Júlio
Bernardes
Pesquisa desenvolve utilização de rejeitos
da produção de cerâmica vermelha na
composição do sub-leito, base e sub-base
de vias com baixo volume de tráfego, como estradas
vicinais
Telhas
com defeito de fabricação normalmente são
descartadas como entulho pelas indústrias, podendo
gerar sérios problemas ambientais. O engenheiro
João Fernando Dias pesquisou a viabilidade da utilização
dos cacos de telha para produzir camadas de pavimento
de baixo custo. Os resultados do estudo foram apresentados
em tese de doutorado defendida na Escola Politécnica
(Poli) da USP.
O
pesquisador, que é professor da Faculdade de Engenharia
Civil da Universidade Federal de Uberlândia (UFU),
conta que o resíduo é gerado na produção
de cerâmica vermelha. "As telhas defeituosas
após a queima são descartadas, sendo chamadas
de cacos de telha", diz. "O resíduo às
vezes é usado para entupir erosões, mas
grande parte é jogada fora como entulho na periferia
das cidades, deixando um passivo ambiental, embora seja
um material de alto conteúdo energético
e com potencial para reciclagem."
Dias
analisou as indústrias dos municípios mineiros
de Monte Carmelo e Ituiutaba. Para utilizar as telhas
na execução de camadas de pavimento, ele
investigou as propriedades do material. "Verificou-se
que os resíduos quebravam-se com facilidade ao
serem compactados", aponta. "Para corrigir o
problema, os resíduos foram misturados com 30%
a 50% de solo laterítico, muito comum no Brasil
e que pode ser retirado da própria região
da obra, estabilizando o material."
Pavimento
O professor ressalta que "as telhas podem ser usadas
em vias de baixo volume de tráfego, no sub-leito
do pavimento, e misturadas com solo laterítico,
na camada de sub-base e na base, acima das quais é
feito o capeamento asfaltico." A utilização
desses resíduos "é uma solução
indicada para municípios ou regiões onde
há produção de cerâmica e o
resíduo não é reaproveitado, transformando-o
em matéria prima útil", afirma.
Dados
da Associação Brasileira de Cerâmica
apontam que existem 7 mil indústrias de cerâmica
vermelha no Brasil. "A produção chega
a 64 milhões de toneladas por ano, e como as sobras
podem atingir em média 5% da produção,
são quase quarenta toneladas de resíduos
por indústria todo mês", relata Dias.
"Na região de Monte Carmelo são gerados
cerca de 1,9 quilos de cacos de telha por habitante todo
dia, material que poderia ser usado para executar 32 quilômetros
de base de pavimento por ano."
Após
comprovar os resultados do uso das telhas para pavimentos
em laboratório, o pesquisador pretende executar
um trecho de via para avaliação. "Esta
via será monitorada ao longo do tempo para verificar
o comportamento do material", diz. "Outros estudos
também estão em andamento sobre o uso dos
resíduos de cerâmica britados na produção
de concretos não-estruturais, na fabricação
de tijolos e na produção de argamassas de
assentamento de tijolos."
Fonte:
http://www.usp.br/agen/repgs/2005/pags/100.htm