Área reflorestada e limpa atrai turistas para Baía de Guanabara


Às margens da bela e poluída Baía de Guanabara, a Ponta do Araçá virou ponto turístico desde que seu único morador resolveu cuidar da área. Moisés Vieira Ramos - um cearense de 42 anos que há dez aportou pelas bandas - limpou todo o terreno e plantou diversas árvores frutíferas no local. O novo ambiente estimulou o turismo entre os moradores das favelas, bairros e faculdades vizinhas.

“Pretendo fazer mais se tiver quem doe mudas. As frutas servirão para os pássaros e para todos nós”, diz Moisés, que plantou ameixa, cajá, coqueiro, mamão, goiaba e manga. Sem vizinhos, ele cuida de tudo sozinho. “A idéia não é ter fins lucrativos, mas preservar e cuidar. Minha preocupação toda é essa”, afirma o comerciante, que vive do que fatura num pequeno bar que mantém no Araçá.

Quem passa na Linha Vermelha de carro não imagina o que existe ali debaixo. O lugar fica meio escondido. Não há placas, nem nomes de rua. Mas não é difícil chegar, pegando a entrada da Ilha do Governador, na Avenida Brasil.

Sem vizinhos, é ele quem cuida de tudo por conta própria. “A idéia aqui não é com fins lucrativos, mas preservar e cuidar. Minha preocupação toda é essa”, afirma Moisés, que vive do que fatura num pequeno bar que mantém no Araçá.

Parada obrigatória

O cearense fez uma transformação radical na paisagem local quando trocou o aluguel na Baixa do Sapateiro, no Complexo da Maré, pela casa própria no Araçá. Os amigos de Moisés foram os primeiros a visitar a pequena ponta de terra à beira-mar - na verdade, um pequeno ancoradouro para barcos e lanchas de pequeno e médio porte.

Moisés transformou a região em parada obrigatória para quem segue um roteiro turístico marítimo que inclui ângulos raros do Rio, como a vista do Pão de Acúcar do meio da baía. O passeio geralmente é restrito aos moradores de comunidades do Complexo da Maré, como o Parque União, e de bairros vizinhos. Estudantes da UFRJ, na Ilha do Fundão, também adotaram o lugar.

Em busca do verde

A propaganda é feita no boca-a-boca. E funciona. Tem dias, no verão, em que mais de 120 pessoas passam por ali: gente em busca de passeios marítimos, da tranqüilidade e do verde locais.

São donos de barco, visitantes para o almoço à sombra das árvores e pescadores de fim de semana atrás de peixes e camarões - que abstraem a poluição da baía e aproveitam a bela paisagem. “Às vezes saem até oito embarcações de uma só vez, cada uma com sete, oito pessoas”, conta Moisés.
Como fica na 'largada' dos barcos, o comerciante se beneficia do movimento dos turistas em busca de embarcações para percorrer a baía.

O itinerário turístico tem algumas variações: pegando uma reta, o barco dá em frente à ponte Rio-Niterói. Dali, uns seguem para a Ilha de Paquetá, outros vão até os pés do Pão de Açúcar. Barcos maiores chegam a entrar em mar aberto e navegar até Copacabana.

“Um dos passeios preferidos do pessoal é ir até a Ilha de Jurubaíba, próximo à Paquetá. Lá pode-se almoçar, comer peixe frito na hora. No fim do ano, teve gente que queria ver de perto os transatlânticos ancorados em Copacabana por causa do Réveillon”, explica Moisés.

“Os universitários do Fundão adoram vir até aqui. Vêm comer o peixe e o camarão daqui”, fala Moisés, orgulhoso do espaço que procura manter cada vez mais verde e impecável.

Turistas nordestinos e forró

Os visitantes aprovam. O comerciante José Paulo Sebastião da Silva, 36 anos, dono de barco há seis, é habituê. “Não tem coisa melhor que esse pedacinho tropical. A Ponta do Araçá é uma higiene mental pra quem gosta de curtir a natureza”, diz.

O aposentado e pescador Heitor Rodrigues, 64 anos, freqüenta há dez anos: "Trago a patroa e a família para almoçar”, conta.

O Araçá tem sotaque nordestino, por conta dos moradores do Parque União e de comunidades vizinhas. Não é de se estranhar que o ritmo por ali seja o forró, saindo do aparelho de som de Moisés.

A presidente da Associação de Moradores do Parque União, Elisabete da Silva, 39 anos, é uma que sempre aparece. “Gosto do passeio de barco até a ponte Rio-Niterói. Na verdade, gosto de tudo. Sem falar na comidinha, que é uma delícia”, elogia.

Culpa é da tsunami

O comerciante Paulo Tavares, que aos 36 anos é proprietário de loja de discos na mesma comunidade, concorda. “É um paraíso. Venho há dois anos porque tenho uma lanchinha em que passeio com a família e os amigos”, fala. O pescador Ademir Lima de Deus, 56 anos, lembra que o chuveiro dali faz o maior sucesso. "Tem até apelido: Agamenon de Almeida”, conta. O motivo? Uma brincadeira de Moisés com o presidente da feira nordestina de São Cristóvão. “É pelo tamanho da cabeça dele”, ri Ademir.

Dono de um barco com capacidade para seis passageiros e um tripulante, Moisés só sai para pescar. “Para lazer é complicado porque o barco é pequeno.” O resultado da pesca é vendido ali mesmo entre os freqüentadores do Araçá.
Pescador amador, o auxiliar de limpeza Davi Paes de Oliveira, de 25 anos, costuma ir com Moisés. “Às vezes saímos às 14h de um dia e só voltamos às 6h do outro. Vamos muito a Tubiacanga, do outro lado da Ilha do Governador. Em época de camarão, já conseguimos matar até 40 kg numa noite”, conta. Davi virou freguês do lugar, também dá uma força no atendimento e na limpeza do local.

Fartura que Moisés diz ter sido afetada. “Essa ressaca lá fora (referindo-se às ondas gigantes que destruíram praias da Tailândia, Sri Lanka e Indonésia) afetou aqui também. Não tem dado nem 5kg de peixe. A cada dia, entram menos na baía”, reclama.

Aluguel de barcos

Entre embarcações de pesca, particulares e lanchas, há cerca de 60 ancoradas no pequeno atracadouro ou na areia. A maioria pode ser alugada por valores entre R$ 100 e R$ 400.

O passeio de barco começa cedo. Quem quiser, tem que chegar na Ponta do Araçá no máximo até 8h30. “Às 15h é preciso estar de volta. Em geral, os barcos são pequenos, e é preciso evitar os temporais que costumam cair principalmente à tarde no verão”, explica Moisés.

Os proprietários das embarcações preferem não arriscar e voltar cedo. Segundo Moisés, todos procuram estar com o equipamento em ordem. “A fiscalização da Capitania dos Portos tem sido rigorosa”, diz.

Na maioria das vezes, a volta do mar não significa o fim do passeio. O almoço, a cargo de Clara de Assis de Aragão Ramos, 38 anos, mulher de Moisés, sai a R$ 15 (para duas pessoas) e é farto e variado. “Servimos galo com batatas coradas, baião de dois, peixe frito, ova de peixe frito, cabrito, porções de camarão a R$ 20”, lista o cardápio.

Peixe foge da poluição

Há seis meses, o comerciante Acássio Pereira Gonçalves, 50 anos, escolheu a Ponta do Araçá para ancorar por considerar o lugar “familiar”. Pescador amador desde os 15 anos, é sócio de um barco para dez passageiros. “Sempre venho aqui a passeio. Nosso barco levou 15 anos para ser construído e pode viajar toda a costa brasileira” diz.

Quando o cearense Moisés e a família foram morar no Araçá, tudo ali era bem diferente. “Tinha muito lixo e mato, estava abandonado e era um lugar perigoso. Como estava desempregado, a salvação foi meu barco, em que passei a pescar para sustentar a família”, lembra.

Os donos de barcos colaboram tanto para a manutenção do lugar como para o pagamento do vigia, que à noite toma conta das embarcações ancoradas. O lixo que flutua na baía e chega até ali é retirado por Moisés e recolhido pela Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana).

“Vem desde carcaça de geladeira a sofá velho, latão de ferro e até tubo de televisão. O que dá pra vender, eu vendo. Faturo um dinheirinho e ainda preservo o local. É um crime quem faz isso”, diz.

Suas queixas têm razão de ser. Hoje só se pega peixe depois da ponte. “Conforme a água suja vai chegando, o peixe vai se afastando, não entra mais na baía. E a tendência é piorar”, reclama. Moisés diz ainda que em dias de chuva forte, desce lixo pelos rios e pequenos canais que cortam as comunidades da Maré e deságuam na baía.

“Fica tudo cheio de gigoga. Elas descem junto com o lixo e tudo isso impede os pescadores de irem para o mar. Os peixes mais nobres também se afastam da baía e quem não tem embarcação grande para enfrentar mar aberto não pega nada”, explica.

Mas nem mesmo esses problemas afastam os freqüentadores. O comerciante Dionísio Rosini, 45 anos, dono de uma drogaria no Parque União, voltou ao Araçá depois de muitos anos: “Passei minha infância aqui. Fiquei surpreso por vir aqui pela primeira vez em tanto tempo. Adorei e vou voltar mais, trazendo a família e os amigos”, conclui.


FONTE: http://www.cidadania.org.br/conteudo.asp?conteudo_id=4587


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