O
combate ao tráfico de animais e à biopirataria
vai exigir punições mais rigorosas para
os infratores. A opinião é da ex-chefe da
Estação Ecológica do Raso da Catarina
(BA), Kilma Raimundo Manso, e também um dos objetivos
da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)
da Biopirataria. Durante a audiência pública
realizada ontem, o deputado Hamilton Casara (PSB-RO) ressaltou
que a CPI discutirá as formas para "melhorar
o serviço de inteligência e aparelhar as
instituições brasileiras para enfrentar
os crimes ambientais".
Kilma Manso, que é policial federal e trabalha
atualmente na Divisão de Meio Ambiente da Policial
Federal, ressaltou que a legislação atual
precisa ser modificada porque prevê medidas de punição
inócuas. Kilma explicou que a grande lucratividade
do tráfico de animais e as penas brandas aos criminosos
servem de estímulo às quadrilhas, que aliciam
as populações mais pobres do interior do
País.
Segundo a policial, as maiores dificuldades para a fiscalização
ambiental são a falta de condições
materiais e de efetivo e a falta de rigor das punições
previstas na Lei 9605/98, que trata dos crimes ambientais.
Para Kilma, "somente um trabalho conjunto das forças
federais, estaduais e municipais pode impedir o tráfico
de animais e plantas no Brasil".
Em reuniões anteriores, o presidente da CPI, Antonio
Carlos Mendes Thame (PSDB-SP), e o relator, Sarney Filho
(PV-MA), já tinham destacado que a Comissão
pretende modificar a legislação e ajudar
o Poder Executivo a encontrar formas de coibir os crimes
contra o meio ambiente.
Arara-azul
A Estação Ecológica do Raso da Catarina
(BA) concentra os últimos 489 exemplares de arara-azul-de-lear
silvestre encontrados no mundo. Mas essa população
no Raso da Catarina, principal ambiente de reprodução
da espécie, vem aumentando, informa Kilma.
Hoje há cerca de 500 araras-azuis na região.
O deputado Hamilton Casara ressalta que é preciso
assegurar um controle dessas espécies raríssimas
para que não ocorra a extinção genética
da espécie.
De acordo com Kilma Manso, a rede de tráfico da
araras azuis continua atuando por meio da arregimentação
da população local. Ela assinala que o Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama) e a Polícia Federal têm pouco poder
de combate ao tráfico, em razão do pequeno
número de funcionários e equipamentos em
uma região muito extensa. A especialista diz que
um exemplar do animal chega a custar 100 mil dólares
(R$ 276,3 mil) no mercado negro no exterior. Ela lembrou,
entretanto, que os moradores do entorno da estação
ecológica cobram apenas R$ 200 para escalar os
paredões onde as araras fazem seus ninhos.
Pesquisas
Também foram ouvidos pela CPI, na condição
de testemunhas, os pesquisadores do Instituto Butantan
(SP) Sylvia Marlene Lucas e Rogério Bertani. Sylvia
explicou os procedimentos que são realizados nas
pesquisas com aranhas e escorpiões. Ela afirmou
que, apesar de as pesquisas envolverem a troca de animais
entre cientistas e o envio de substâncias como venenos,
essas práticas são feitas de acordo com
a legislação e com as regras estabelecidas
pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis (Ibama).
A pesquisadora relatou também que conhecia o alemão
Dietmar Pinz, preso no dia 30 de novembro do ano passado
no aeroporto de Brasília com seis aranhas, mas
afirmou que ele é apenas um colecionador, segundo
suas informações.
Sobre o caso do alemão Carsten Richard Roloff,
detido em Brasília no dia 25 de setembro de 2004
com uma mala cheia de aranhas caranguejeiras, a pesquisadora
informou que o traficante identificou-se como biólogo
no Instituto Butantan para ver os animais da coleção
e descobrir o local de origem da espécie. Na época
da prisão, Rollof confessou que levaria centenas
de ovos de aranhas para serem estudados na Europa.
O pesquisador Rogério Bertani confirmou que animais
raros encontrados no Brasil são levados ilegalmente
para o exterior e ficam à disposição
de laboratórios farmacêuticos. "Os grandes
laboratórios nem precisam dizer de onde veio a
substância que vão patentear, afirmam que
foi sintetizada por eles próprios". Bertani
lembrou que os colecionadores estrangeiros pagam mais
pelas espécies de animais que ainda não
foram descritas cientificamente. Ele citou o caso de uma
espécie desconhecida de aranha coletada em 1994,
no interior do Maranhão, e posteriormente descrita
por ele. O animal foi levado ao exterior por um alemão
e, atualmente, pode ser comprado pela Internet até
mesmo em Cingapura ou no Japão.
Documentos
federais
Além dos depoimentos, a comissão aprovou
três requerimentos que solicitam a presença
de testemunhas e o acesso a documentos dos órgãos
federais responsáveis pela fiscalização
ambiental.
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Reportagem
- Cristiane Bernardes e Eduardo Tramarim
Edição - Regina Céli Assumpção
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