato estipula e o governo jamais ficar sabendo. É
absurdo”, critica.
O governo rebate a crítica e afirma que as áreas
serão controladas por um novo órgão
federal, o Serviço Florestal Brasileiro, que ficaria
responsável por promover o desenvolvimento sustentável.
Longe de acalmar os ânimos de seus opositores, no
entanto, a criação de um novo órgão
acirra o debate. “O governo vai criar não um trem,
mas um transatlântico da alegria de cargos públicos
com esse órgão, que não tem a menor
razão de existir, a não ser esvaziar a função
do IBAMA”, critica o deputado. “Se o governo tem condições
de contratar um exército de fiscais para esse serviço,
por que não cria para fortalecer o IBAMA?”, questiona.
Roberta Del Giudice, no entanto, diz que a função
do Serviço Florestal Brasileiro não será
e não poderá ser a mesma que a exercida
pelo IBAMA. “A relação entre os dois seria
a mesma que existe hoje, na mineração, entre
o IBAMA e o DNPM [Departamento Nacional de Produção
Mineral]. O DNPM dá a concessão de uso da
área e o IBAMA cuida dos aspectos ambientais. No
caso das concessões em áreas de floresta,
o Serviço Florestal dá a concessão,
faz o contrato e fiscaliza o cumprimento desse contrato,
e o IBAMA cuida da licitação ambiental,
dos estudos de impacto”, argumenta a assessora. “As duas
funções não podem ser exercidas pelo
mesmo órgão, porque são interesses
conflitantes. O Serviço cuida do controle econômico
e o IBAMA, do ambiental”.
A seleção das empresas que podem explorar
os lotes também é outro ponto de discussão
acalorada. Para os críticos, a falta de uma exigência
contra a inscrição de empresas de capital
estrangeiro nos processos de licitação dá
margem para a internacionalização da Amazônia.
“Essa história da Amazônia acabar no poder
de estrangeiros sempre foi mais fantasia do que fato,
mas esse projeto de lei abre um caminho imenso para que
isso não apenas se torne realidade, mas uma realidade
legal, com a conivência do governo brasileiro”,
aponta Mendes Thame.
O Ministério do Meio Ambiente, no entanto, afirma
que o projeto de lei faz exatamente o contrário:
protege a Amazônia dos interesses externos. “Uma
área de floresta pública que não
conseguimos fiscalizar e não estiver sendo utilizada
de forma produtiva pode facilmente ser passada para uma
titulação privada. Moradores dali podem
requerer o registro de propriedade e depois, por um preço
muitas vezes banal, vender as terras para uma empresa
estrangeira que poderá fazer o que bem entende
no local. É um modo muito mais simples de se internacionalizar
a área”, afirma Roberta Del Giudice. “Com o processo
de concessão, nós controlamos a área,
damos um uso a ela e não perdemos a propriedade.
A empresa usa, mas a terra é do governo e ela não
poderá ficar ali para sempre”.
Fonte:
http://www.pnud.org.br/meio_ambiente/reportagens/index.php?id01=1653&lay=mam