Enquanto
os chefes de Estado se reúnem em Nova Iorque para
a cúpula mundial sobre as metas de desenvolvimento
para o milênio, com o objetivo de reduzir a pobreza
e garantir sustentabilidade ambiental, a Rede WWF lança
hoje um novo relatório que mostra a ligação
estreita existente entre a conservação do
meio ambiente e o desenvolvimento econômico. O relatório
mostra como o uso e conservação dos ecossistemas
aquáticos impacta o meio de vida, a saúde
e a segurança das populações mais
pobres.
A degradação ambiental provoca pobreza e
conflitos sociais, enquanto o manejo sustentável
dos recursos naturais torna-se um fator de melhoria de
qualidade de vida e de renda da população.
Um dos estudos de caso apresentados no relatório
é sobre o Projeto Várzea, que o WWF-Brasil
realiza em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental
da Amazônia - Ipam, junto às comunidades
ribeirinhas do município de Santarém, no
Pará.
O manejo da pesca é uma das alternativas para melhoria
de qualidade de vida da população, Santarém,
PA. (© WWF-Canon / Edward Parker)
“A introdução de práticas sustentáveis
de uso dos recursos naturais traz benefícios ambientais,
sociais e econômicos, além de aumentar a
auto-estima da população e sua capacidade
para o processo de gestão participativa. E a primeira
a se beneficiar é a população local”,
diz Antonio Oviedo, coordenador do Programa de Conservação
do Rio Amazonas e Planícies Inundadas do WWF-Brasil.
O sucesso do Projeto Várzea fez com que o modelo
seja replicado pelo WWF-Brasil com comunidades de outras
partes da Amazônia, inclusive no Acre, na região
do Alto Purus.
Água doce e floresta devem ser consideradas de
forma integrada, pois uma depende da outra. Em qualquer
lugar onde se vive, longe ou perto da natureza, mesmo
nas grandes metrópoles, dependemos desses dois
elementos para ter água para beber e preparar alimentos,
construir materiais, reciclar nutrientes, regular o regime
de chuvas e o clima em geral, bem como ter peixes, em
variedade, quantidade e qualidade suficiente, plantas,
frutos, sementes e outros insumos essenciais à
indústria farmacêutica, cosmética,
alimentícia e tantas outras. Por isso é
essencial conservar a bacia do Rio Amazonas e suas florestas
inundadas. Já as populações ribeirinhas
tradicionais, que vivem na várzea amazônica,
dependem da água doce e da floresta para tudo,
tendo na pesca a sua principal fonte de proteína
e de renda.
Projeto Várzea
O Projeto Várzea, iniciado há 11 anos, proporcionou
apoio técnico e financeiro para que as comunidades
da região de Santarém implantassem o manejo
integrado dos recursos da várzea. Numa pesquisa
realizada em 2004, 91% dos comunitários entrevistados
expressaram interesse em continuar o projeto. O chamado
manejo - método que combina o cuidado para manter
a integridade da biodiversidade e da paisagem com métodos
modernos de produção econômica e de
organização social - dos recursos naturais
da várzea, em especial a pesca, trouxe vários
resultados positivos para as comunidades envolvidas no
projeto. Veja alguns deles:
• A identificação e envolvimento de lideranças
comunitárias para desenhar e implementar acordos
de pesca e de gado fortaleceu a capacidade de organização
social das comunidades. A partir do manejo dos recursos
naturais da várzea, elas aprenderam a gerenciar
coletivamente outros problemas individuais ou de grupo
e a buscar melhorias de todo o tipo. As associações
comunitárias tornaram-se interlocutores relevantes
no diálogo com o poder público.
• Por meio do trabalho com grupos de mães para
qualificar e diversificar a dieta familiar, bem como para
preparar remédios caseiros, obteve-se uma melhoria
nos índices de saúde entre as comunidades
envolvidas com o projeto. O desenvolvimento de associações
bem estruturadas também permitiu o fornecimento
de serviços básicos de saúde para
as comunidades.
• Problemas entre os pescadores, fazendeiros e pecuaristas,
originados pelo mau uso dos campos de várzea pela
pecuária, foram resolvidos com os “acordos de búfalo”,
que definem onde, quando e quantos animais podem ser criados
nos campos de várzea.
• Acordos de pesca também resolveram os problemas
entre os pescadores das várias comunidades e destes
com pescadores comerciais, devido à escassez e
diminuição de tamanho de determinadas espécies
de peixe, causadas pela sobrepesca, o desrespeito às
épocas de procriação dos peixes e
a utilização de equipamentos e práticas
predatórias. Além de resolverem conflitos,
os acordos melhoraram a produtividade e a renda dos pescadores,
ao mesmo tempo que garantiram peixe o ano inteiro para
todos. Esses acordos influenciaram as políticas
públicas e são reconhecidos pelo Ibama,
o que lhes confere força de lei.
• O manejo da pesca fez aumentar em 60% a produtividade
dos lagos e a produção de peixes de valor
comercial, o que trouxe 25% de aumento médio na
renda dos comunitários. A renda melhorou ainda
mais com a introdução da pesca de camarão,
da agricultura de várzea, do manejo do gado e da
criação de abelha sem ferrão.
• A população de pirarucu - o maior peixe
de água doce do mundo e um dos mais tradicionais
da Amazônia, com alto valor comercial e muito apreciado
pela culinária local -, que estava desaparecendo
dos lagos de pesca, têm aumentado significativamente.
Além disso, foi criado um novo nicho de mercado
para o pirarucu oriundo do manejo sustentável,
com melhor remuneração para os pescadores.
Em 2004, por exemplo, a pesca de pirarucu na ilha de São
Miguel produziu 5.669 quilos de filé de peixe,
o que rendeu um total de R$ 33.764,00, dos quais R$ 26.726,00
ficaram com os pescadores e os restantes R$ 7.037,50 (ou
21% do total) foram para a associação.
• O cultivo de produtos agrícolas na época
da seca, com a introdução de novos métodos
de plantio com a introdução de novos métodos
de plantio, bem como tecnologia para a produção
de farinha, também possibilitou melhoria na dieta
e novas fontes de renda para as comunidades.
Os
ecossistemas aquáticos são elementos estratégicos
para o desenvolvimento das nações e o relatório
mostra que conservar esses recursos naturais é
fundamental para promover o desenvolvimento econômico
com inclusão social e qualidade de vida para a
população. O Brasil possui a maior reserva
de água doce do planeta e dois terços dela
estão na várzea da Amazônia . Apesar
disso, mais de 40 milhões de brasileiros hoje não
têm sequer acesso à água de boa qualidade.
O
sumário, introdução e conclusões
do relatório, bem como a íntegra do estudo
de caso do Projeto Várzea, estão disponíveis
em português no website www.wwf.org.br
Fonte:
http://www.cidadania.org.br/conteudo.asp?conteudo_id=5217