Extratos promissores


Dissertação de mestrado utiliza com sucesso substâncias extraídas da pindaíba – árvore encontrada no Brasil – para combater protozoários causadores da malária e da doença de Chagas

JÚLIO BERNARDES, DA AGÊNCIA USP DE NOTÍCIAS, E IZABEL LEÃO

As folhas da pindaíba, árvore encontrada desde Mato Grosso até o Rio Grande do Sul, têm ação comprovada na eliminação dos protozoários causadores da malária e da doença de Chagas, apontada em testes in vitro realizados pela farmacêutica Sônia Valéria Bonotto. Os frutos da espécie têm pouca polpa, por isso se diz que uma pessoa “está na pindaíba” quando se sustenta com recursos escassos.Em dissertação de mestrado apresentada na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, Sônia fez a descrição botânica da Duguetia lanceolata (nome científico da pindaíba) e estudou as atividades químicas das folhas. “A árvore pertence ao gênero Annonaceae, o mesmo da graviola e da pinha, espécies ricas em alcalóides do tipo isoquiolínicos, testados em laboratório contra algumas protozooses, como a malária e a leishmaniose”, destaca. O trabalho foi orientado por Dominique Fischer, professora do Departamento de Farmácia da FCF.

Sônia experimentou a ação do extrato hidroalcoólico da folha da pindaíba nos protozoários Plasmodium falciparum (malária), Trypanosoma cruzi (doença de Chagas) e Leishmania chagasi (leishmaniose). “O extrato teve atividade in vitro, ou seja, inibiu o crescimento e matou os microorganismos, nos casos do Plasmodium e do Trypanosoma”, relata. “Os resultados mais promissores foram obtidos com o protozoário da doença de Chagas, no qual a redução na sobrevida foi semelhante à do benznidazol, usado como fármaco de referência.
Moléculas

Quando foi testado apenas um alcalóide isolado do extrato da folha, não houve atividade inibitória no Trypanosoma cruzi. “Provavelmente ele só possui esse efeito se combinado com moléculas de outras substâncias do extrato total”, explica. “O próximo passo é isolar essas moléculas para sintetizá-las em laboratório e testar sua utilização como princípio ativo de medicamentos.”

As amostras de pindaíba foram coletadas em uma reserva ambiental de Mogi Mirim, no interior de São Paulo. “A árvore é de médio porte, podendo chegar a 20 metros de altura. As folhas adultas têm em média de 10 a 15 centímetros de comprimento e os frutos são semelhantes a pinhas, só que mais avermelhados”, descreve Sônia. “Embora seja uma espécie típica do cerrado, pode ser encontrada desde Mato Grosso até o Rio Grande do Sul.”

Sônia alerta que a árvore corre risco de extinção. “Como a madeira tem pouco valor comercial e os frutos não são aproveitados, a árvore não é cultivada, sendo encontrada principalmente em reservas ecológicas”, relata. “Conhecer as características botânicas e as propriedades químicas da espécie são um auxílio importante no processo de preservação.”
Etapas

A pesquisa foi desenvolvida em várias etapas e contou com financiamento da Fapesp, do CNPq e do Hospital das Clínicas. Ela movimentou uma equipe multidisciplinar, que incluiu a colaboração de diferentes instituições de ensino e pesquisa nacionais, com duração aproximada de dois anos.

A primeira etapa aconteceu no Departamento de Farmácia da FCF, onde foi realizado o estudo botânico e químico das folhas da pindaíba. O estudo químico contou com a colaboração do professor Paulo Moreno, do Instituto de Química da USP, e do pesquisador Carlos Alberto Brandt. Em paralelo, foi desenvolvida a avaliação da atividade antimalárica in vitro sobre o Plasmodium falciparum no laboratório de Malária da Superintendência e Controle de Endemias (Sucen), sob a supervisão da pesquisadora Silvia di Santi.

Na etapa seguinte, foi pesquisada a atividade antileishmania e antichagásica da Duguetia lanceolata, realizada no Instituto de Medicina Tropical da USP, que contou com a colaboração do professor Heitor Franco de Andrade e do médico André Tempone, atualmente pesquisador científico do Laboratório de Parasitologia da Divisão de Biologia Médica do Instituto Adolfo Lutz.

Para que a descoberta fomente o interesse de laboratórios farmacêuticos para possível produção em larga escala, é preciso primeiro constatar resultados positivos nos modelos experimentais animais, explica a professora Dominique. “Em caso de isolamento dos compostos responsáveis pela atividade, poderemos pensar na produção em maior escala das ‘moléculas-protótipo’, que se mostrarem as mais promissoras”, diz a professora. “Com o auxílio do Laboratório de Química Farmacêutica do Departamento de Farmácia (FCF) da USP, poderemos submetê-las à modelagem molecular, na busca de sua adequação, no que se refere à ação farmacológica e à redução de efeitos indesejáveis.”

Dominique lembra que as doenças parasitárias continuam causando sérias conseqüências socioeconômicas para os países onde são endêmicas, como o Brasil, provocando mortes, invalidez e sofrimento. Ao mesmo tempo, verifica-se que a medicação empregada nas leishmanioses e na doença de Chagas tem seu uso limitado, por causa dos efeitos colaterais e tóxicos, pela ineficácia, pela forma de administração e pelo custo. Justamente por isso são necessários investimentos e a introdução de novos fármacos para o tratamento dessas doenças. “Dessa forma, uma fonte importante de novas moléculas se encontra na natureza, sendo o Brasil detentor de uma grande biodiversidade, cujo aproveitamento de forma sustentável deve ser considerado, em última análise, para a obtenção de novos medicamentos, que consigam, inclusive, superar a resistência desenvolvida pelos protozoários às terapias convencionais”, ressalta Dominique.

FONTE:
http://www.usp.br/jorusp/arquivo/2006/jusp752/pag08.htm


<< Voltar às Notícias


Sugestões e comentários sobre este portal: rosmari@floraefauna.com
Copyright © 2004 - 2007 - Flora e Fauna. Todos os direitos reservados.