Instituto vai montar biofábrica


Objetivo é produzir nematóides benéficos em larga escala para controlar pragas de lavouras e até de criações.

Além da pesquisa de Cláudia Dolinski, há outras iniciativas que tentam aproveitar os efeitos benéficos de algumas espécies de nematóides. O Instituto Biológico (IB), da Agência Paulista de Tecnologia, em parceria com a empresa Bio Controle Métodos de Controle de Pragas Ltda., tem planos para instalar a primeira biofábrica de nematóides do Brasil para o controle biológico de insetos nocivos às lavouras.

Segundo o pesquisador do Centro Experimental do IB (Ceib), em Campinas (SP), Luís Garrijó Leite, no centro já está funcionando uma incubadora para a produção de nematóides em larga escala.“ O objetivo é produzir bioinseticida à base desses vermes para o controle de insetos de solo que atacam raízes da cana, de mudas de citros, de plantas ornamentais e cogumelos em estufa”, diz Leite.

As pesquisas do IB utilizam o nematóide Steinernema, que ataca larvas de insetos em viveiros, além do nematóide nativo Heterorhabditis, que ataca larvas de besouros e mariposas no campo. Os pesquisadores já selecionaram uma coleção de nematóides benéficos, desenvolveram meios para cultivo em laboratório, além de técnicas de produção em grande escala e uma formulação de pó molhável à base de nematóides, que é misturada em água e pulverizada no campo e nos viveiros.

“Nos testes a campo, o nível de controle das pragas em geral ficou, na média, entre 60% e 70%, chegando, em alguns casos, a 90%”, diz Leite, do IB. Graças aos avanços, ele conta que o bioinseticida à base de nematóide deverá ser lançado em breve. “Ainda falta realizar ajustes de dosagem e definir a época de aplicação.” Atualmente, o IB já vende nematóides aos produtores de cogumelo shiitake para controlar a lagarta Opogona, que ataca as toras de eucalipto utilizadas como suporte no cultivo do cogumelo.

No Ceib, os experimentos com os nematóides estão avançados no controle de insetos da cana. Um dos focos da pesquisa é o controle da cigarrinha-da-raiz da cana (Mahanarva fimbriolata), que infesta mais de 300 mil hectares da cultura em São Paulo, podendo reduzir a produção de açúcar em até 40%. Nos testes campo, a redução da população do inseto tem variado de 50% a 70%, com o uso do Heterorhabditis.

Leite também realizou experimentos no controle do cascudinho (Alphitobius diaperinus) em galpões de aves. Ele calcula que cerca de 200 mil galpões de frango de corte estejam infestados com o inseto, que se reproduz sob os comedouros. “A ingestão dos insetos, no lugar da ração, afeta o desenvolvimento das aves e causa ferimentos no trato digestivo dos frangos, podendo ainda transmitir microrganismos.”O pesquisador informa que a aplicação do Heterorhabditis sob os comedouros, em Itatiba (SP), controlou 100% de larvas e 90% de adultos, 12 dias após a aplicação.

As moscas Fungus gnat, que atacam cogumelos e viveiros de mudas de citros, fumo e plantas ornamentais, também estão na mira da equipe do IB. “Estima-se que existam no País mais de 15 mil estufas com mudas de plantas, que podem estar infestadas.” O IB está avaliando o nematóide Heterorhabditis no controle da mosca, obtendo resultados ainda melhores se comparados com um nematóide importado dos EUA.

CIGARRA DO CAFÉ
O professor Alcides Moino Júnior, do Departamento de Entomologia da Universidade Federal de Lavras (UFV), também está à frente de uma pesquisa de uso de nematóides no controle de pragas subterrâneas do cafeeiro.O foco é a cochonilha da raiz do café. Os experimentos utilizam mudas de cafeeiro infestadas por cochonilhas plantadas em vasos e casas de vegetação. “Depois de produzir o nematóide, estamos trabalhando no isolamento desses vermes a partir de amostragem de solo”, conta.

Em Lavras, a multiplicação dos nematóides é feita em larvas da mariposa Galleria mellanella. “É fácil de ser multiplicada em laboratório e bastante suscetível a esses nematóides”, diz ele, que já tem oito populações de nematóides isoladas para as condições brasileiras. Ele acredita que a pesquisa será concluída no fim do próximo ano e informa que a tecnologia será transferida, por meio de parceria, visando à produção comercial do bioinseticida.?B.M.

SAIBA MAIS:
Ceib, tel. (0--11) 3252-2942; UFV, tel. (0--35) 3829-1748;
Universidade do Norte Fluminense, tel. (0--22) 2726-1658

Como agem os nematóides
CLASSE DOS VERMES: Considerados vermes do solo, os nematóides medem cerca de 1 milímetro de comprimento e são dotados de uma espécie de radar que detecta o gás carbônico liberado pelos hospedeiros. Existem mais de 20 mil espécies de nematóides, dos quais 20% são parasitas de plantas. Há, porém, os nematóides entomopatogênicos, parasitas de insetos, sendo 26 do gênero Steinernema e 7 do gênero Heterorhabditis. Os nematóides entomopatogênicos associam-se por simbiose com bactérias, invadem o corpo do inseto hospedeiro, liberando uma bactéria que causa a morte do inseto.

Conforme o pesquisador Luís Garrijó Leite, do Instituto Biológico, a bactéria multiplica-se rapidamente dentro do cadáver do inseto. Os nematóides alimentam- se, então, dessas bactérias e do material digerido por elas. “Terminado o alimento, milhares de nematóides deixam o cadáver na busca de novos hospedeiros”, diz.


FONTE:
http://www.biologico.sp.gov.br/NOTICIAS/controle_biologico_estadao.htm


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