Encontrada estalagmite com registro de 116 mil anos do clima das regiões Sul e Sudeste


Encontrada estalagmite com registro de 116 mil anos do clima das regiões Sul e Sudeste

Pesquisadores comprovaram que, neste período, o mecanismo de origem das chuvas no Sul e Sudeste brasileiro, mesmo em períodos de glaciação, é muito diferente do notado no Hemisfério Norte

Diferentemente do observado na maior parte do Hemisfério Norte, as mudanças no regime de chuvas do Sudeste-Sul brasileiro, durante os últimos 100 mil anos, estão diretamente relacionadas às variações de insolação controladas pela alteração no eixo de rotação terrestre. A conclusão, tirada por um grupo multidisciplinar de pesquisadores brasileiros, pode ajudar climatologistas a elaborar novos modelos de previsão climática.

Apesar de tratar de um fenômeno essencialmente climático, a pesquisa, que foi publicada em paper da revista Nature, de março de 2005, teve como principal material de estudo um objeto geológico: uma estalagmite de 80 centímetros encontrada numa caverna da região do Vale do Itajaí, em Botuverá, Santa Catarina.

Após analisá-la, os pesquisadores descobriram que a estalagmite foi formada por um material composto basicamente por carbonato de cálcio, depositado durante 116 mil anos ininterruptos. "Como o crescimento da estalagmite é influenciado pela água da chuva (que reage com elementos presentes no solo, formando o carbonato de cálcio que precipita na caverna), este é o registro mais completo e contínuo já descoberto sobre o regime de chuvas da região Sul e Sudeste do Brasil", afirma Ivo Karmann, do Instituto de Geociências da USP.

Ao cortar a estalagmite ao meio, os pesquisadores recolheram material de diversos pontos, separados milimetricamente, correspondentes a períodos seculares entre estes 116 mil anos. "Observamos, então, que havia um padrão de variação da composição isotópica do oxigênio (variação na proporção entre o oxigênio 18, mais 'pesado' do que a forma mais abundantemente encontrada na Terra, o oxigênio 16)", explica Karmann. "A variação da razão entre O18 e O16 do carbonato de cálcio, ao longo do eixo de crescimento da estalagmite, apresentou uma curva muito semelhante à obtida no gráfico que demonstra a variação da insolação no Hemisfério Sul", completa.

Em períodos de verão do Sul e Sudeste brasileiro, quando a umidade da região é proveniente principalmente da região amazônica, observa-se uma presença menor de oxigênio 18, já que a umidade da atmosfera perde este isótopo conforme migra para o sul. O inverso ocorre no período de inverno, quando há maior quantidade de O18 em relação ao oxigênio 16, indicando que a umidade que mais influencia a região vem do Oceano Atlântico.

Diferença do Hemisfério Norte
Karmann ressalta que, assim como a influência da última glaciação no Hemisfério Sul, o comportamento da origem das chuvas durante os últimos 100 mil anos nesta região era um fenômeno desconhecido. No Hemisfério Norte, em análises paleoclimáticas do último período de glaciação ocorrido no planeta, observou-se que ocorriam variações de temperatura abruptas, chamadas de ciclos de Dansgaard/Oeschger, que duram cerca de dois mil anos.

"Esclarecemos que este fenômeno não se repete com a mesma intensidade no Sudeste-Sul brasileiro, como se imaginava anteriormente. Aqui, a variação do regime de chuvas está diretamente relacionada com os ciclos de insolação, que se completam a cada 23 mil anos", aponta o pesquisador.

A descoberta ganha ainda mais importância quando aplicada à climatologia. "Estamos obtendo dados antigos que são fundamentais para a previsão do clima. Sem estes registros, os climatologistas não conseguem elaborar modelos mais precisos de previsão desta região", garante o geólogo.

A equipe, da qual Ivo Karmann faz parte, é composta por pesquisadores do Instituto de Geociências (IGc), do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) - ambos da USP -, do Instituto Geológico do Estado de São Paulo e de universidades norte-americanas (University of Massachusetts e Berkeley Geochronology Center).

FONTE:
http://www.usp.br/agen/repgs/2005/pags/069.htm


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