Passada
a euforia inicial causada pelo anúncio de que análises
feitas por satélite indicam uma tendência
de redução de 50% no desmatamento da Amazônia,
algumas organizações que atuam em defesa
do meio ambiente já começam a alertar que
os problemas na região ainda existem em grande
quantidade e que ainda é cedo para comemorar. Apesar
de reconhecerem que a redução estimada pelo
Ministério do Meio Ambiente (MMA) - de 18.724 km2
entre agosto de 2003 e julho de 2004 para 9.106 km2 entre
agosto de 2004 e julho deste ano - é significativa,
os ambientalistas não deixam de denunciar problemas
como a falta de transparência na divulgação
dos dados sobre o desmatamento ou o sucateamento do Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis
(Ibama), entre outros.
Após
comemorar os dados divulgados no dia 26 de agosto pelas
ministras Marina Silva (Meio Ambiente) e Dilma Roussef
(Casa Civil), o WWF-Brasil soltou nota lembrando que a
“redução da especulação imobiliária
provocada pelo desaquecimento do mercado agrícola”
também é responsável pela diminuição
do índice de desmatamento na Amazônia: “Com
a queda de rentabilidade desse setor, a redução
do desmatamento é, infelizmente, menos resultado
das ações governamentais do que da atual
situação econômica”, diz o documento.
A ONG lembra também que o próprio ministro
da Agricultura, Roberto Rodrigues, já havia anunciado
que a queda de 36% no preço internacional da saca
de soja, aliada à queda do dólar em relação
ao real, teria provocado uma redução de
até 5% na área plantada com grãos
nas últimas safras.
A
direção do WWF-Brasil reconhece as iniciativas
do governo articuladas pelo Plano de Prevenção
e Controle do Desmatamento na Amazônia e cita os
“esforços para a criação de unidades
de conservação na Terra do Meio (Pará)
e no Sul do Amazonas”, mas acredita que estas iniciativas
governamentais sejam “apenas pontuais” e tenham influência
menor na redução das estimativas de desmatamento.
A organização critica o governo Lula por
não destinar as verbas necessárias para
o efetivo combate à derrubada de árvores
na região: “Enquanto o Ministério da Agricultura
convence o Ministério da Fazenda a rolar a dívida
dos agricultores a um custo de cerca de R$ 1,8 bilhão
para o governo, empresas florestais raramente conseguem
acessar linhas de crédito oficiais para realizar
projetos de manejo florestal sustentável”, lamenta
Mauro Armelin, que é coordenador de Políticas
Florestais do WWF-Brasil.
O
Greenpeace foi outra grande ONG ambientalista que saudou
o anúncio da redução da expectativa
de desmatamento na Amazônia, mas também fez
novas críticas ao governo Lula e ao MMA. O alvo
das críticas foi a situação precária
do Ibama e o anunciado esgotamento dos recursos previstos
no orçamento deste ano para as atividades de fiscalização
promovidas pelo instituto. Os parcos R$ 28 milhões
destinados a este fim em 2005 esgotaram-se em meados de
agosto e outros R$ 8 milhões previstos no orçamento
estão contingenciados e não podem ser tocados.
A
direção do Greenpeace alerta que 12 operações
de fiscalização em curso na Amazônia
dependem dos recursos do Ibama e devem ser prejudicadas
agora que a torneira secou: “Isso pode levar a um novo
aumento do desmatamento e da atividade madeireira ilegal
na região. A falta de recursos para o Ibama fiscalizar
é um dos componentes da ausência do governo
na região amazônica”, afirma Nilo D’Avila,
que recentemente coordenou uma expedição
do Greenpeace que cruzou de ponta a ponta a BR-163 (Cuiabá-Santarém).
FBOMS
também faz críticas
O
Ibama também foi alvo das críticas do Fórum
Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente
e o Desenvolvimento (FBOMS), rede que congrega mais de
500 entidades da sociedade civil. A direção
do Fórum enviou uma carta ao presidente do instituto,
Marcus Barros, cobrando maior acesso da sociedade civil
“às informações ambientais, à
participação nos processos de tomada de
decisão em matéria ambiental e de acesso
à Justiça para defender o meio ambiente”.
O FBOMS critica o Ibama por não respeitar a lei
federal 10.650/03, conhecida como Lei da Informação
Ambiental, e afirma que o instituto não disponibiliza
informações sobre suas atividades nem de
maneira virtual, em seu sítio na internet, nem
de maneira real, em suas sedes por todo o Brasil: “A conclusão,
portanto, é que, após quase dois anos da
promulgação da lei, o principal órgão
ambiental do Brasil simplesmente ignora sua existência”,
afirma a carta do FBOMS.
Em
15 de agosto, dez dias antes do anúncio da redução
da expectativa de desmatamento na Amazônia, o FBOMS
enviou outra carta, desta vez endereçada à
ministra Dilma Roussef, reclamando das ações
do governo na execução do Plano de Prevenção
e Controle do Desmatamento na Amazônia. O Fórum
lembra que o plano foi lançado pelo presidente
Luiz Inácio da Silva em março do ano passado
e reclama com Dilma dos poucos resultados apresentados
até agora: “Decorridos 17 meses de seu lançamento,
é possível afirmar que o plano, formulado
de acordo com uma estrutura que continha quatro componentes
- obras de infra-estrutura, ordenamento fundiário
e territorial, monitoramento e controle e fomento a atividades
sustentáveis - está sendo implementado de
forma tão limitada e parcial que acaba esvaziando
seu desenho e estratégia originais”, afirma a carta
enviada à ministra.
Dados
precisam ser confirmados
Um
dos pontos mais positivos da estimativa anunciada pelo
governo é a redução do desmatamento
nos três estados que, nos últimos anos, são
os campeões da derrubada de árvores: Mato
Grosso, Pará e Rondônia. A redução
estimada para o Mato Grosso é de 33% na área
desmatada, enquanto Rondônia deve apresentar redução
de 38%. O melhor resultado deve ser o do Pará,
com 81% de redução, sucesso atribuído
às operações do Exército no
estado após o assassinato da missionária
Dorothy Stang e à demarcação de novas
e extensas unidades de conservação. A mais
emblemática dessas unidades, a Estação
Ecológica da Terra do Meio, registrou um índice
de redução de 90%, caindo de 302 km2 de
área desmatada em 2004 para 29 km2 este ano.
Os dados apresentados pelo governo foram fornecidos pelo
Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo
Real (Deter) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(Inpe). Esse sistema, segundo o MMA, utiliza imagens de
dois satélites que passam todos os dias sobre a
Amazônia e detectam desmatamentos a partir de 25
hectares. A vantagem do Deter é que ele permite
um monitoramento quase em tempo real, facilitando o trabalho
da fiscalização e apontando alterações
no ritmo de desmatamento com mais rapidez. Esses dados,
no entanto, terão que ser confirmados no fim do
ano por outro sistema desenvolvido pelo Inpe, o Prodes,
que detecta desmatamentos a partir de seis hectares e
trará dados mais consolidados.
Fonte:
http://www.cidadania.org.br/conteudo.asp?conteudo_id=5286