Vida
de jurado não é fácil. E o júri
do VI Festival Internacional de Cinema e Vídeo
Ambiental (FICA) realizado na primeira semana de junho
na Cidade de Goiás – antiga capital do Estado –
ralou um bocado. Depois de assistir a 29 filmes, documentários
e vídeos, em três dias consecutivos de sessões
que duraram até 8 horas com apenas um intervalinho
de 15 minutos, o júri teve ao menos a satisfação
de saborear uma ótima safra de produções
audiovisuais de várias partes do planeta, comprometidas
com um mundo mais justo e sustentável. Resumindo:
a maratona valeu a pena.
O prestígio do Festival – o mais importante da
América Latina – e os R$ 240 mil em prêmios
transformam a terra de Cora Coralina, a poetisa do Cerrado,
numa babel cultural e ecológica, para onde convergem
todos os idealistas que acreditam que um novo mundo é
possível. Além dos filmes – exibidos gratuitamente
nos dois cinemas da cidade –, foram oferecidas oficinas
de direção, roteiro, fotografia, entre outros
assuntos ligados à sétima arte, como a concorrida
oficina sobre "Cinema Ambiental e Espiritualidade",
em que o padre Marcelo Barros sugeriu "caminhos para
melhor aproveitar filmes como instrumentos de aprofundamento
da espiritualidade ecumênica". Tem de tudo
no FICA.
Na Mostra Competitiva, o vencedor na categoria séries
televisivas foi o brasileiro "Memórias do
Meio Ambiente", de Anna Terra e Ricardo Carvalho,
que destaca a vida e a obra de dez ambientalistas notáveis
do Brasil. Os depoimentos em primeira pessoa resgatam
a história do movimento ambientalista brasileiro
contado por quem viveu - e sofreu - a amarga experiência
de lutar em favor da ecologia e da sustentabilidade quando
isso era algo no mínimo excêntrico.
Dentre as produções goianas, o destaque
foi o documentário "Roque Pereira: Mobiliário
Eco-Sustentável", de Kim Ir Sem, que mostra
a trajetória de Roque, um moveleiro que descobriu
nas madeiras velhas, tortas, desprezadas pela indústria
tradicional de móveis, uma matéria-prima
de excelente qualidade. É impressionante como Roque
Pereira transforma galhos e troncos retorcidos em verdadeiras
obras de arte.
O vencedor na categoria curta-metragem foi a produção
alemã "100% algodão – Made in Índia",
de Inge Altemeier, que denuncia o uso de agrotóxicos
banidos nos países ricos nas lavouras de algodão
indianas, prejudicando a saúde dos agricultores
e a qualidade das águas. O filme mostra que os
tecidos fabricados a baixíssimo custo a partir
desse algodão, e que são exportados para
a Europa, ainda contêm resquícios de agrotóxicos
que podem causar problemas à saúde dos consumidores.
O melhor média-metragem foi "La Loi de la
Jungle" (A Lei da Selva), da França, dirigido
por Philippe Lafaix, um registro impressionante da guerra
silenciosa travada nas selvas da Guiana Francesa, onde
a disputa pelos melhores garimpos de ouro tem provocado
morte, destruição e um derrame assustador
de toneladas de mercúrio nos rios da região.
Ao receber o Prêmio, Phillipe agradeceu aos brasileiros
por permitirem que ele exibisse um filme proibido em solo
francês, e que denuncia a omissão daquele
país em relação ao conflito. A surpresa
fica por conta dos inúmeros brasileiros que tentam
a sorte na Guiana e acabam sendo torturados e mortos pela
máfia local.
"Life Running out of Control" (Vida Seguindo
Fora de Controle), dos alemães Bertram Verhaag
e Gabriele Kröber, foi o vencedor na categoria longa-metragem,
denunciando o impacto das sementes geneticamente modificadas
sobre o mercado mundial de alimentos. O filme revela o
trabalho de organizações civis que lutam
em favor da diversidade biológica das sementes
naturais, que estão desaparecendo do mercado graças
à ação de 5 ou 6 grandes grupos do
setor de alimentos que otimizam seus lucros disseminando
o uso de transgênicos.
E o grande vencedor do Prêmio Cora Coralina – no
valor de R$ 50 mil – foi a produção sueca
"Surplus", um filme instigante, que revela de
forma contundente os estragos causados pelo consumismo
desenfreado ao meio ambiente e às relações
humanas. A mensagem principal do filme poderia ser resumida
da seguinte maneira: se mantivermos os atuais padrões
de produção e consumo, se não corrigirmos
o rumo, seremos cada vez mais manipulados, superficiais
e avalistas de uma destruição sem precedentes
dos recursos naturais não renováveis do
planeta.
O festival chegou ao fim com representantes de canais
de televisão negociando a exibição
dos filmes premiados, o que seria uma ótima idéia.
Cinema não é apenas a melhor diversão,
como se diz. É possível ir além,
entreter educando, e buscar inspiração para
construir efetivamente um mundo melhor. Viva o cinema
ambiental!
André
Trigueiro é jornalista com pós-graduação
em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, professor
de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, coordenador editorial
e um dos autores do livro "Meio Ambiente no século
XXI" (Editora Sextante, 2003).
FONTE:
http://www.ecopop.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=10&from%5Finfo%5Findex=6&infoid=104/