Estudo
inédito mostra que a cidade lança cerca
de 16 milhões de toneladas de CO2 por ano na atmosfera;
metade vem dos veículos
Herton
Escobar escreve para “O Estado de SP”:
O
preço ambiental que SP paga por sua frota de mais
de 5 milhões de veículos particulares não
pesa mais apenas no bolso e nos pulmões dos paulistanos.
Acima
da camada negra de poluição do ar urbana,
os escapamentos da cidade também contribuem para
entupir a atmosfera do planeta com dióxido de carbono
(CO2), principal gás envolvido no aquecimento global.
Segundo
dados inéditos do Inventário de Emissões
de Gases de Efeito Estufa do Município de SP, a
cidade emite cerca de 16 milhões de toneladas de
CO2 por ano, das quais quase 50% provenientes apenas da
queima de gasolina e óleo diesel no transporte.
O
levantamento, divulgado ontem, foi feito por uma equipe
especializada da Coordenação dos Programas
de Pós-graduação de Engenharia (Coppe)
da UFRJ, em convênio com a Prefeitura de SP.
Todos
os dados referem-se a 2003 e incluem as emissões
de CO2 e CH4 (metano), os dois principais gases do efeito
estufa. A idéia é que, com o mapeamento
em mãos, a cidade possa desenvolver estratégias
para a redução de suas emissões.
"O
inventário é apenas o retrato de uma situação
no tempo. Mas, a partir do momento em que você conhece
as fontes e a responsabilidade de cada uma, é possível
intervir de maneira específica", explica Carolina
Dubeux, coordenadora executiva do inventário e
pesquisadora do Centro Clima da Coppe.
Com
quase 11 milhões de habitantes, SP segue o padrão
dos países industrializados, com a maior parte
de suas emissões centrada no setor energético
(76%), que inclui a queima de combustíveis fósseis
(gasolina, gás e óleo diesel).
Em
segundo lugar vêm as emissões da decomposição
de matéria orgânica nos dois lixões
municipais, com mais de 23%. E em terceiro, bem distante,
a perda de cobertura vegetal e mudanças no uso
do solo, com 0,33%.
No
cenário nacional observa-se o padrão inverso,
com 75% das emissões provenientes do desmatamento
e 25%, do setor energético.
De
acordo com o inventário brasileiro, o país
emite anualmente cerca de 1,3 bilhão de toneladas
de CO2.
Mas
há uma observação importante: os
números do levantamento nacional estão defasados
quase dez anos em relação aos do municipal.
O
inventário brasileiro refere-se às emissões
de 1994, o que torna arriscado fazer comparações
numéricas entre os dois relatórios.
A
mesma equipe da UFRJ publicou em 2000 o inventário
de emissões da cidade do Rio, com base no ano de
1998.
Uma
comparação per capita mostra que o cidadão
paulistano emite 1,47 tonelada de CO2 por ano, ante 2,27
toneladas emitidas por cidadão carioca.
Nesse
caso também, entretanto, é preciso considerar
a diferença de tempo.
"Isso
não significa que SP esteja melhor do que o Rio.
Há inúmeras variáveis que podem contribuir
para essa diferença", explica Carolina.
"Se
fizéssemos uma comparação no mesmo
ano, os números seriam provavelmente muito semelhantes."
Soluções
O
próximo passo do projeto consiste na construção
de cenários sobre a evolução das
emissões para os próximos anos e na avaliação
de políticas públicas para a redução
dessas emissões.
No
setor de transportes, especialistas concordam que a melhor
solução é a expansão do transporte
coletivo e o uso de combustíveis menos poluentes,
como o gás e o álcool.
Entre
as propostas já estudadas pela Secretaria do Verde
e do Meio Ambiente estão a recuperação
da frota de trólebus e o incentivo ao uso de bicicletas
por meio de ciclovias.
"SP
é uma cidade americana do ponto de vista do transporte",
disse ao Estado o secretário municipal do Meio
Ambiente, Eduardo Jorge.
"Precisamos
reorientar nosso modelo de forma que o meio de transporte
coletivo seja o determinante, em vez do transporte particular.
E isso implica uma mudança de hábito muito
significativa."
No
caso dos aterros sanitários, a solução
é a queima do gás metano, que pode ser aproveitado
na produção de energia elétrica.
O
aterro Bandeirantes, em 2003, já queimava 20% do
metano produzido pela decomposição de aproximadamente
30 milhões de toneladas de lixo. E um projeto semelhante
está em licitação para o aterro São
João.
"Nesse
aspecto, SP tem tido uma atitude exemplar", avalia
Carolina.
FONTE:
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=30709