Seringal produz 800 quilos de látex por mês


Embrapa desenvolveu espécie de seringueira resistente ao mal-das-folhas, variedade é mais produtiva.

Há cerca de 20 anos, a Embrapa Acre (Rio Branco/AC), em parceria com a Embrapa Amazônia Ocidental (Manaus/AM), deu início às pesquisas com o cultivo de seringueiras resistentes ao mal-das-folhas, doença provocada pelo fungo Microcyclus ulei, que é capaz de dizimar a área de cultivo, inviabilizando a produção de látex em escala comercial na Amazônia. Os estudos chegaram a uma planta tricomposta que garante alta produtividade, precocidade e resistência ao fungo.

Os experimentos instalados na Embrapa Acre chegam a sete hectares e continuam produtivos. Tanto que um convênio entre a Embrapa e a Cooperativa Central de Comercialização Extrativista do Estado do Acre (Cooperacre) tem permitido a extração média de 800kg de látex por mês, gerando receita em torno de R$ 1.600/mês.

Com o apoio de diversos organismos, a tecnologia do cultivo de seringueiras tricompostas tem sido repassada para comunidades extrativistas que passaram a ter a opção de enriquecer as antigas estradas de seringa ou implementar o cultivo em sistemas agroflorestais.

Um bom exemplo disso é o que acontece no Seringal Porvir, localizado na Reserva Extrativista Chico Mendes, onde o produtor Seles Ferreira Leal investiu no consórcio de seringueiras com banana, café e faveira. As seringueiras estão completando três anos de cultivo e vão levar mais quatro para começar a produzir látex. Enquanto isto, ele obtém renda das outras culturas. A seringueira nativa leva pelo menos 20 anos para começar a produzir.

Pesquisas - O clima quente e úmido da Amazônia cria condições propícias para a proliferação do fungo que provoca o mal-das-folhas, fato que não ocorre no Sudeste e Centro-Oeste do país onde os produtores têm parques em torno de 200 mil hectares cultivados em São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo e Bahia.

Projeções indicam que nos próximos anos serão cultivadas cerca de 3 milhões de seringueiras nestas regiões e um dos motivos é a grande demanda de mercado por borracha natural.

A seleção de clones de copas e painéis associadas a técnicas adequadas de enxertia permitiram a criação de uma planta mais adequada para a região Norte. De acordo com o pesquisador Vicente Moraes, da Embrapa Amazônia Ocidental, a etapa mais difícil foi desenvolver as técnicas de enxertia. Muitas vezes, os pesquisadores tinham o clone ideal, mas não dava ligamento. Nos últimos 10 anos este problema tem sido superado.

O sucesso se deu com clones da copa da Hevea pauciflora que são capazes de fazer a seringueira produzir o equivalente a 1,5 mil kg de látex por hectare a partir do terceiro ano de sangria, após a planta atingir seis anos de idade. Segundo Moraes, esta produtividade se compara a alcançada na Índia e Malásia, que estão entre os países de maior produção de borracha.

Consumo - O consumo médio mundial de borracha situa-se em torno de 7,4 milhões de toneladas/ano, sendo que a demanda tem crescido 2,5% ao ano e a produção estabilizado em 1,5% ao ano. Mantida esta tendência, constata-se déficit no mercado e conseqüente aumento de preços.

O Brasil produziu em média 95,5 mil toneladas de borracha seca em 2003, o que representa cerca de 1% da produção mundial, estima-se que apenas 3 mil toneladas desse total são oriundas de seringais nativos. Até o final da década de 70, esta proporção era inversa, cerca de 80% da borracha vinha de seringais nativos.

O fim de políticas de subsídios e apoio técnico, como a Sudhevea, associada a métodos obsoletos de extração do látex determinaram praticamente o fim da economia da borracha nos Estados do Amazonas, Pará e Rondônia. Apenas recentemente, a economia da borracha ganhou fôlego no Acre, graças a políticas de incentivo conduzidas pelos governos estaduais e federais.

Impacto - A retomada da economia da borracha em virtude de políticas para o setor e novas tecnologias para cultivo de seringais modernos e competitivos pode se tornar uma realidade concreta para cerca de 20 mil famílias que vivem do extrativismo no Estado do Acre.

Os preços garantidos pelo governo federal, aliados ao incentivo da Lei Chico Mendes geram receita de R$ 2,20 por quilo de borracha tipo CVP (cernambi virgem prensado) para os seringueiros.

Situação bem diferente de alguns anos atrás, quando chegou-se a pagar menos de R$ 0,50/kg, fato que provocou uma onda de falência e fechamento de usinas, abandono dos seringais e êxodo rural que inchou a periferia de Rio Branco e empobreceu a economia dos povos da floresta.

Para o pesquisador Tadeu Marinho, da Embrapa Acre, um passo importante a ser dado seria a implantação de seringais de cultivo com seringueiras tricompostas, que também poderiam compor sistemas agroflorestais, nas áreas já desmatadas ou em capoeiras. Outra alternativa seria o uso da seringueira para recomposição de matas ciliares em bacias e mananciais. “O processo de extração do látex requer um homem para cada 4 hectares de seringais de cultivo, ou seja, é uma atividade potencial para geração de emprego e renda no Acre”, afirmou.


FONTE: http://www.amazonia.org.br/noticias/noticia.cfm?id=125713


<< Voltar às Notícias


Sugestões e comentários sobre este portal: rosmari@floraefauna.com
Copyright © 2004 - 2007 - Flora e Fauna. Todos os direitos reservados.