Um
projeto, envolvendo 700 pequenos agricultores nos municípios
de Umburanas, Ourolândia e Cafarnaum está
revitalizando cerca de 70 hectares de pequenas propriedades,
com culturas diversas
TÂNIA
EREMKIN
Os resultados positivos do Projeto Policultura no Semi-Árido,
implantado em 1999 em pequenas propriedades rurais dos
municípios de Umburanas, Ourolândia e Cafarnaum,
região a noroeste de Salvador, deram ao Instituto
de Permacultura da Bahia os prêmios Bahia Ambiental
2004, na categoria Atuação Sustentável,
e Ambiental von Martius, na categoria Humanidade.
Na
prática, o prêmio foi traduzido na revitalização
das áreas e melhoria da qualidade de vida dos 700
pequenos agricultores envolvidos com o projeto. Eles chegam
a produzir seis toneladas de gergelim por ano – além
de feijão-mulatinho, azuki, andu, sisal, batata-doce,
maxixe, abóbora, melancia, mamona, palma e frutas
– utilizando fertilizantes orgânicos.
“Os
padeiros e donos de mercadinhos da região devem
morrer de raiva da gente”, afirma a coordenadora-geral
do projeto, engenheira-agrônoma Cinara Sanchez,
contando que as famílias têm mesa farta com
os produtos que passaram a cultivar. O excedente é
trocado entre vizinhos ou vendido para comprar, por exemplo,
gás de cozinha e óleo.
Ela
fala da palma que, por ser da caatinga, muitos pensam
tratar-se de uma planta pobre, sem maiores proveitos.
“Ao contrário, é muito nutritiva, tendo
um gosto parecido com o da vagem e do chuchu”, diz, contando
que a palma é usada em vários pratos, como
ensopados, farofa e picados. Antes da introdução
da permacultura, os agricultores resumiam a plantação
familiar ao feijão e à mamona.
“Era
um cenário triste, com solos exauridos, de baixa
fertilidade, pouco aproveitamento dos recursos hídricos
e com o uso de técnicas não apropriadas”,
recorda a agrônoma, destacando que atualmente a
média de produção de mamona é
de 800 quilos por hectare, um acréscimo de 20%
depois da permacultura.
O
Projeto Policultura no Semi-Árido é em parceria
com a empresa Bom Brasil (de produção de
óleo de mamona), Secretaria de Combate à
Pobreza e Desigualdades Sociais da Bahia, prefeituras
dos municípios de Umburanas, Ourolândia e
Cafarnaum, Fundo Nacional do Meio Ambiente, Companhia
Nacional de Abastecimento (Conab) e auxílio do
governo dos Países Baixos.
A
engenheira explica que para a utilização
da permacultura avalia-se o passado (se a terra passou
por queimadas, o que foi cultivado) e o presente (o que
está nascendo, o terreno). Pode ser implantada
em qualquer lugar. No caso do Projeto de Policultura do
Semi-Árido, assegura que é “um sistema agroflorestal
na caatinga”. O ponto forte é “criar água”.
Como exemplo, citou as culturas de sisal, palma e até
o mandacaru, cuja característica é ter água.
No
caso do semi-árido, são consorciadas as
culturas de leguminosas, hortaliças e forrageiras,
como a crotalária, jurema, sabiá e glirecídia,
que proporcionam uma relação de carbono
e nitrogênio mais adequada para o desenvolvimento
das plantas.
As
árvores são consideradas o clímax,
proporcionando sombra, que ajuda na retenção
de água no solo, madeira, flores para as abelhas
e os frutos. No Projeto de Policultura, as principais
são fruteiras: manga, caju, pinha, cirigüela,
umbu, cajá e a umburana de cheiro. O conceito é
de “plantas companheiras”, uma auxiliando a outra. Além
da diversidade e consórcio das culturas, o projeto
introduziu otimização do uso da água,
administração rural, alimentação
animal e adubação orgânica.
O
INSTITUTO – O Instituto de Permacultura da Bahia foi criado
em 1992, sendo uma entidade sem fins lucrativos com o
objetivo de contribuir para a sustentabilidade nas comunidades.
De acordo com a fundadora, Marsha Hanzi, o novo paradigma
é fundamentado na cooperação.
A
sede administrativa funciona em uma sala simples no bairro
do Imbuí, onde mantém banco de dados, biblioteca
e mantém reuniões. O instituto edita livros,
a exemplo de “Agrofloresta para crianças – Uma
sala de aula ao ar livre” e o guia “Permacultura, o sítio
abundante – co-criando com a natureza”, de Marsha Hanzi.
Ministra cursos e vivências, como um sobre construção
de fossa séptica, nos dias 29 e 30 deste mês,
que ocorrerá em Vila de Abrantes.
Além
do Projeto de Policultura, a permacultura é praticada
em um sítio em Vilas de Abrantes no município
de Camaçari, na Bahia, onde, na localidade de Sucupira,
já existe um esboço de projeto de criação
de um centro de referência de soluções
sustentáveis, para se difundir as técnicas
de agricultura, pecuária e apicultura, entre outras.
Após o diagnóstico participativo, está
pronto o projeto do Lodo, uma localidade de Barra do Pojuca,
perto da reserva de Sapiranga, buscando-se agora os recursos
para implantação.
O
QUE É
Conceito
A
agrônoma Cinara Sanchez e o biólogo Orlando
Barros Jr dizem que cada vez que têm de definir
ou explicar o que é permeacultura, o conceito se
expande. “É uma filosofia de trabalho com a terra
e o meio ambiente, de forma geral, integrados. Aproveitar
o máximo os recursos, interligando ao máximo
os elementos: hortas, pomares, aguadas, criações”,
assinalam, recomendando para as pequenas propriedades.
Prática
Diversidade
é a palavra-chave, garante Cinara. Explica que
não há nada de novo, apenas a repetição
da agricultura como era tratada antigamente, ao invés
da que foi desenvolvida com uso de tratores e monocultura,
que exaurem o solo. “A monocultura resume-se a uma só
planta, fragilizando o ambiente e abrindo caminho às
pragas e à desertificação”, ensina.
Origem
O
conceito permacultura foi criado pelos australianos Bill
Mollinson e David Holmgren nos anos 1970: “É uma
reunião de conhecimentos de sociedades tradicionais
com técnicas inovadoras, com o objetivo de criar
uma cultura permanente , sustentável, baseada na
cooperação entre o homem e a natureza”.
De acordo com texto informativo do Instituto, “um dos
princípios fundamentais é o respeito pela
sabedoria da natureza, que desenvolveu um sistema perfeito
para cada lugar”.
SERVIÇO
Mais informações com o Instituto de Permacultura
da Bahia, pelos telefones (71) 232-4025 e (71) 461-7726
(fax) ou www.permacultura-bahia.org.br
FONTE:
http://www.atarde.com.br/materia.php3?mes=01&ano=2005&id_subcanal=23&id_materia=3144h