Seminário internacional no IPEN discute microbiologia aplicada ao meio ambiente


Dados da Organização Mundial da Saúde - OMS, até 2003, revelam que 14,7 milhões dos óbitos registrados anualmente, ou cerca de 26% do total de óbitos, são causados por microorganismos, ou seja, doenças infecciosas. De acordo com a organização, as doenças diarréicas, que estão intrinsecamente relacionadas às questões de saneamento básico bem como disponibilidade e qualidade de água, são responsáveis por 1,9 milhão de óbitos anuais. Esses dados mostram a importância do “Seminário Internacional sobre Microbiologia Aplicada ao Meio Ambiente - Antecedentes Históricos e Perspectivas”, que teve início hoje (13/6), no auditório do IPEN - Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, em São Paulo.

O encontro, que está sendo promovido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e CETESB - Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental, em conjunto com o Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, Fundação de Estudos e Pesquisas Aquáticas - FUNDESPA e Sociedade Brasileira de Microbiologia - SBM, além do próprio IPEN, vai se estender até a próxima quarta-feira (15/06), com a participação de vários especialistas brasileiros e dos Estados Unidos, África do Sul e Espanha.

O primeiro dia do evento, que teve em sua abertura a presença do presidente da CETESB, Rubens Lara, do superintendente do IPEN, Cláudio Rodrigues, da presidente da SBM, Bernadete Franco, e do diretor da FUNDESPA, Luís Roberto Tomazzi, foi marcado por homenagens à pesquisadora Maria Therezinha Martins, pioneira no estabelecimento da microbiologia sanitária e ambiental no Brasil e falecida em 1995.

Conforme lembrou o presidente da CETESB, o seminário nasceu mesmo do objetivo de homenagear a Profa. Dra. Maria Therezinha Martins, que teve como uma de suas responsabilidades a montagem e organização dos laboratórios de Microbiologia e Hidrobiologia da agência ambiental paulista, por ocasião de sua criação em 1968. “E ela fez isso com o brilhantismo que lhe era peculiar, até 1984, quando então foi para a Universidade de São Paulo.

Nesse período, levou os laboratórios da CETESB ao reconhecimento nacional e internacional”, ressaltou, afirmando que ainda hoje estes laboratórios são referência para o Brasil e a América Latina, na área de microbiologia sanitária e ambiental.

Relembrando os dados da OMS para enfatizar que a proteção ao meio ambiente e preservação dos mananciais são essenciais para garantir a qualidade da água e a saúde da população, Lara disse que os mecanismos de gestão dos recursos hídricos atuais não podem desconsiderar que da falta de cobertura dos serviços de saneamento resulta o favorecimento à disseminação de doenças de veiculação hídrica, tais como diarréia, cólera, leptospirose, dengue e outras enfermidades, associadas às condições inadequadas de tratamento de águas e vigilância ambiental precária.

“Essas doenças, causadas por patógenos emergentes ou reemergentes, representam um imenso risco para a saúde pública e conhecer melhor seus agentes etiológicos e seus impactos na saúde humana e sua ecologia no meio ambiente é um desafio”, alertou o presidente da CETESB, que também expôs sua expectativa quanto a outros objetivos do evento, como permitir a discussão de novas estratégias para o monitoramento e avaliação da qualidade da água, de temas como o reúso de água, aplicação de lodo na agricultura e novos processos de tratamento, “discussões essas de suma importância para as políticas públicas do país e para o estabelecimento de critérios, padrões e indicadores de qualidade ambiental”.
Respeito internacional
Conforme a Dra. Petra Sanchez Sanchez, da Universidade Mackenzie, que foi funcionária da CETESB por 27 anos e que fez uma breve apresentação sobre a vida de Maria Therezinha Martins, que nasceu em 1936 e faleceu em 1995, a pesquisadora “dedicou parte de sua vida em divulgar conceitos e conhecimentos na área de microbiologia ambiental e ecologia de microrganismos”.

Segundo Sanchez, a profa. Maria Therezinha acreditava no valor do trabalho interdisciplinar, desenvolvido entre químicos, bioquímicos e biólogos, entre outros, tendo sido reconhecida e respeitada em âmbito internacional, pelos trabalhos desenvolvidos na área ambiental. “Ela foi responsável pelos alicerces da microbiologia ambiental no Brasil e na América Latina, pelo seu empenho na disseminação do conhecimento científico na área de microbiologia aplicada ao meio ambiente”. Sanchez lembrou, ainda, que a pesquisadora foi presidente de várias associações científicas, como a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e a Sociedade Brasileira de Microbiologia.
Aplicação
A Dra. Maria Inês Zanoli Sato, gerente do Departamento de Análises Ambientais da CETESB, que se apresentou no seminário falando sobre o tema “Microbiologia e Parasitologia Ambiental Aplicada à Tecnologia e Saneamento Ambiental”, fez um breve histórico do início dos trabalhos desenvolvidos na agência ambiental paulista, recordando que a Lei Estadual n. 10.107, de 8 de maio de 1968, de criação do FESB (Fundo Estadual de Saneamento Básico), estabelecera, no seu Artigo 18, a constituição de um centro de estudos, pesquisas, ensaios e exames, além de levantamentos e treinamento de pessoal no campo da engenharia sanitária, com a unificação dos laboratórios pertencentes ou vinculados à então Secretaria dos Serviços e Obras Públicas.

Desta forma, segundo Maria Inês, a atuação dos laboratórios de Microbiologia e Parasitologia da CETESB foram estruturados para atender as legislações vigentes, como a Portaria 518, referente às águas de consumo humano, a Resolução CONAMA 274, relativa às águas recreacionais, e a Resolução CONAMA 357, sobre águas superficiais. Ela abrange também o monitoramento e estudos de patógenos em amostras ambientais, a avaliação e validação de metodologia analíticas, o suporte no estabelecimento de critérios e padrões microbiológicos para regulamentações estaduais e federais, e o desenvolvimento de indicadores de qualidade ambiental.

Conforme exemplificou, entre os indicadores microbiológicos, encontram-se os Coliformes totais, Coliformes termotolerantes, Escherichia coli, Estreptococos fecais e Enterococos, e entre as bactérias patogênicas analisadas a Salmonella, o Vibrio cholerae e a Shigella. Quanto aos parasitas patogênicos, lembrou que as pesquisas envolvem os protozoários Giardia e Cryptosporidium em água e os protozoários patogênicos em águas residuárias, lodo e águas de reúso.

Citou, ainda, trabalhos como as ações de combate à cólera no Estado de São Paulo, em que a CETESB mantém pontos de amostragem, entre outros locais, nos terminais rodoviários do Tietê e da Barra Funda, os aeroportos de Cumbica, Congonhas e Viracopos, os portos de Santos e de São Sebastião, e estações de tratamento de esgotos, como a ETE Barueri.

Quanto às ações de combate à poliomielite no Estado, de 1999 até 2005, cujo objetivo é monitorar, com freqüência quinzenal, pontos de entrada do poliovírus e hospitais de referência, citou como exemplos de pontos de amostragem o Hospital das Clínicas e a Santa Casa de Misericórdia, além do aeroporto de Cumbica e o porto de Santos. Informou que o monitoramento do poliovírus, no período de 1999 até o ano passado, resultou em 72% de amostras negativas, 5% de amostras positivas por poliovírus e 23% de amostras positivas por outros enterovírus.

Texto:
Mário Senaga

FONTE:
http://www.cetesb.sp.gov.br/noticentro/2005/06/13_seminario.htm


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