Por
Eduardo Geraque
Agência FAPESP - Quente, seco e perigoso do ponto
de vista ambiental. A onda de calor que causou milhares
de mortes na Europa em 2003 teve conseqüências
também terríveis para o crescimento das
formações vegetais revela um estudo publicado
na edição desta quinta-feira (22) da revista
Nature.
Baseados em modelos matemáticos que analisam as
relações entre o clima e a biosfera, além
de imagens de satélites e em dados sobre os fluxos
de carbono regionais, os cientistas constataram que o
crescimento das vegetações temperadas européias
foi 30% menor do que em anos anteriores. Pior do que isso.
Em vez de funcionar como sorvedouros de carbono, as plantas
viraram fonte. Isso, se repetido, poderá potencializar
ainda mais o aquecimento global em termos regionais.
“Ainda é muito cedo para fazer generalizações
para o futuro, mesmo ficando restrito aos ambientes temperados”,
disse Philippe Cias (que assinou o texto ao lado de vários
colaboradores), do Laboratório de Ciências
do Clima e Meio Ambiente da França, principal autor
do estudo, à Agência FAPESP. Mesmo assim,
o pesquisador lembra que os modelos climáticos
feitos para a Europa até o momento mostram dados
preocupantes.
“A expectativa é que novas ondas de calor, como
as de 2003, ocorram novamente na Europa, na mesma intensidade,
até 2025”, explica o pesquisador francês.
A principal causa da diminuição na produção
primária das plantas no ano retrasado, segundo
as análises, é de origem climática.
O déficit de chuvas e as altas temperaturas (algumas
regiões da França registraram 40º C)
foram os grandes responsáveis pelo baixo crescimento.
Quando lançado em uma perspectiva histórica,
os dados observados pela equipe européia revelam
outra característica do episódio de 2003,
que funcionou como um laboratório a céu
aberto para os pesquisadores. A redução
na produtividade primária não teve precedentes
em todo o século passado.
Em comentário na sessão “News & views”,
na mesma edição da Nature, Dennis Baldocchi,
da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos
Estados Unidos, aponta outro desdobramento importante
da descoberta. “O estudo mostra que episódios quentes
e secos como o de 2003 podem impedir que o continente
consiga cumprir as exigências do Protocolo de Kyoto,
apenas pela redução da queima de combustível
fóssil ou o controle de outras fontes terrestres
de carbono”, disse.
O artigo Europe-wide reduction in primary productivity
caused by the heat and drought in 2003 pode ser lido no
site da revista Nature, em www.nature.com.
Fonte:
http://www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro.php?data[id_materia_boletim]=4378