Adubo e veneno contaminam a água do subsolo


Uma pesquisa da Embrapa mostra como o adubo e o veneno usados na agricultura contaminam a água do subsolo.

Os produtos químicos usados no controle de doenças e pragas da lavoura são quase sempre líquidos.

Em alguns casos eles podem vir misturados na água da irrigação ou espalhados diretamente no solo, como os herbicidas. O que sobra escorre para os lagos e rios, causando poluição.

Mas existe uma outra possibilidade de contaminação das águas que a gente nem nota: é a infiltração desses produtos no solo. Isso pode acontecer também com os adubos solúveis em água.

Essa é a preocupação dos pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo de Sete Lagoas em Minas Gerais. Eles dividiram uma lavoura de milho, cultivada com o plantio direto, em nove piquetes. Em cada um dos pontos foi instalado um medidor de contaminação subterrânea, que eles chamam de lisímetro.

Antes do plantio eles cavaram um buraco de dois metros de largura por 3,6 metros de comprimento e com dois metros de profundidade. O buraco foi revestido com uma lona plástica. No fundo foram colocadas: uma camada de areia grossa, uma de areia fina e outra de cascalho. Sobrou um metro e meio preenchido novamente com a terra que saiu do buraco.

No fundo um cano capta a água que se infiltra no solo e deposita em tambores instalados num porão na parte mais baixa do terreno.

Onde é instalado o lisímetro se vê pouca coisa, apenas a borda da lona que reveste o buraco. Para ver o local onde fica armazenada a água coletada dos lisímetros, é preciso entrar dentro de uma caixa. O reservatório fica a quatro metros de profundidade e a água chega até lá pela gravidade.

Cada tambor corresponde a um dos nove lisímetros instalados na lavoura. Por isso são identificados com a mesma numeração que existe fora. Para não misturar as amostras, os vidrinhos também são etiquetados com a numeração do tambor onde foi feita a coleta.

A coleta é feita diariamente porque a infiltração de água pelas raízes não cessa. O que a planta não extrai e o que o solo não armazena, cai no reservatório. A água pode parecer limpa, mas, às vezes, engana. Muitos agroquímicos utilizados na lavoura podem contaminar a água.

Os pesquisadores estão verificando a presença de resíduos de nitrato, substância que faz parte da abudação e que, quando ingerida em grandes quantidades, pode provocar câncer. Também um princípio ativo do herbicida usado no milho que se chama atrazine.

“Os resultados são preocupantes. No caso do nitrato, nós constatamos concentrações de 40% acima do limite tolerado para água potável, que é de dez miligramas por litro. No caso do herbicida, as concentrações foram de até 40 vezes maior que o limite tolerado para água potável. A ingestão dessa água pode causar problemas de reprodução nos seres humanos, problemas cardiovasculares e outros problemas que estão sendo estudados”, explica o agrônomo da Embrapa Camilo Andrade.

Em volta da lavoura de milho da Embrapa, onde foram feitos os testes, essas substâncias ainda estão retidas no subsolo. As análises mostram que nem o nitrato e nem o atrazine contaminaram o lençol freático da região. Mas, para Camilo, isso é só uma questão de tempo.

“O problema pode estar sendo simplesmente adiado. O solo é um reservatório. Ele é uma esponja que funciona como filtro e esse filtro está se enchendo. Ele pode estar simplesmente adiando para as gerações futuras o problema da contaminação porque isso um dia vai saturar e vai acabar infiltrando lá no fundo. Se a gente continuar a usar agroquímicos de forma descontrolada, não fazendo manejo adequado, é possível que no futuro nós tenhamos problemas sérios de contaminação das águas subterrâneas”, diz o agrônomo.

O problema é grave. A despoluição de um rio pode levar meses ou anos. Já as águas subterrâneas, quando contaminadas, precisam de séculos para ficar despoluída.

FONTE: Globo Rural online


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