Por:
Micheline Matos
A história das mulheres pobres da região
do semi-árido maranhense se mistura com a do babaçu.
Ali desde cedo elas aprendem um ofício que é
passado de mãe para filha: o de quebradeira de
coco. No Maranhão, cerca de trezentas mil pessoas
vivem da extração do coco do babaçu,
90% são mulheres. Mas a história dessas
quebradeiras muda de acordo com o município em
que vivem, já que nem todos adotaram a Lei do Babaçu
Livre, que permite a extração mesmo em terras
privadas.
Na região cortada pelo Rio Mearim está a
maior concentração de babaçu do Brasil
e essas plantações geralmente estão
dentro de propriedades particulares, onde a extração
do coco não é a principal fonte de renda
dos donos. Este fato já causou intensos conflitos.
Depois da aprovação da lei, o sustento de
muitas famílias foi assegurado sem desavenças,
mas ainda existem famílias sofrendo com a exploração.
A Lei
A Lei do Babaçu Livre foi aprovada em 1997, mas
essa conquista faz parte de um longo processo de lutas.
Antes de 1960, as quebradeiras não encontravam
nenhum empecilho para extrair o coco, a partir de então
as terras começaram a ser cercadas com arame farpado
e porteiras com cadeado, além de intensa fiscalização
dos proprietários. Sem condições
de trabalho, as famílias entravam em atrito com
os empregados das fazendas numa guerra que cobrou vidas
de ambos os lados. Mas a luta dessas mulheres é
que a Lei seja estadual e federal. Também batalham
pela preservação das palmeiras no cenário
maranhense.
O município de Lago do Junco foi o primeiro a conseguir
a aprovação do projeto de Lei Babaçu
Livre. A Associação de Mulheres Trabalhadoras
Rurais de Lago do Junco e de Lago dos Rodrigues (AMTR)
foi responsável pela aprovação dessa
lei em outros municípios como Lago dos Rodríguez
e Esperantinópolis, em dezembro de 1999, e em setembro
de 2001 a conquista foi no município de São
Luiz Gonzaga do Maranhão. No final do ano passado
a lei foi sancionada em Imperatriz.
Um dos grandes problemas atuais da região é
que grandes faixas de terra estão sendo vendidas
e seus donos pretendem derrubar as palmeiras a fim de
investir em monocultura. Uma árvore de babaçu
demora 90 anos para dar frutos. Ou seja, mesmo que haja
um processo de reflorestamento, essa geração
das famílias não poderá sobreviver
da extração dos frutos.
Casos e casos
Apenas 10 mil quebradeiras se beneficiam com a lei e,
se existisse uma escala para medir o nível de desenvolvimento
das quebradeiras no processo de exploração
do babaçu no Maranhão, as mulheres da região
do Médio Mearim, mais precisamente no município
de Ludovico, são as que ocupam o topo, pois além
do benefício da Lei, foram assessoradas e apoiadas
pela Unicef e hoje possuem uma cooperativa que fabrica
sabonetes e óleo. Esses produtos são exportados
para Europa e Estados Unidos. Uma rede de cosméticos
inglesa, conhecida por valorizar as comunidades nativas
e na preservação da natureza, paga pelos
produtos o dobro do preço.
Em Timbiras a situação das quebradeiras
é distinta, não existe cooperativa, nem
apoio internacional. No entanto, aos poucos, com a assessoria
do Instituto de Apoio Comunitário, as famílias
passaram a otimizar a produção de carvão
feito com a casca do coco de babaçu. Paulo Roberto,
membro do Instituto conta que antes o carvão era
feito de forma ainda mais artesanal e que somente quatro
latas do produto eram produzidas por forno. "Fazia-se
um buraco no chão e ali colocava-se a casca para
queimar. Com o novo método criamos fornos desenvolvidos
a partir de ninhos de cupim feitos de barro. Esse material
é misturado com areia e tem a consistência
de cimento. Fazemos fornos altos e a produção
agora é de 35 latas", explica.
Além do carvão, as quebradeiras aproveitam
a parte que fica logo abaixo da casca para produzir o
que chamam de farinha de mesocarpo, usada para fazer mingaus,
bolos e biscoitos. O mesocarpo é acrescentado na
multimistura distribuída pela Pastoral da Criança,
usada para combater a desnutrição.
Em Timbiras, as quebradeiras moram em propriedades onde
os donos ainda exigem que elas troquem a amêndoa
que quebraram durante todo o dia - em média de
10 a 12 quilos - por alimento. Um quilo de amêndoa
vale um real. Segundo Roberto, a idéia do Instituto
de Apoio Comunitário em conjunto com o Talher de
Timbiras é desenvolver um projeto para que elas
passem a vender não só os frutos, mas os
diversos produtos derivados do babaçu, diretamente
para o Estado que pagará a quantia justa, devolvendo
a dignidade dessas trabalhadoras.
Quebradeiras organizadas
Os conflitos pela posse de terra na região desde
meados dos anos 80, onde os moradores tinham suas casas
destruídas a mando dos coronéis e pela própria
polícia, deu origem a uma organização:
a Associação de Assentados (Assema). A entidade
auxilia a cooperativa de quebradeiras de coco de babaçu
e aos poucos tem mobilizado os pequenos agricultores para
um sistema agroextrativista voltado para a sustentabilidade.
Combinando agricultura orgânica e extrativismo no
mesmo pedaço de terra.
O Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu(MIQCB)
organizou em dezembro último o 5º Encontro
do Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu,
com a presença de castanheiras do Peru e Bolívia,
onde houve intenso intercâmbio de projetos e idéias.
FONTE: http://www.cidadania.org.br/conteudo.asp?conteudo_id=4569