Arqueologia do lixo permite estudos sobre sociedade contemporânea


Utilizando o mesmo princípio da arqueologia tradicional, pesquisador realizou escavações em aterro de Mogi das Cruzes para estudar, através do lixo, a viabilidade de se obter informações sobre a sociedade de poucos anos atrás.

Por meio de escavações em depósitos de resíduos sólidos, o engenheiro André Wagner Oliani Andrade pretende mostrar a viabilidade de se estudar comportamentos culturais, sociais e econômicos das sociedades contemporâneas, inclusive sob a ótica ambiental. O trabalho, denominado "arqueologia do lixo", é inédito na América do Sul e vem sendo realizado no aterro de Volta Fria, na cidade de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo.

"Se enterramos o lixo e, no futuro, ele será considerado um tesouro, porque não estudá-lo agora?", reflete o engenheiro, que pretende apresentar, até o fim do ano, o trabalho como tese de doutorado no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP.

Na área das escavações está instalado um laboratório onde atuam pesquisadores liderados por Andrade. O depósito de lixo, que funcionou por cerca de 15 anos, foi fechado em 2003, ano em que o projeto foi iniciado. O período estudado nas escavações é de 1995 a 2003.

No aterro foram feitas escavações de até 12 metros (m), de onde foram coletadas cerca de 1,5 tonelada de amostras. O material foi encaminhado ao laboratório, onde foi pesado, acondicionado, lavado - em telas de peneiramento para reter miudezas como sementes, clips e alfinetes, entre outros - e secado. Todo este processo, encerrado há pouco mais de duas semanas, levou um ano.

Após a secagem, o material foi classificado e, atualmente, as amostras são separadas em diversos ítens, relacionados a diferentes ramos de atividade: composição do material, tipo de papel, de plástico, madeira, metal entre outros. Outro aspecto levado em conta é o estado de conservação das amostras. "Encontramos um pedaço de bisteca, junto a um material datado de 1999, que estava quase que 'mumificado' - ainda estava vermelho", recorda Andrade. Segundo ele, as condições em que o pedaço de carne se encontrava enterrado não favoreciam a decomposição, o que permitiu a preservação.

"Neste momento, estamos elaborando um relatório com um banco de dados detalhado a respeito do material coletado, para que possamos tirar conclusões e analisar a viabilidade do estudo arqueológico", diz o engenheiro.

Geofísica
As escavações no aterro foram viabilizadas por um trabalho de mestrado desenvolvido no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, que mapeou onde seriam encontradas as maiores colunas de lixo. Assim, com um número mínimo de escavações, foi possível obter uma maior quantidade de material de pesquisa.

Segundo a geofísica Márcia Hatae, responsável pelo estudo, o método utilizado foi o Eletromagnético Indutivo (EM-34). Este sistema permite um rápido mapeamento da área através da condutividade aparente, identificando regiões onde a presença de lixo é mais marcante. "Altos valores de condutividade estão relacionados com a presença de resíduos sólidos", explica.

Márcia aponta que o próximo passo consiste em aplicar um outro método, chamado Sondagem Elétrica Vertical. Nele, é medida a resistividade dos materiais em subsuperfícies para que se identifique as diferentes estruturas e suas respectivas profundidades. "Esse método permite realizar um estudo mais detalhado, calculando a espessura da camada de lixo e a profundidade do nível da água, coisas que não conseguimos analisar com o EM-34".

Com os métodos geofísicos, a maior espessura de resíduos encontrada foi de 7,6 m. "Obtivemos uma boa aproximação, pois a espessura encontrada pelas escavações foi 7 m", afirma.

A geofísica ressalta que, no mapeamento realizado para esta pesquisa, foi observada uma região fora dos limites do aterro que apresentava altos valores de condutividade aparente e isso pode ser indício de uma contaminação proveniente dos resíduos. "Porém, para termos certeza disso, ainda é necessário realizar um estudo mais detalhado", acredita.

FONTE:
http://www.usp.br/agen/repgs/2005/pags/130.html


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