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CIB
- Num dos seus artigos, o senhor fala sobre "os
imperativos morais da biotecnologia" e, entre
outros temas, afirma que a biotecnologia deve ser
julgada do ponto de vista ético. O que exatamente
significa isso?
Peter Raven - Muitos de nós acreditamos que,
quando uma tecnologia útil está disponível,
deve ser aplicada para produzir benefícios
às pessoas. Nós queremos coletivamente
administrar o mundo de forma sustentável
e justa. Se estamos lidando com uma novela tecnológica
(neste caso, a transferência de genes de uma
espécie para o organismo de outra espécie),
então devemos parar e considerar em que momento
tais práticas agridem padrões morais.
Se essas práticas não atingem esses
padrões - e claramente há um consenso
sobre isso - então devemos usar essas tecnologias
para melhorar a sustentabilidade mundial. Na minha
opinião, temos a obrigação
de fazer isso. |
CIB
- E o senhor também escreveu que os métodos
transgênicos devem ser julgados pelos seus produtos.
Por quê?
Raven - Porque não existe base científica
nas reclamações de que essa técnica
é perigosa (que a simples produção
de um organismo transgênico resulta em uma situação
potencialmente perigosa) nem qualquer outra base para
concluir que os produtos correntemente disponíveis
no mercado mundial ameaçam a saúde humana.
Para evitar problemas, todos os produtos devem ser testados
e, se encontrada alguma irregularidade, vetados para o
consumo. Acredito que todas as variedades de organismos
transgênicos precisam ser considerados individualmente,
por sua própria característica, como qualquer
outro produto que venha a ser disponível para os
consumidores. Os mecanismos pelos quais são produzidos
não podem estar associados a qualquer perigo em
especial.
CIB
- Os OGMs podem ajudar a reduzir o consumo de água
no mundo pelos próximos anos? Como?
Raven - Existem características genéticas
das plantas que as fazem resistentes à seca, sendo
aptas a florescer em condições áridas
ou com menor quantidade de água. Modificações
genéticas nos dão a oportunidade de produzir
sementes com todas essas qualidades. O controle genético
da habilidade de sobrevivência de certas plantas
em condições de todos os tipos de estresse
parece habilitar outras delas a lidar com a seca. Num
mundo onde a água está ficando cada vez
mais escassa - estimativas apontam que consumimos hoje
em torno de 55% dos suprimentos recicláveis de
água potável - e onde a maior parte da água
é subsidiada para a agricultura, esses avanços
serão de enorme importância.
CIB
- Quais são os efeitos dos OGMs em relação
à ecologia e ao meio ambiente?
Raven - Os efeitos dos OGMs devem ser avaliados individualmente,
conforme suas características particulares. Não
há como generalizar. Eles devem ser analisados
no contexto de onde serão cultivados, considerando
o meio ambiente local. Além disso, é preciso
levar em conta os valores sociais daquela região.
Em campos cultiváveis, por exemplo, a biodiversidade
é maior do que nos menos cultiváveis. Em
geral, o objetivo da agricultura é reduzir a competição
por parte de insetos predadores e outros animais na busca
pelas culturas. Qualquer tipo de agricultura avançada
deve reduzir essa competição. Além
disso, certamente algumas sementes GMs estão desempenhando
um papel importante na redução de pesticidas.
E isso é um tremendo avanço, uma vez que
algumas substâncias podem causar sérios problemas
à saúde humana e ao meio ambiente. Se pouca
quantidade de pesticida é usada (e demonstrações
transparentes desses efeitos podem ser avaliadas em muitas
regiões), então os benefícios para
a biodiversidade, sustentabilidade ambiental e saúde
humana podem ser enormes.
CIB
- E existem exemplos concretos desses benefícios
pelo mundo?
Raven - A aplicação continua de pesticidas
na Europa é muito maior que nos Estados Unidos.
Estima-se que, se metade do milho, da canola e do algodão
cultivados na Europa fossem geneticamente modificados
para resistir às pragas, haveria uma redução
de cerca de 14,5 milhões de quilogramas de pesticidas.
A aplicação de métodos transgênicos
para diferentes sistemas de agricultura é apropriada
para as diferentes condições ao redor do
mundo e deve ser acelerada. Por exemplo: o desenvolvimento
de arroz GM resistente à água salgada -
que está sendo conduzido pelo Instituto de Pesquisa
M.S. Swaminathan, na Índia -, é grande promessa
para áreas costeiras indianas, onde a água
do mar encontra as plantações. O desenvolvimento
de batatas ricas em proteínas está sendo
estudado na Índia, China e África do Sul
é outro exemplo de uma estratégia simples
que servirá para aliviar a fome e a pobreza. A
redução de 7.5 milhões de hectares
de cultivos que hoje são pulverizados com produtos
químicos resultaria na economia de 20.5 milhões
de litros de diesel e preveniria a emissão de 73.000
toneladas de dióxido de carbono na atmosfera. Sob
esse aspecto, é óbvio que a agricultura
na Europa e pelo mundo não está sendo gerenciada
de modo sustentável nem produtivo. Para que as
necessidades humanas sejam adequadas e seguras, as práticas
da agricultura precisam ser melhoradas em todos os lugares.
Certamente o uso do manejo de pragas e da agricultura
orgânica é parte útil da nossa briga
pela criação de produtividade e sustentabilidade.
Mas a aplicação dos métodos modernos
por meio da tecnologia GM claramente tem contribuição
significativa para isso. Por que esse método é
visto com tanto ceticismo, quando os ganhos são
tão evidentes e a sua contribuição
são enormes?
CIB
- Como deixar de lado os interesses econômicos para
focar nas questões científicas e de combate
à fome?
Raven - Pobreza é um problema sério. E os
avanços obtidos no desenvolvimento de sementes
GMs devem estar disponíveis para as populações
pobres do mundo e as corporações têm
indicado o interesse por transferir tecnologia com este
propósito. Entidades nacionais e internacionais
precisam ser desenvolvidas para assegurar essa conclusão.
É para uma parte do problema para a qual as novas
tecnologias podem estar disponível, não
importa quais sejam.
CIB
- O presidente Luis Inácio Lula da Silva sugeriu
um fundo internacional de combate à pobreza no
mundo. Como o senhor vê o desenvolvimento da ciência
brasileira e, na sua opinião, quais os benefícios
dos grãos GMs para nossa economia e questões
sociais?
Raven - O Brasil está avançando tanto quanto
qualquer país em desenvolvimento, com muitas instituições
e profissionais de ponta em diferentes partes. Os cientistas
brasileiros são adeptos dos novos e crescentes
campos da biologia molecular e vêm fazendo contribuições
importantes no âmbito mundial, o que certamente
inclui o desenvolvimento da biotecnologia. E, usando-na
apropriadamente, terão aprimoramento substancial
na resolução de problemas sociais e econômicos,
no Brasil e no mundo. A biotecnologia deve formar importante
base econômica para o desenvolvimento brasileiro.
O século 21 é freqüentemente chamado
de "século da biologia" e, se for, será
em razão do talentoso avanço que representa
a produção de grãos GMs.
FONTE:
http://www.cib.org.br/entrevista.php?id=41