Em
três anos de coleta, pesquisadores do IQ descobriram
dez tipos de fungos bioluminescentes em São Paulo
e Mato Grosso do Sul. Espécie usada em testes cresce
em casca de árvores vivas.
Júlio Bernardes
Dez
novas espécies de fungos bioluminescentes coletadas
em São Paulo e Mato Grosso do Sul foram descobertas
pelo grupo do professor Cassius Vinicius Stevani, do Instituto
de Química (IQ) da USP. Uma delas, Gerronema viridilucens,
foi usada com êxito para avaliar a toxicidade de
metais e compostos orgânicos. No futuro, o fungo
servirá como biossensor em análises toxicológicas
de solos contaminados.
Stevani
relata que em todo o mundo são conhecidas apenas
42 espécies de fungos que emitem luz. "A pesquisa
começou há três anos, no Parque Estadual
Turístico do Alto Ribeira, em Iporanga (SP), a
partir do relato de moradores da região ao biólogo
João de Godoy, do Instituto de Botânica (IBot)
da Secretaria Estadual do Meio Ambiente de São
Paulo", conta.
Posteriormente,
a coleta foi estendida a uma área de mata ciliar
em Costa Rica (MS). "O Gerronema viridilucens já
foi identificado e publicado, seis espécies serão
descritas num artigo científico e três precisam
de mais amostras para avaliação taxonômica."
O
professor explica que a espécie é encontrada
na casca de árvores Eugenia fluminensis, da família
das mirtáceas, a mesma da pitangueira e jabuticabeira.
"Este fungo cresce só em árvores vivas
e emite luz na parte inferior do píleo ('chapéu'
do cogumelo), ou seja, onde estão as lamelas, produtoras
de esporos", explica.
Biossensor
Para usar o fungo em análises toxicológicas,
foram necessários dois anos para obter culturas
da espécie em laboratório, com ajuda da
professora Marina Capelari, do IBot, que a identificou
com Dennis Desjardin, professor da San Francisco State
University (EUA).
Segundo
Stevani, o fungo em cultura emite uma quantidade de luz
que pode ser medida. "Este nível é
comparado com a emissão 24 horas após a
placa com a cultura ser exposta a diferentes concentrações
de um agente tóxico", explica. A aplicação
do poluente diminui a intensidade da luz. "Com os
dados, é calculado o parâmetro toxicológico
EC50, que aponta a quantidade do composto necessária
para reduzir a luminosidade do fungo à metade.
Quanto menor o valor de EC50, maior a toxicidade. "
No
IQ, o Gerronema viridilucens foi usado como biossensor
da toxicidade de cádmio, cobre e pentaclorofenol.
"Outros metais e compostos orgânicos serão
testados para dar uma visão geral sobre sua toxicidade
nos fungos", planeja o professor. "Depois dos
testes com substâncias puras, serão usadas
amostras de solo contaminado, e no futuro placas com o
fungo servirão para melhorar e planejar novos fungicidas."
O
grupo de Stevani conta com os alunos Luiz Fernando Mendes
(mestrado) e Giovanna Testoni (iniciação
científica), que desenvolvem os biossensores. O
mecanismo químico da bioluminescência dos
fungos, que ainda é desconhecido, é estudado
por Anderson de Oliveira (doutorado) e Karina Martins
(iniciação científica).
O
projeto é financiado pela Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
(Fapesp) e conta ainda com a ajuda dos professores Marilene
Demasi (Instituto Butantã), Silvio Prada e Patricía
Sartorelli (UNIFIEO). "A coleta é difícil,
pois só pode ser feita à noite e apenas
entre dezembro e março, durante a lua nova",
ressalta o professor. "O corpo de frutificação
dura de 24 a 48 horas, perdendo luminosidade e servindo
de alimento a caramujos e larvas de moscas."
FONTE:
http://www.usp.br/agen/repgs/2005/pags/160.htm