Por:
Germano Woehl Jr.
www.ra-bugio.org.br
Não há dúvidas de que precisamos
de energia elétrica para desenvolver o País,
mas será que a única solução
para esse problema é a construção
de novas hidrelétricas? Que tal nos preocuparmos
um pouco em cuidar das hidrelétricas já
implantadas? O que está deixando os empreendedores
tão alucinados, querendo construir hidrelétricas
de qualquer jeito, em qualquer lugar, passando por cima
das leis ambientais? Seria a linha especial de financiamento
público (com juros subsidiados) do BNDES? Nesse
caso, não seria mais racional algum tipo de incentivo
que estimule a conservação da natureza,
para assim prolongar a vida útil das represas e
aumentar a capacidade de geração das hidrelétricas
já instaladas? Chegou a hora de calcularmos o valor
real dos serviços prestados por uma natureza preservada,
condição única para produção
de água em abundância e de qualidade.
Boa parte das represas das hidrelétricas em operação
está com problemas gravíssimos de assoreamento,
causado pelo acúmulo de sedimentos em conseqüência
da destruição da mata ciliar, que é
rigorosamente protegida por lei, mas, em razão
da fiscalização deficiente, o problema tem
atingido proporções preocupantes. Desmatamentos
também secam as nascentes (rebaixam o lençol
freático) e provocam alterações climáticas,
o que reduz drasticamente o volume de água nos
rios. O aumento da poluição das águas
(por sedimentos) também aumenta os custos de manutenção
das turbinas, além da redução do
tempo de vida útil. Então, não seria
muito mais racional atacarmos esses problemas, que são
relativamente simples?
A capacidade instalada das hidrelétricas no País
é superior a 120 mil MW, mas a energia gerada é
de apenas 72 mil MW. Alguém deveria explicar o
porquê dessa discrepância. O que está
faltando para atingirmos a capacidade instalada? Ou os
números estariam superestimados?
É importante que isso seja esclarecido para a sociedade,
porque as últimas áreas preservadas da já
arrasada mata Atlântica, por exemplo, estão
em jogo, correndo perigo por conta dos projetos de construção
de hidrelétricas que pipocam por todos os lugares.
Nem as belíssimas cachoeiras da serra do Mar escapam,
com as chamadas pequenas centrais hidrelétricas
(PCHs), que consistem em desviar a água das cachoeiras
por uma tubulação, aproveitando o desnível
natural do lugar.
Caso particularmente relevante é o projeto de uma
PCH na serra do Mar (protegida pela Constituição
Federal) em Corupá, no rio da Bruaca. Esse projeto,
com financiamento do BNDES, promete gerar 2 MW. Vai desviar
a água de uma cachoeira de 96 metros de altura,
que tem valor histórico para a população
local e é a mais vistosa, o cartão postal
da cidade. Mas os danos não param por aí:
vão transpor rios e desviar o Bruaca, secando seu
leito por cerca de 3 km, com outras cachoeiras menores,
trecho que corta uma área de mata atlântica
original (virgem).
Em Corupá, a natureza foi generosa, concentrando
uma abundância impressionante de belezas naturais:
rios com água cristalina, cachoeiras, paredões
rochosos e montanhas, boa parte delas ainda recobertas
com mata atlântica original. Essa exuberância
da paisagem da pequena Corupá, com 13 mil habitantes,
começou a atrair turistas e, sem nenhum financiamento
subsidiado do BNDES, investidores do setor. Começaram
a surgir hotéis, pousadas, restaurantes e infra-estrutura
nos locais a serem visitados, gerando muitos empregos.
E o turismo de Corupá é de qualidade: só
no ano passado uma operadora alemã mandou 90 turistas
diretamente para lá. Nas trilhas da reserva particular
de patrimônio natural (RPPN) Parque Ecológico
Emílio Battistella, que tem 12 belas cachoeiras,
o idioma mais comum de se ouvir é o inglês
e alemão. Portanto, temos em Corupá um potencial
extraordinário para desenvolver o turismo e, assim,
gerar riquezas, contribuindo para diversificar a economia,
que é estratégico para o País.
No entanto, a população de Corupá
foi surpreendida há pouco mais de um mês
quando o projeto PCH-Bruaca veio à tona. Tudo foi
feito sob sigilo. O projeto já estava até
com as licenças ambientais, de instalação
inclusive, concedidas pela Fundação do Meio
Ambiental (Fatma), órgão estadual, mas acabaram
sendo canceladas pelo próprio órgão,
em razão das denúncias de irregularidades.
Infelizmente, o que é óbvio para os habitantes
de Corupá ou qualquer outra pessoa sensata deste
País - de que vale mais o futuro promissor do ecoturismo
do que os 2 MW da PCH -, parece não ser para o
órgão ambiental, que está se empenhando
para conceder nova licença. Os empreendedores são
de fora. Parece até que a prospecção
dessas cachoeiras é feita nos fôlderes e
anúncios das agências de turismo (o que,
daqui em diante, pode levar muitos municípios a
terem que esconder suas cachoeiras).
Com certeza, perdemos muitas PCHs-Bruaca todos os anos
em decorrência de desmatamentos, sobretudo nas margens
dos rios, que poderiam ser drasticamente reduzidos com
ações simples de fiscalização.
Da mesma forma, as águas dos rios cada vez mais
sujas aumentam também a freqüência de
manutenção das turbinas (provocando desligamentos
constantes) e reduzem seu tempo de vida útil. A
contaminação biológica de nossos
rios, como é o caso do mexilhão, também
engole várias PCHs-Bruaca. Campanhas para evitar
o desperdício de energia também poderiam
ser implementadas.
Com isso, estimam os especialistas, poderíamos
reduzir o consumo em até 20%, energia equivalente
a milhares de PCHs-Bruaca. Há ainda as fontes alternativas
de energia limpa, bastante promissoras. Enfim, temos alternativas
viáveis para resolver o problema da oferta de energia;
o mesmo não acontecerá com a destruição
de nosso valioso patrimônio natural, que deixará
as gerações futuras sem alternativas.
FONTE: http://www.an.com.br/2005/fev/25/0opi.htm