A
corrosão de materiais metálicos expostos
à umidade e a materiais orgânicos é
um fenômeno conhecido há muito tempo. Estudos
na área de Química Ambiental passam agora
a estudar o fenômeno inverso, ou seja, o uso de
metais para modificar ou degradar poluentes orgânicos.
'É uma abordagem recente, que ganhou fôlego
nos últimos dez anos', afirma o professor Renato
Freire, do Instituto de Química (IQ) da USP, que
comanda uma linha de pesquisa sobre o uso de ferro para
tratamento de águas contaminadas.
Segundo
Freire, trata-se de uma alternativa rápida, eficiente
e de baixo custo. O ferro utilizado pode ser proveniente
de resíduos de metalúrgicas, o que resulta
numa dupla contribuição para a redução
do impacto ambiental. 'Ao desencadear uma reação
química, o ferro pode fornecer um 'atalho' para
o processo tradicional de degradação, tornando-o
mais rápido, ou converter as substâncias
em sais, que têm menor impacto sobre o meio ambiente',
explica o professor. 'Poluentes orgânicos, como
os liberados pelas indústrias têxtil e papeleira,
costumam ser muito tóxicos, com grande demanda
de oxigênio e baixa biodegradabilidade.'
O
uso de ferro é eficiente quando aplicado, principalmente,
a compostos orgânicos organoclorados (presentes
em pesticidas e em vários insumos químicos,
farmacêuticos e agrícolas) e nitrogenados
(presentes em corantes, pesticidas, explosivos). Aplicando
pó de ferro, pesquisadores do Grupo de Pesquisa
em Química Ambiental, do IQ, conseguiram descolorir
completamente, em apenas 15 minutos, água contaminada
com corantes em grande concentração. 'Dois
gramas de ferro foram suficientes para tratar um litro
de água, sendo que os métodos tradicionais
podem demandar horas para atingir a mesma eficiência
e ainda necessitam da adição de reagentes
com maior custo', aponta Freire.
Outras
vantagens
O
processo de tratamento de efluentes mais usado hoje em
dia é o de remediação físico-química,
na qual há a separação do elemento
poluente por meios como absorção e precipitação
para, em seguida, submetê-lo à ação
de microorganismos capazes de degradá-lo. 'O problema
é que muitos compostos não são efetivamente
degradados pelos microorganismos, o que gera um novo problema
a respeito da disposição final dessa biomassa
contaminada', explica Freire. 'O uso de ferro fornece
uma nova possibilidade para o tratamento de água,
pois é capaz de converter as espécies poluentes
em outras.'
Além
disso, alerta o professor, o crescente desenvolvimento
científico e tecnológico torna necessário
desenvolver novas formas de tratamento. O uso de microorganismos
é ineficaz, por exemplo, quando aplicado a efluentes
contaminados com medicamentos antibióticos e defensivos
agrícolas, cuja função é justamente
destruir microorganismos.
'O
grande desafio para os químicos ambientais é
que não há método universal de tratamento.
É preciso verificar, para cada situação
específica, qual a melhor forma de remediação',
conclui Freire, que atualmente orienta um mestrado que
estuda a possibilidade de se aplicar o ferro no tratamento
de efluentes contaminados com resíduos do explosivo
TNT.
Agência
USP
C.A.
Fonte:
http://www.saopaulo.sp.gov.br/sis/lenoticia.asp?id=67028