Segundo
categoria, proposta da prefeitura estabelece que a coleta
de material reciclável nas ruas passe a ser feita
por empreiteiras, com a utilização de caminhões.
Catadores temem perda de empregos, já que 20 mil
pessoas vivem
dessa atividade na capital paulista.
Fernanda
Sucupira
Carta Maior ina
São Paulo - Uma grave ameaça rondava a vida
dos catadores de material reciclável da cidade
de São Paulo. Representantes da prefeitura haviam
comunicado no início do mês passado que,
até o fim de setembro, os catadores deveriam deixar
de trabalhar no centro expandido da capital. Em reunião
com Andrea Matarazzo, secretário municipal de Serviços
e Obras e subprefeito da Sé, no início do
mês (dia 6), obtiveram uma vitória parcial.
Conseguiram não só a garantia de que esses
trabalhadores não serão impedidos de recolher
o material no centro, como também a formação
de uma comissão com representantes da categoria
e da prefeitura. Essa comissão se reunirá
pela primeira vez nesta quinta (15), para discutir alternativas
à proposta que vem sendo apresentada pela administração
municipal. Apesar dos avanços obtidos no diálogo
com a prefeitura, muitos problemas e temores em relação
a possíveis ações do poder público
ainda tiram o sono desses trabalhadores.
De acordo com os catadores, pela proposta da prefeitura,
a coleta de material reciclável nas ruas passaria
a ser feita por empreiteiras, com a utilização
de caminhões. Esse material seria levado para centros
de triagem, onde cerca de 2,8 mil catadores fariam a separação
do que poderia ser reaproveitado, e a comercialização
ficaria por conta da prefeitura. Os catadores apontam
diversos problemas nesse projeto. O maior deles é
que se limita a apenas uma pequena parte do total de indivíduos
que atuam hoje na cidade, número que estimam chegar
a 20 mil, deixando a maioria desamparada. “E como ficam
os outros catadores, circulando com a carroça vazia?”,
pergunta Carlos Antonio dos Reis, conhecido como Carlão,
da equipe de articulação estadual do Movimento
Nacional dos Catadores de Material Reciclável (MNCR).
Ainda que os trabalhadores não sejam expulsos do
centro da cidade, eles acreditam que a atuação
das empreiteiras pode deixá-los sem material disponível
para a coleta. “Eles querem pegar uma minoria e deixar
os outros excluídos. As empreiteiras vêm
com toda a tecnologia, dizem na mídia para a população
entregar o material da coleta seletiva para eles, e quando
o catador passar, não vai ter mais nada. Só
circular com a carroça não enche barriga”,
completa Carlão. Eles também temem que dessa
forma os caminhões recolham todo tipo de lixo e
levem para os centros de triagem, já que as empreiteiras
ganham por tonelada coletada e não por quilograma
de material reciclado. O Movimento Nacional dos Catadores
de Material Reciclável quer que esses grandes contratos
feitos com as empreiteiras possam ser discutidos antes
com os trabalhadores.
Além disso, eles questionam a própria entrada
das empreiteiras no setor. Elas passarão a ser
remuneradas por uma atividade que é de responsabilidade
do poder público, mas que há décadas
vem sendo realizada pelos catadores na cidade de São
Paulo sem nenhum reconhecimento por parte dos governantes
nem da sociedade. O investimento da prefeitura, segundo
os trabalhadores, deveria ser feito nas mais de cinqüenta
cooperativas organizadas pelos catadores, para que elas
aprimorem o serviço que fazem atualmente. “Nós
fazemos o trabalho da prefeitura de limpeza da cidade
e não ganhamos nada. Prestamos um serviço
à sociedade, de resgatar as pessoas em situação
de risco, sem perspectivas de vida, e transformá-las
em cidadãs, num trabalho de igual para igual. E
quem ganha agora não é o catador, que está
nisso há muito tempo, mas as empreiteiras, que
têm a tecnologia e viram que esse é um negócio
grande”, denuncia Carlão.
O modelo proposto pela prefeitura também é
acusado de ferir a autonomia dos catadores de material
reciclável, que, atualmente organizados em cooperativas,
passariam a ser empregados da administração
municipal. Os catadores se autodefinem como “empreendedores
sociais e solidários”, pioneiros nesse ramo, e
querem continuar com o sistema de autogestão desenvolvido
até hoje.
Outra ação prevista pela prefeitura é
o fechamento dos depósitos irregulares – aqueles
que apresentam riscos para a vizinhança ou que
não estão legalizados na prefeitura - para
onde muitos dos catadores que não estão
organizados em cooperativas vendem seus materiais. O MNCR
não é contrário a essa medida em
especial, mas considera que não adianta fechar
esses locais se não forem dadas alternativas aos
catadores. Eles defendem que a prefeitura ceda espaços
públicos para que esses trabalhadores possam se
organizar.
As cooperativas que se encontram em áreas da prefeitura
e debaixo de viadutos também estão sendo
ameaçadas de serem expulsas desses lugares e enviadas
para regiões periféricas da cidade. Esse
é o caso da Cooperativa dos Catadores Autônomos
de Papel, Aparas e Materiais Reaproveitáveis (Coopamare),
que há 16 anos atua sob o viaduto Paulo VI, na
Zona Oeste da capital. Na última quinta (8), a
cooperativa recebeu uma intimação da prefeitura
para que desocupasse em 24 horas a área municipal
ocupada irregularmente, sob pena de remoção
forçada. “Chegou essa intimação de
retirada, mas ninguém veio negociar nada com a
gente, nenhuma proposta foi apresentada. Queremos permanecer
no nosso local de trabalho, onde construímos nossa
vida. Já estamos integrados com a comunidade no
entorno, atendemos 10 mil famílias, e nunca tivemos
nenhum problema. Mas estamos dispostos a negociar, desde
que encontremos alternativas que não prejudiquem
a categoria”, explica Eduardo Ferreira de Paula, diretor
presidente da Coopamare, que integra a comissão
criada pelo secretário Matarazzo.
Os catadores denunciam ainda abusos por parte da prefeitura
de São Paulo, com relatos de violência, apreensão
e destruição dos carrinhos dos catadores,
e utilização de jatos de água contra
esses trabalhadores. O secretário Matarazzo afirmou
na reunião que não tem conhecimento dessas
ações violentas por parte dos funcionários
da prefeitura.
Todas essas medidas em relação aos catadores
– desde a ameaça de expulsão do centro,
passando pelas ações repressivas, fechamento
de depósitos, retirada das cooperativas de debaixo
dos viadutos, até a introdução das
empreiteiras na coleta - são vistas como formas
de enfraquecer o movimento e “revitalizar” a região
central. “A tática deles é nos levar para
a periferia e limpar a cidade para gringo ver. É
tirar a sujeira daqui e levar para debaixo do tapete,
mostrando só o que é bonito. Eles não
querem mostrar a importância do catador para o desenvolvimento
da sociedade e dele mesmo, gerando benefícios para
todos, como o trabalho e geração de renda
e a economia de energia”, afirma Carlão. O diretor
da Coopamare concorda com essa avaliação.
“A nova administração tem um plano de fazer
uma nova cidade. Por isso, começaram a exclusão
e repressão de catadores de material reciclável,
moradores de rua e sem-teto”, diz Eduardo Ferreira de
Paula.
A comissão formada na última semana, da
qual fazem parte representantes do Movimento de Catadores
de Materiais Recicláveis, do Comitê de Catadores
da Cidade de São Paulo, do Fórum Lixo e
Cidadania da Cidade de São Paulo e do Fórum
Recicla São Paulo, entre outros, irá se
reunir novamente com o secretário Matarazzo no
dia 15 de setembro para apresentar uma proposta de coleta
seletiva para a cidade que conte com a efetiva participação
dos catadores.
Para Elisabeth Grimberg, coordenadora de meio ambiente
do Instituto Polis e do Fórum Lixo e Cidadania
da Cidade de São Paulo, o governo tem que ser capaz
de fazer um levantamento desses trabalhadores para discutir
uma política pública que não deixe
ninguém de fora e seja construída com respeito
à visão deles. “A atuação
dos catadores beneficia a sociedade e o meio ambiente
já que esses trabalhadores contribuem para diminuir
a quantidade de material que vai para os aterros sanitários.
O problema é que eles não recebem nenhum
apoio. Eles já mostraram que sabem fazer as coisas
mesmo em condições precárias, sendo
explorados pelos depósitos e discriminados pela
sociedade. Até para tomar um cafezinho na padaria
eles enfrentam dificuldades”, diz.
Procurado pela Carta Maior desde quinta-feira (8), Andrea
Matarazzo, secretário municipal de Serviços
e Obras e subprefeito da Sé, não atendeu
à reportagem.
Fonte:
http://agenciacartamaior.uol.com.br/