Por:
Juliana Radler, especial para a Agência Carta Maior
Buenos Aires - Até sexta-feira (17), ocorre em
Buenos Aires a 10ª Conferência das Partes da
Convenção das Nações Unidas
sobre Mudanças Climáticas (COP 10), na qual
estão reunidas cerca de 5 mil pessoas de todo o
mundo para debater os 10 anos da Convenção
e o Protocolo de Quioto, que passará a vigorar
em 16 de fevereiro de 2005. Neste contexto, o Brasil,
como grande detentor de recursos naturais, começa
a se articular para atuar como coadjuvante neste novo
mercado que se abre.
A Convenção das Nações Unidas
sobre Mudanças do Clima foi assinada durante a
Eco92, no Rio de Janeiro, e foi ratificada por 189 países.
Desde 1992, foram realizadas nove reuniões dos
signatários do texto, as chamadas Conferências
das Partes (COP). Na 3ª COP foi instituído
o Protocolo de Quioto, que estabelece metas de redução
de emissão de gases de efeito estufa para os países
desenvolvidos. O Protocolo exige que os países
desenvolvidos reduzam suas emissões em 5% em relação
aos níveis de poluição de 1990. Essas
metas deverão ser atingidas no primeiro período
de compromisso do Protocolo, entre 2008 e 2012.
Para o professor da Coordenação de Programas
de Pós-graduação em Engenharia (Coppe)
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Emílio
La Rovere, o Brasil poderá faturar algo em torno
de US$ 300 milhões anuais nos próximos 15
anos com a venda de créditos de carbono, uma das
ferramentas do Protocolo de Quioto para se controlar as
emissões de gases do efeito estufa no planeta.
La Rovere, um dos mais conceituados especialistas em pesquisa
de energias renováveis, está em Buenos Aires
para apresentar os projetos brasileiros de biocombustível,
como o etanol feito a partir da cana-de-açúcar.
Em 1979, quando os preços internacionais do petróleo
estavam em alta, o Brasil chegou a ter 5,4 milhões
de veículos movidos a esse combustível,
segundo o professor. La Rovere explica que a queda dos
preços internacionais do barril de petróleo
acabou enfraquecendo o projeto, mas com a iminente implementação
do Protocolo de Quioto, a necessidade de se reduzir a
emissão de gases poluentes faz com que a iniciativa
possa ser revigorada.
“O programa brasileiro de Etanol poderá tornar-se
um projeto de MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo),
a ser patrocinado por países desenvolvidos que
precisem reduzir as suas emissões. Acredito que
o programa poderá ser ampliado com a preocupação
em reduzir a emissão dos gases do efeito estufa,
já que 10 milhões de toneladas de CO2 deixam
de ser emitidas por ano com o uso do etanol. Além
disso, é uma alternativa econômica para o
Brasil, pois em 22 anos o projeto conseguiu economizar
1,8 bilhões de dólares/ano com a substituição
de 200 mil barris de gasolina por etanol”, ressalta o
professor.
Na vanguarda
O
Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas
(FBMC), que passou a ter como secretário executivo
o ex-presidente da Eletrobrás, Luis Pinguelli Rosa,
realizou uma reunião extraordinária nesta
segunda-feira (13) para receber sugestões e críticas
com o intuito de desenvolver propostas e aumentar o papel
do país nas negociações do Protocolo.
Depois de um período de dornmência, o Fórum,
que foi estabelecido durante o Governo FHC e tinha como
presidente o deputado Fábio Feldman, ganhou novo
fôlego para auxiliar os diplomatas do Itamaraty
nas negociações sobre informações
e idéias de geração de negócios
voltados para o desenvolvimento sustentável.
Durante a reunião, Pinguelli Rosa recebeu informações
de ONGs, empresas privadas e representantes do Governo
a respeito de projetos capazes de serem beneficiados pelo
Protocolo de Quioto, assim como problemas a serem enfrentados
pelo Brasil, como o desmatamento crescente das florestas,
principalmente na Amazônia.
“O FBMC será a interface das entidades, empresas
e órgãos de governo para definir as questões
relacionadas às mudanças climáticas.
Vejo uma predisposição do Governo Lula em
unir esforços dos Ministérios, como de Energia,
Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente, em busca de
um bom resultado para o Brasil na implantação
do Protocolo de Quioto”, enfatiza Pinguelli.
Para as ONGs brasileiras, no entanto, há que se
tratar também de temas prementes como a degradação
ambiental. “É fundamental que o debate [do Protocolo]
seja colocado na agenda do presidente Lula, assim como
está na de outros líderes de Estado do mundo,
como Tony Blair. Mas o Brasil está sendo cobrado
pela comunidade internacional pelo desmatamento de florestas
e precisa imediatamente controlar esse problema”, sublinha
Marcelo Furtado, coordenador da Campanha Energia do Greenpeace.
Na mesma direção, a senadora matogrossense
Serys Schessarenko (PT) avalia que, devido ao crescimento
do agronegócio, o Mato Grosso vem sofrendo como
nunca com o desmatamento. “É preciso criar um futuro
sustentável para o Mato Grosso, conciliando desenvolvimento
econômico com a questão ambiental”, colocou
a senadora. Para Ivan Marcelo Neves, do Fórum Brasileiro
de ONGs e Movimentos Sociais, é preciso de fato
que o Governo brasileiro esteja presente ao debate da
implementação do Protocolo de Quioto para
que os projetos nacionais, como os de energia renovável,
possam ser apoiados. “Por enquanto, temos bons projetos
e apoio da sociedade, mas ainda não decolamos.
Quioto é só uma carta de boas intenções”,
comentou o representante da ONG.
Para fortalecer a presença brasileira em Buenos
Aires, são esperadas as presenças das ministras
Marina Silva, do Meio Ambiente, e Dilma Roussef, de Minas
e Energia, para debates ministeriais que ocorrem nos próximos
dois dias na COP 10. A vinda das duas ministras já
pode ser uma sinalização de que o governo
brasileiro começa a integrar esforços em
benefício da criação de novas atividades
econômicas e sociais que surgem com a implementação
do Protocolo de Quioto.
FONTE: http://www.cidadania.org.br/conteudo.asp?conteudo_id=4484