O cerrado brasileiro pode
acabar até 2030. Essa previsão é
da Conservation International do Brasil, organização
não-governamental, criada em 1987, e que atua em
mais de 30 países. Antes de começar a ser
destruída, essa vegetação ocupava
204 milhões de hectares no Brasil. Hoje, 57% da
área não existe. A organização
(que tem como objetivo conservar a biodiversidade global
do planeta) informou que desaparece, a cada minuto no
Brasil, área de cerrado equivalente a 2,6 campos
de futebol.
A
engenheira e pesquisadora Giselda Durigan, do Instituto
Florestal do Estado de São Paulo, diz que o estudo
tem fundamento: “Infelizmente, acredito nos números
divulgados.'
Apenas
1% da área do Estado de São Paulo é
formada por esse tipo de vegetação. No início
do século 20, antes da ocupação do
solo pela agropecuária, eram 14%.
Giselda
explica que o solo do cerrado sempre foi pobre, arenoso,
dificultando a atividade agrícola, ideal apenas
para sua plantações típicas, como
arbustos, gramíneas e pequenas árvores.
Tais características em vez de prejudicar ajudaram
a preservar esse hábitat durante algum tempo, até
que novas tecnologias, fertilizantes e melhoramento genético
de plantas de valor comercial, tornaram a terra, antes
improdutiva, oásis para a produção
de grãos, principalmente a soja, na maior parte
desse local. No território paulista, foram cana-de-açúcar
e laranja que mais ocuparam o novo espaço.
No
que se refere à atividade pecuária, a engenheira
do Florestal ressalva que o prejuízo é menor.
O boi consome o capim, mas este rebrota depois, mantendo
o cerrado em condições razoáveis.
“A agricultura revolve a terra e arranca as raízes
das plantas, impedindo o reaparecimento da vegetação
primitiva”, alerta a engenheira.
Áreas
pulverizadas
A
expansão da fronteira agrícola em áreas
de cerrado é autorizada legalmente, mas com reservas.
Giselda diz que o Código Florestal Federal permite
que 80% seja desmatado. Os 20% restantes, no entanto,
ficam espalhados pelo território brasileiro. “É
assim que se encontram os 43% que sobraram no País.”
O
Estado de São Paulo tem centenas dessas porções
de cerrados pulverizadas em seu território, formando
pequenas ilhas de vegetação original. A
maior delas é a Estação Ecológica
de Jataí, na cidade de Luís Antonio, a nordeste
do Estado, com aproximadamente 8 mil hectares.
Outras
áreas importantes são as estações
ecológicas de Itirapina, de Mogi-Guaçu e
de Assis. É nesta última, com 1,7 mil hectares,
que a engenheira Giselda trabalha. Todas essas áreas
de proteção são administradas pelo
Instituto Florestal, vinculado à Secretaria do
Meio Ambiente.
Compensação
e conservação
Luís
Antonio, informa a engenheira, triplicou de tamanho nos
últimos dois anos graças à lei da
compensação. Por esse dispositivo, empresas
que constroem projetos, como hidrelétricas e outros
parecidos, são obrigadas a comprar para o Estado
áreas equivalentes à devastada pela obra.
Pode ser o mesmo tipo de vegetação ou não.
“É uma das poucas medidas para preservar o cerrado,
além do Código Florestal Federal”, justifica
Giselda. Porém, o processo judicial da compensação
pode se estender por mais de 10 anos, até a decisão
da Justiça.
Em
Assis, onde há conservação, apresenta
nascentes de rios, flora e fauna diversificada, como veado-catingueiro,
quati e até anta. O local é muito visitado
por professores, profissionais e alunos interessados em
pesquisas acadêmicas. Atualmente há mais
de 20 trabalhos. Ao lado da estação de cerrado
há uma floresta com outro tipo de vegetação,
também mantida pelo instituto.
Riqueza
em solo pobre
O
cerrado é formado por árvores e arbustos
esparsos sobre gramíneas (capins). Dependendo da
natureza ou da mão do homem, pode sofrer modificação
e dividir-se em campo sujo (apenas capim), campo cerrado
(aparecem gramíneas e arbustos), cerrado (já
com árvores) e cerradão (várias árvores).
Por ser arenoso, seu solo ácido apresenta baixa
fertilidade, alta concentração de alumínio
e pouca capacidade para reter umidade.
Esta
última característica o torna importante
para a preservação de rios e de mananciais
hídricos próprios para o consumo humano.
Por não segurar a umidade, o solo permite que a
água da chuva escorra para a parte baixa, aumentando
o volume de leitos de água e de aqüíferos
no subterrâneo da terra. Ao contrário, a
floresta retém boa parte da água da chuva.
As
plantas típicas do cerrado têm importância
comercial, medicinal, alimentícia e artesanal.
Entre as frutas famosas estão o pequi, bacupari,
gabiroba, pitanga, abacaxi, araçá e maracujá.
Algumas diferenciam-se de suas iguais produzidas que nascem
em outro hábitat. A pitangueira, por exemplo, já
mostra suas frutinhas vermelhas com apenas 30 centímetros
de altura.
As
medicinais são catuaba, vara-de-cadela, barbatimão
e jalapa. Ornamentais: douradinha, jalapa, rosa-do-campo,
algodão-do-campo, cinzeiro e ipê-amarelo.
O timburi-do-cerrado é uma árvore cuja casca
pode ser usada para fazer a cortiça. A paineira
é famosa, pois seu fruto é usado para obtenção
de fibras e até para encher travesseiros. A madeira
das árvores típicas do local é transformada
em carvão. A carne-de-vaca e a sucupira-roxa, mais
nobres, são ideais para torneamento e produção
de peças pequenas, como cabos de faca ou de revólver.
Otávio
Nunes - Da Agência Imprensa Oficial
Fonte:
http://www.saopaulo.sp.gov.br/sis/lenoticia.asp?id=55981