Depois
de mais de seis horas de discussão, o Conselho
Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) aprovou, em
17 de janeiro último, uma nota técnica da
Agência Nacional de Águas (ANA) que afirma
haver disponibilidade suficiente de água para o
projeto de transposição do Velho Chico.
O placar foi de 36 votos favoráveis, dois contrários
e dez abstenções. Dos 57 integrantes do
Conselho, 29 são representantes do próprio
governo.
Em 30 de novembro de 2004, um mandado de segurança
concedido ao Ministério Público Federal
e ao Ministério Público do Distrito Federal
e Territórios havia suspendido a reunião
do CNRH na qual seria votada a transposição
ou não do Velho Chico.
Em outubro do ano passado, o Comitê da Bacia Hidrográfica
do rio São Francisco (CBHSF) havia vetado o uso
das águas para atividades econômicas fora
dos limites da bacia – exatamente o que o projeto de transposição
pretende fazer. O comitê tem a atribuição
de elaborar o Plano de Recursos Hídricos da bacia
e é formado por usuários do rio, representantes
de entidades civis, dos governos federal, estaduais e
municípios da região.
A partir daí, o governo vinha fazendo um grande
esforço para transferir a decisão sobre
o problema para o CNRH, onde tem ampla maioria, e conseguiu.
“Em seu discurso na Conferência Nacional do Meio
Ambiente, no final de 2003, o presidente Lula disse que
seu governo ia ouvir toda a sociedade. Parece que o presidente
ouve todo mundo mas só escuta quem ele quer”, avalia
Adriana Ramos, coordenadora do Programa de Política
e Direito Socioambiental (PPDS) do ISA.
A decisão do CNRH motivou a Frente Nacional de
Defesa do Rio São Francisco e Contra a Transposição,
movimento que congrega 25 organizações da
sociedade civil dos estados que serão afetados
pelo projeto, a entrar com ação judicial
pelo fato de o governo ter apressado o debate no CNRH,
impondo regime de urgência à votação
sobre o tema e impedindo que ele fosse examinado pelas
câmaras técnicas do órgão.
A Frente é integrada também pelo próprio
CBHSF, por sindicatos, associações, ministérios
públicos estaduais e assembléias legislativas.
A idéia é apresentar dezenas de ações
populares contra a decisão do CNRH. A seção
de Sergipe da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SE) e
o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura da Bahia
(CREA-BA) já estão encaminhando suas petições.
“Não que o Conselho não possa analisar o
tema, mas ele não pode fazer isso dessa forma apressada,
atendendo a uma decisão política que já
estava tomada. Isso só enfraquece o Sistema Nacional
de Recursos Hídricos (SNRH)”, acusa Renato Cunha,
do Grupo Ambientalista da Bahia (Gambá). Ele considera
que as oito audiências previstas para instruir o
licenciamento ambiental também foram marcadas precipitadamente.
“A comunidade não tem o tempo necessário
para se expressar e o Estudo de Impacto Ambiental (EIA-RIMA)
tem falhas gritantes”.
Governo assume procedimento arriscado
O Ministério da Integração Nacional
(MIN), que coordena a obra da transposição,
já avisou que vai licitá-la antes da concessão
da licença ambiental, supostamente para ganhar
tempo. A antecipação vai significar mais
pressão política sobre o Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis
(Ibama) e ameaça atropelar o processo de licenciamento.
O MIN pretende publicar o edital de licitação
o mais rápido possível e iniciar a obra
em abril próximo, pois espera que o licenciamento
esteja terminado em março.
Funcionários da área ambiental do governo
admitem que licitar o projeto antes do licenciamento é
um procedimento arriscado uma vez que não se pode
ter certeza absoluta, a priori, das conseqüências
para o meio ambiente provocadas por uma obra dessa magnitude.
“Não vai haver nenhum licenciamento ‘a toque de
caixa’ em fevereiro ou em qualquer data, que signifique
não resolver adequadamente todas as equações
que precisam ser resolvidas no âmbito do licenciamento”,
garantiu a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, durante
a reunião do CNRH. Ela fez questão de frisar
que a responsabilidade de sua pasta sobre o projeto refere-se
exclusivamente à questão da água
e da autorização ambiental. “Problemas de
oportunidade econômica devem ser respondidos pelo
empreendedor da obra [o MIN]”.
O diretor de Licenciamento e Qualidade Ambiental do Ibama,
Nilvo Luiz Alves da Silva, assegura que não haverá
antecipação de prazos e confirma que o processo
de licenciamento da transposição é
o mais complexo já realizado no País. “Existem
muitas incertezas em relação a esse projeto”.
Projeto vai beneficiar agronegócio de exportação
A transposição do rio São Francisco
vai beneficiar principalmente a agricultura de exportação
de alguns estados, o que desmonta o argumento de que o
projeto servirá para matar a sede da população
rural pobre do semi-árido nordestino. A obra se
divide em dois grandes canais principais. O chamado Eixo
Norte atenderá o Ceará, Rio Grande do Norte
e Paraíba e terá uma área construída
de 402 km. O Eixo Leste seguirá até a Paraíba
e Pernambuco, com 220 km. É bom lembrar que os
estados de Minas Gerais e Bahia são oficialmente
contra o projeto.
Segundo o projeto do governo, 63% da vazão média
de água da transposição será
destinada à criação de camarão
ou à agricultura irrigada para exportação,
principalmente no Ceará e o Rio Grande do Norte.
O restante vai abastecer populações urbanas,
e não comunidades sertanejas carentes. O custo
total estimado da obra é de US$ 1,5 bilhão
ou cerca de R$ 4, 3 bilhões de reais.
Em entrevista publicada recentemente, o ambientalista
e consultor Henrique Cortez, da rede Articulação
do Semi-Árido Brasileiro (ASA), afirmou que, dos
26 m3/s (metros cúbicos por segundo) de vazão
mínima que serão transpostos, 5 m3/s irão
para o Rio Grande do Norte e Paraíba e 21 m3/s
chegarão ao Ceará, principal reduto eleitoral
do ministro da Integração Nacional, Ciro
Gomes.
“O governo diz que a transposição corresponde
a um projeto regional de desenvolvimento sustentável
para todo o Nordeste, mas parece que apenas alguns estados
foram escolhidos para se desenvolver”, denuncia Marcelo
Asfora, professor da Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE) e coordenador da Câmara Técnica de
Outorga e Cobrança do CBHSF. “Já com o sistema
em operação, cerca de 85% do custo da água
será pago pelo consumidor urbano”, informa.
Asfora contesta ainda a falta de água em várias
das regiões que serão beneficiadas pela
transposição e explica que existem comunidades
a poucos quilômetros das margens do rio com falta
de água. “Na verdade, o que temos é um problema
de acesso e de gestão da água, falta infra-estrutura,
inclusive dentro da própria bacia”.
Os setores contrários à transposição
afirmam que é muito mais barato e urgente um projeto
de desenvolvimento sustentável para a região,
que contemple, prioritariamente, a revitalização
da bacia do São Francisco e não a transposição.
Ambientalistas e técnicos denunciam, por exemplo,
a falta de investimentos para projetos de irrigação
para pequenos agricultores e trabalhadores rurais às
margens do São Francisco. Nesse contexto, levar
a água do rio para fora da bacia e para atender
uma prioridade secundária – como é o caso
da agricultura de grande escala – seria um contra-senso.
Oswaldo Braga de Souza
FONTE: http://www.cidadania.org.br/conteudo.asp?conteudo_id=4579