Metade
da madeira que está no mercado brasileiro é
ilegal, seja proveniente de desmatamento ilegal, seja
por adulteração de autorizações
para retirada da matéria-prima. A afirmação
foi feita nesta quarta-feira pelo secretário de
Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio
Ambiente, João Paulo Capobianco, durante audiência
pública na CPI da Biopirataria.
O País já tem 30 milhões de m3 de
madeira desmatada. No final de 2002, foi constatado aumento
de mais de 28% no desmatamento, principalmente na Amazônia
e no Mato Grosso. Em 2003, o quadro se estabilizou. Para
o próximo ano, Capobianco prevê a melhoria
dos números como resposta a uma ação
coordenada pela Casa Civil, que conta com a colaboração
de 13 ministérios. "A ação se
dará em três frentes: monitoramento e controle,
ordenamento territorial e fundiário, e fomento
a atividades produtivas", explicou o secretário.
"Já em 2005 a sociedade deverá sentir
os primeiros resultados, com a reduções
dos índices de desmatamento e melhoria das atividades
econômicas na Amazônia".
O otimismo do secretário não é compartilhado
pelo relator da CPI, deputado Sarney Filho (PV-MA), para
quem o ritmo de retomada do desmatamento está se
intensificando. "O desmatamento envolve interesses
econômicos altos", disse. "Na hora em
que você afrouxa de um lado, eles ocupam esse espaço
para retomar o processo".
Durante a audiência pública, o secretário
Capobianco sugeriu a adoção de várias
medidas de prevenção ao desmatamento, entre
as quais a gestão das florestas públicas,
a reforma do sistema de controle e o fomento à
atividade sustentada. Para reduzir o tamanho das áreas
já desmatadas, ele propôs a criação
de unidades de conservação e de florestas
nacionais, e incentivos econômicos ao manejo correto
das florestas.
Certeza
de impunidade
Para o ex-secretário estadual do Meio Ambiente
do Mato Grosso, Frederico Guilherme Müller, o desmatamento
ilegal é o pior tipo de biopirataria. Segundo ele,
o motivo do não-cumprimento do Código Florestal
é a certeza da impunidade por parte do infrator,
embora a lei preveja a chamada reserva legal, em que 80%
das árvores não podem ser desmatadas.
Ele informou que, em 2003, o índice de desmatamento
no Mato Grosso cresceu em mais de 100%. Uma reviravolta,
já que, entre 1999 e 2002, houve uma redução
de 57% nos índices. Até 2003, haviam sido
desmatados 29 milhões de hectares no estado. Só
em 2003, foi desmatado mais 1,8 milhão de hectares.
Müller defendeu a retomada do monitoramento das reservas.
"Isso pode ser feito permanentemente, já que
bastam vinte fiscais no Mato Grosso para visitar 30 mil
propriedades em um ano. Só isso já pararia
o desmatamento."
BR
163
Frederico Müller previu "um desastre" se
a BR 163 for pavimentada sem um sistema de controle. Segundo
ele, as imagens de satélite mostram que a área
da parte já pavimentada da estrada foi totalmente
desmatada.
O ex-secretário discorda da argumentação
de que a estrada serviria apenas para o escoamento da
produção de soja. Ele garantiu que a região
já está praticamente com todas áreas
ocupadas, pois uma área está destinada como
reserva indígena, uma como reserva militar e outra
como reserva ambiental.
"O Ibama finge que fiscaliza e o proprietário
rural finge que cumpre a lei", afirmou Müller,
ao defender mudanças na Lei de Política
Florestal.
Índice
pode cair
Já o diretor de Recursos Florestais da Fundação
Estadual do Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso, Rodrigo
Justos de Brito, disse que seu estado tem hoje 32,3% de
área desmatada, mas a taxa de desmatamento será
menor no período 2004/2005. Segundo ele, o desmatamento
médio no estado é de 1,1 milhão de
hectares por ano.
Rodrigo de Brito disse que há sonegação
de reposição de estoque florestal e, se
a situação não for revertida em 15
anos, o Mato Grosso será importador de madeira,
em vez de exportador.
Situação
nacional
O Brasil produz anualmente 300 milhões de m3 de
madeira, sendo 150 milhões para uso industrial
e 150 para uso doméstico. Da madeira para uso industrial,
cerca de 110 milhões de m3 vêm de plantações
e cerca de 30 a 40 milhões de m3 são de
floresta natural. 85% do consumo do País é
de madeira da floresta natural.
Nas plantações, a exploração
da madeira é livre. Nas florestas naturais, porém,
o explorador tem que respeitar o Plano de Manejo Florestal
Sustentável ou o desmatamento autorizado. Essas
são as fontes legais de desmatamento.
Reportagem – Danielle Popov
Edição – Rejane Oliveira
(Reprodução
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