Maurício
Thuswohl
Provável estopim de uma nova crise política
nas áreas ambiental e energética do governo
Lula, a construção da usina nuclear Angra
3, em Angra dos Reis (Rio de Janeiro), está colocando
mais uma vez os movimentos sociais contra o Palácio
do Planalto. Desde que o ministro-chefe da Casa Civil,
José Dirceu, decidiu impedir que o Conselho Nacional
de Política Energética (CNPE) aprovasse
a recomendação dos ministérios das
Minas e Energia (MME) e do Meio Ambiente (MMA) pela não
construção da usina, as organizações
ambientalistas já se preparam para o enfrentamento
com o governo.
O Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais
para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS) lembrou
a passagem do décimo-nono aniversário do
acidente com a usina nuclear de Chernobyl (Ucrânia)
- ocorrido em 26 de abril de 1986 - para soltar uma nota
na qual critica duramente Dirceu e o atual processo de
decisão sobre a construção de Angra
3. O Greenpeace também aproveitou a data para divulgar
um relatório em que mostra os riscos causados pelas
usinas nucleares em todo o mundo. O relatório,
divulgado simultaneamente em vários países,
traz menção específica ao caso do
Brasil e condena a construção de Angra 3.
A nota do FBOMS afirma que “ao intervir e deslegitimar
um processo decisório sobre o projeto da usina
nuclear de Angra 3, que vinha há anos sendo desenrolado
no CNPE, o ministro José Dirceu deflagrou a falácia
da democracia do governo Lula no trato das questões-chave
da política nacional, como é o caso da energia”.
O documento critica, sobretudo, a postura do ministro
de desconsiderar estudos feitos por dois ministérios
em nome de não reveladas razões estratégicas:
“Ao alegar razões estratégicas, José
Dirceu exclui de um debate que deve ser público,
tanto os especialistas (técnicos nas questões
nucleares, de energia e de meio ambiente), quanto a população
em geral. Alguns estados brasileiros possuem legislação
específica, seja na proibição de
instalação de usinas nucleares, seja na
exigência de consulta plebiscitária para
a questão”, diz a nota.
O gesto de Dirceu que exasperou os ambientalistas aconteceu
no dia 13 de abril, durante a reunião do CNPE que
definiria a recomendação pela construção
ou não de Angra 3. O conselho iria dar seu parecer
baseado em estudos realizados por três ministérios.
Primeiro a votar, o MME se declarou contrário à
construção da usina, tendo como principal
argumento o fato de não ser essa a alternativa
energética mais econômica. Em seguida, o
Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT)
apresentou parecer favorável à Angra 3,
ressaltando a importância que teria a usina para
o desenvolvimento da tecnologia nuclear brasileira.
Terceiro a votar, o MMA também se declarou contrário
à construção da usina, destacando
os riscos ambientais e à saúde humana inerentes
à atividade nuclear. Foi nesse momento, percebendo
que a coisa se encaminhava para que se fizesse ao presidente
Luiz Inácio Lula da Silva uma recomendação
contra Angra 3, que a Casa Civil pediu vista no processo
de apreciação do tema. Após chamar
os relatórios do MME e do MMA de “inconsistentes”,
Dirceu lamentou que o CNPE rumasse para a reprovação
da construção: “A minha opinião é
que Angra 3 deve ser feita já, imediatamente. Politicamente,
estrategicamente, Angra 3 tem de ser feita. Vou expressar
minha opinião ao presidente Lula”, disse o ministro.
População
é contra usina nuclear
A nota do FBOMS lembra que “uma pesquisa de opinião
realizada em 2004 pelo Instituto de Estudos da Religião
(Iser), em sete capitais do país, revelou a posição
contrária de mais de 80% da população
brasileira quanto à construção de
usinas nucleares no Brasil”. O documento cita ainda os
três principais motivos que estariam colocando o
país “na contramão da história” se
aprovar a construção de Angra 3: 1) usinas
nucleares são caras; 2) usinas nucleares são
inseguras e ultrapassadas; 3) usinas nucleares são
sujas e o lixo nuclear precisa ficar sob vigilância
por milhares de anos.
Por sua vez, o relatório publicado pelo Greenpeace
tem como objetivo alertar a população brasileira
sobre “os enormes riscos e desvantagens que a construção
de Angra 3 traria ao país”. O documento lamenta
que “apesar do adiamento por cinco anos da construção
de Angra 3 ter sido discutido na reunião do CNPE,
ainda existam muitos integrantes do governo Lula defendendo
o projeto com unhas e dentes”. O texto do Greenpeace também
cita nominalmente José Dirceu, além do ministro
da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos.
Coordenador da Campanha Anti-Nuclear do Greenpeace no
Brasil, Sérgio Dialetachi afirma que estudos comprovam
que as usinas Angra 1 e Angra 2 “são incapazes
de produzir mais do que 2% da eletricidade gerada no Brasil”.
O ambientalista afirma que a retomada do programa nuclear
brasileiro representaria um retrocesso, já que
diversos países - como Alemanha, Espanha e Suécia
- estão repensando suas políticas energéticas
e apostando em fontes renováveis de energia: “Investir
numa usina nuclear no Brasil vai na contramão do
bom senso e uso apropriado de recursos públicos.
Usinas nucleares são inseguras, caras, ultrapassadas
e sujas”, disse.
Opção cara
As afirmações dos ambientalistas sobre a
inviabilidade econômica e desvantagem na relação
custo-benefício da construção de
Angra 3 são verdadeiras. Segundo dados do próprio
governo federal, para construir a usina serão necessários
cerca de US$ 1,9 bilhão. O ativo de Angra 3, segundo
uma auditoria feita pela empresa Iberdrola a pedido do
MME, está avaliado em US$ 750 milhões, enquanto
o custo anual somente para a estocagem e manutenção
dos equipamentos - alguns armazenados há mais de
20 anos - ultrapassa os US$ 20 milhões. Até
agora, já foram investidos na usina cerca de US$
1,2 bilhão.
A construção da usina interessa muito, no
entanto, a setores militares e a empresas de tecnologia
nuclear que se beneficiariam da expansão do Programa
Nuclear Brasileiro. O país já conta com
a sexta maior reserva de urânio do mundo, e essa
posição deve melhorar ainda mais, pois somente
25% do território nacional foi mapeado até
hoje. Se confirmado esse potencial, e com Angra 3 funcionando,
o Brasil poderia atender a toda a demanda interna do produto.
Atualmente, cerca de 60% do urânio utilizado em
Angra 1 e Angra 2 é importado.
“Estratégico para quem?”
Há quem sonhe ainda mais alto. Os militares que
elaboraram o Programa Nuclear Brasileiro almejam, além
da finalização de Angra 3, a construção
de outras quatro usinas nucleares no país, duas
até 2010 e duas até 2016. Os militares planejam
construir essas novas usinas nas regiões Norte
e Nordeste, para desespero dos ambientalistas. Também
está prevista no programa a construção
de pequenos reatores, com capacidade de 40 MW a 60 MW
para dessalinização de água salobra
na região do Semi-Árido. Cereja sobre o
bolo dos militares, está também prevista
no programa a construção do submarino nuclear
brasileiro, até 2018.
Lembrando as enormes potencialidades e a eficiência
energética do uso de novas fontes renováveis
de energia - como a biomassa, a solar e a eólica
- no alcance dos interesses da população
e da universalização dos serviços
de energia, a nota do FBOMS resume bem a questão:
“Ao contrário dos governantes, a sociedade evoluiu
e não se permite mais adotar a mesma postura imposta
nos tempos da ditadura, a qual seria de se calar frente
ao autoritarismo nuclear surpreendentemente adotado pela
Casa Civil, e supostamente justificado na defesa de interesses
‘estratégicos’. De quem?”, questionam os ambientalistas.
FONTE:
http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.asp?id=3041&cd_editoria=002&coluna=reportagens